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FOLHETIM



UMA LÔA DO NATAL EM PROSA[1]


CONTO PHANTASTICO
DO NATAL
POR
CHARLES DICKENS
(Versão do original inglez)
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PREFACIO

Exforcei-me n'este phantastico livrinho, a apresentar o phantasma d'uma ideia, que não torne os leitores de mau humor comsigo mesmos, com os outros, com a estação, ou comigo. Possa elle ser o espirito familiar de cada habitação, e não merecer os esconjuros de ninguem. São estes os maiores desejos do

Auctor.



ESTROPHE I


O espectro de Marley


Para começarmos, — Marley tinha morrido. Não havia a menor duvida sobre tal acontecimento. A sua certidão d'obito fôra assignada pelo parocho, pelo sachristão, pelo armador, e pelo testamenteiro. Scrooge tambem a assignou; e o nome de Scrooge era de bastante peso sobre uma letra de cambio para deixar de o ser em outro qualquer papel onde o quizesse firmar.

Por conseguinte o pobre Marley estava tão morto, como um prego de porta[2].

Entendam bem, que não quero dizer com isto que sei alguma coisa, por experiencia propria, sobre o caso d'um prego d'uma porta estar morto ou não. Eu por mim antes me inclinaria a crêr que o objecto do officio de ferreiro, mais morto é um prego d'um esquife. Mas a sabedoria dos nossos antigos é a que dá força á comparação, e não serei eu, pobre diabo, quem venha pôr pecha a uma coisa tão santa; e se fosse assim onde iria parar o nosso paiz?

Portanto hão de conceder-me licença para repetir, com emphasis, que Marley estava morto como um prego d'uma porta.

Sabia acaso Scrooge que elle morrêra? Certamente que sabia. Como poderia ser d'outra forma? Scrooge e elle eram socios, nem eu sei bem já ha quantos annos. Scrooge era o seu unico administrador, o seu unico socio, o seu unico legatario universal, o seu unico amigo, e o seu unico testamenteiro. E até Scrooge não ficou tão ralado de saudade, que deixasse, no proprio dia do funeral de fazer um magnifico negocio. Se elle era um excellente commerciante!

A menção do funeral de Marley traz-me á ideia o ponto d'onde me apartei. Não havia duvida alguma que Marley tinha morrido. Devem ter isto bem na lembrança, ou então deixemo-nos da historia porque nada de maravilhoso poderá sahir do que vou narrar. Se não estivessemos bem convencidos de que o pae de Hamlet morrera antes de começar a tragedia, não haveria nada de mais notavel em elle vir dar um passeio nocturno bafejado pelo vento suão, sobre as ameias do seu castello, do que em qualquer sugeito de meia idade, vir collocar-se n'um sitio sombrio e triste — por exemplo no adro de S. Paulo — para metter medo a um seu filho ainda creança.

Scrooge nunca riscou o nome do velho Marley da firma da sociedade. Ainda por muitos annos ficou gravado por cima da porta do escriptorio — Scrooge & Marley, firma porque era conhecida aquella casa commercial. Algumas vezes pessoas pouco ao facto dos negocios, chamavam-o Scrooge, outras vezes simplesmente Marley; mas elle respondia igualmente a um e outro nome — para elle era tudo a mesma coisa.

Oh! mas o tal snr. Scrooge era um muito grande patife!... avaro como elle nunca allumiou a luz do sol. Duro como a pederneira, de que o aço ainda não extrahiu a generosa scentelha; concentrado e solitario, como a ostra! O frio que o circundava gelava-lhe as feições, aguçava-lhe o nariz ponteagudo, enrugava-lhe as faces, diminuia-lhe o abdomen, avermelhava-lhe os olhos, azulava-lhe os labios, e, finalmente, tornava-lhe a voz aspera como o vento de janeiro. Uma camada de alva neve cobria-lhe a cabeça, as sobrancelhas e a barba fina.

Para toda a parte aonde se dirigisse acarretava comsigo a sua temperatura propria, abaixo de zero; durante as caniculares fazia gelar o escriptorio, e nem mesmo durante o natal mudava sequer um grau á temperatura.

O frio ou o calor intenso pouca influencia produziam sobre Scrooge. Os ardores do estio não o podiam aquecer, nem o mais rigoroso frio conseguia gelal-o.

Nunca o vento soprando foi mais aspero do que elle, nem a neve cahindo conseguiu mais depressa o seu fim, nem a chuva a torrentes se tornou mais inexoravel.

O mau tempo não o incommodava na menor cousa. A chuva mais pesada, a neve, o graniso, e o gelo só a um respeito lhe levavam vantagem; cahiam em profusão e Scrooge ignorava completamente esse termo.

Nunca pessoa alguma o fez parar na rua para lhe dizer com ar prasenteiro: — «Como está, meu caro snr. Scrooge? quando ha de ir fazer-me uma visita?»

