Pacotilha poetica/O que deve esperar das amizades

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Pacotilha poetica
O que deve esperar das amizades


SENHORAS

2 Intrigas, muitas intrigas!
   Oh! que boas amizades!
   Sereis a causa, senhora,
   De tantas inimizades.

3 Dinheiro, heranças immensas
   E o mais que não sei, não;
   Mas cuidado, que as intrigas
   Serão vossa perdição.

4 O que se ganha? Em visitas
   O tempo roubado vai;
   Gastam chá e muitas vezes
   Té o dinheiro lá sahe!

5 Namoro, facilidade
   Para namorardes bem!
   Pois p'ra páo de cabelleiras
   As amigas geito têm!

6 Uma tremenda salsada
   No fim de um bello saráo,
   Onde vereis vosso amante
   Apanhar por vós de páo!

7 Tudo o que ha de bom na terra,
   Porque vós sois muito boa;
   De todos quantos aqui estão
   Vós sois a melhor pessoa.

HOMENS

2 Muitas honras e grandezas,
  Titulos e graduações,
  Ganhareis de mil amigos,
  Por vossas bajulações.

3 Dinheiro? E' o que gostais!
  Mas com amigos perdereis,
  E sem amigo e vintem
  Muito cedo ficareis.

4 Um namoro que por certo
  Vos tornará millionario;
  Mas, amigo, a pobre velha
  Já está no octogenario!

6 A amizade vos prepara
  Dias de eterna ventura,
  Com bons empenhos tereis
  Tambem grande sinecura

6 Talvez em breve amizade
  Grande riqueza vos traga,
  E vos dê para morada
  O palacio da Azinhaga.

7 Um ministro, vosso amigo,
  Fará de vós seu poleiro;
  Elle por nescio e vaidoso,
  E vós por mui lisongeiro.

SENHORAS

8 Prova de boa amizade
   Na peior situação;
   Eu só vos peço, senhora,
   Não pagueis com ingratidão.

9 Conhecerdes este mundo
   Que é mundo de ingratidões;
   Mas aproveitai, senhora,
   Não esperdiceis as lições.

10 Que vos tirem inda do lance,
     Porque o lance é muito bom,
     Se bem que afóra o dinheiro,
     O moço é sem tom nem som.

11 Nada, que vossas amigas
     São bem como todas são;
     Nas faces muita alegria,
     No peito muita traição.

12 A mulher de algum ministro.
     Vos promette muita cousa,
     Esperai, que o desengano
     Será nem cousa nem lousa.

HOMENS

8 Ser cantado em prosa e verso,
  Ser levado á eternidade,
  Como o modelo sem par
  Da mais benigna amizade!

9 O fim que teve Edelmonda
  A' vossa amante dareis:
  E á perfídia da amizade
  Um tal crime devereis.

10 Os parabens não vos dou
  Por terdes muitos amigos,
  Que ainda por muitas cousas
  Serão vossos inimigos.

11 Esse que come comvosco
  Esse que comvosco bebe,
  Ah! que para injuriar-vos
  Boas patacas recebe.

12 Temei assaz esses falsos,
  Que vossos amigos são;
  Hão de faltar vos deveras
  De crise na occasião.