Nunca um mendigo lhe pediu uma esmolinha, nem creança lhe perguntou as horas, nem homem ou mulher lhe pediu informações sobre o caminho melhor para tal ou tal logar. Até os cães dos cegos pareciam conhecel-o, e quando o viam aproximar, puxavam seus amos para as portas das cocheiras ou viellas lateraes, mexendo com o rabo como querendo dizer: «Meu pobre amo, mais vale não vêr nada do que ter mau olhar.»

Mas que se importava Scrooge com tudo isso? Era exactamente do que elle gostava. Caminhar atravez da povoada estrada da vida avisando a sympathia humana para que se conservasse em distancia, era para Scrooge o seu pratinho favorito.

Certo dia — o melhor de todos os dias do anno, a vespera de Natal — o velho Scrooge estava sentado no seu escriptorio, muito atarefado. Fazia um frio de trespassar a mais pesada roupa, e o tempo estava chuvoso; fóra da porta estava um nevoeiro espesso. Scrooge podia ouvir a gente que passava na rua para cima e para baixo batendo as mãos nos peitos, tiritando de frio, e estampando os pés com furia sobre a calçada, para os aquecer. Os relogios da cidade tinham ha pouco soado as tres, mas já era quasi escuro.

Pouco claro estivera durante todo o dia, e agora as luzes nas vidraças dos escriptorios visinhos similhavam-se a nodoas de graxa vermelha n'um fundo escuro.

O nevoeiro foi penetrando no interior das casas por todas as fendas e buracos das fechaduras, e era tão denso na rua, que apesar d'esta ser estreita, as casas fronteiras divisavam-se como phantasmas. Ao verem-se as sombrias nuvens virem descendo cada vez mais, e espalharem sobre todos os objectos profunda obscuridade, dir-se-hia que a natureza viera alli estabelecer perto uma fabrica de cerveja em larga escala.

A porta do escriptorio de Scrooge estava aberta afim de poder vigiar o caixeiro, que no seu triste cubiculo, que mais parecia uma cisterna, estava copiando cartas. Scrooge tinha junto de si um fogo quasi extincto, mas o do caixeiro ainda estava em peores condições porque parecia simplesmente um carvão escandecido. O desgraçado não o podia renovar porque Scrooge guardava a caixa do carvão, e de todas as vezes que o caixeiro se preparava a trazer algum na pá, o patrão prégava-lhe um comprido sermão em que lhe predizia que não estava longe o dia de se separarem. Era por isso que o caixeiro puxava acima o seu abafador de lã, e fazia todos os exforços por se aquecer á luz do candieiro, mas em vão, por que o pobre diabo não era dotado d'imaginação viva.

— Boas festas! meu tio. Deus o salve, gritou uma voz alegre.

Era a voz do sobrinho de Scrooge, entrando com tal rapidez que foi este o primeiro signal que deu de si.

— Ora, ora! disse Scrooge. Asneiras!

Tanto se aquecera com o passeio rapido pelo nevoeiro e frio, o sobrinho de Scrooge, que estava todo n'uma chamma; a sua physionomia era rosada e bella, os olhos scintillavam, e a sua respiração ainda fumegava.

— O tio chama ás Boas festas asneiras! disse o sobrinho de Scrooge; o tio não falla serio, bem vejo.

— Fallo muito serio, sim, disse Scrooge! Boas festas... Festas alegres... é insupportavel. Que direito ou que razão tens tu para estares alegre? Não és tu demasiado pobre!

— Ora vamos, vamos! replicou o sobrinho alegremente. E que razão tem o tio para estar triste? e que razão tem para se demorar no dia de hoje a fazer contas? Não é rico bastante?

Scrooge não tendo no momento resposta alguma convincente, resmoneou um «Ora», que foi seguido da sua favorita expressão «Asneiras».

— Não esteja de mau humor, meu tio, disse o sobrinho.

— E como não hei de estar, disse o tio, se vivo n'um mundo de loucos como este! Boas festas!? Malditas Festas digo eu! Que é o tempo de Natal, senão uma epocha de pagarmos as nossas letras, muitas vezes sem termos dinheiro; tempo de nos acharmos com um anno mais de idade, e nem por isso com uma hora mais de riqueza; tempo de darmos balanço aos nossos livros, e vermos que todas as transacções alli mencionadas, feitas atravez dos doze mezes do anno, não deixaram o menor proveito? Se eu podesse fazer a minha vontade, continuou Scrooge com indignação, todo o pateta que percorre as ruas dando as Boas festas, havia de ser cozido no seu proprio pudding[3] e ser sepultado com uma frecha d'azevinho trespassando-lhe o coração. Digo o que penso!

— Meu tio! exclamou o sobrinho, tornando-se advogado officioso do Natal.

— Sobrinho, replicou o tio severamente, festeja o Natal como te parecer, e deixa-m'o festejar cá a meu modo.

— Festejal-o! replicou o sobrinho de Scrooge, mas o tio não o festeja!

(Continua).
  1. Em publicações posteriores o título foi alterado para "Uma lôa de Natal".
  2. Locução ingleza.
  3. Todos os puddings de dia de Natal, em Inglaterra, tem no cimo um ramo de azevinho.