Pacotilha poetica/Se é correspondido por quem ama

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Pacotilha poetica
Se é correspondido por quem ama


SENHORAS

2 Se sois! O pobre delira,
  Por possuir vossa mão;
  Agora é manso cordeiro,
  Depois vel-o-heis leão!

3 Muito e muito, e até de mais,
  Pois elle tanto se inflamma
  Por vós, que até chega o tempo
  Para amar-vos a mucama.

4 Não; o vosso namoro
  Não se pode comprehender;
  São de arrufos e rigores
  Sem um quindinzinho ter.

5 Pensais ser; porém, senhora,
  Elle é incomprehensivel;
  Resiste, resiste muito
  Mostrando-se irresistivel.

6 Amais e não sois amada
  Senão por um desgraçado,
  Que nem por sonhos pensais
  Que sois delle idolatrado.

7 Póde ser! Mas eu duvido,
  E não vos dou a razão;
  Não posso! Bem que quizera
  Trahir a vossa paixão.

HOMENS

2 Não sois, não fostes, e nunca,
  E nunca sereis, senhor;
  A tal pobre negra mina
  Em nada vos tem amor.

3 Não, senhor; a pobre ilhôa
  Por quem suspirais de amor
  Só gasta todo o seu tempo
  Com um patrão do vapor.

4 Pela moça não, meu lord,
  Que jámais por vós se inflamma;
  Coragem, porém, que o sois
  Por sua bella mucama!

5 Ella finge que vos ama
  Quando a outro tem amor;
  Se o outro roer-lhe a corda,
  Será vossa, sim, senhor.

6 Pensais que o sois, meu paspalhão,
  Mas a sorte verdadeira
  Vos adverte que apenas
  Sois um páo de cabelleira.

7 Não podeis, não podeis ser,
  Seu amor não é verdadeiro,
  Pois a tal negra Benguella
  Morre só por seu parceiro,

SENHORAS

8 Sois; e não devia sel-o.
  Pois amais a mais de seis,
  E a cinco pelo menos
  Minha rica lograreis.

9 Muito e muito, minha amiga;
  O homem em tal se desvela;
  Mas cuidado que não tenha
  Alguma dôr de canella.

10 Minha senhora, não presta
  P'ra vós o presente assumpto,
  Pois gastais a vossa cêra
  Com o mais ruim defunto.

11 Elle segue bem á risca
  O sacrosanto preceito
  Que manda o proximo amar
  Mas atrás de algum proveito.

12 Não sois, e sabeis a causa,
  Pois tendes uma rival
  Cujo encontro eu vaticino
  Que vos deve ser fatal.

HOMENS

8 Não sois; a moça é ingrata
  Como a amante de um poeta;
  E ha de fazer de vós
  Um refinado pateta.

9 Não sois, e por vossa culpa
  Ella vos advirtio;
  Agora o trunfo ás avessas,
  Meu amigo vos sahio.

10 Não sois, não fostes, nem nunca,
  Nem nunca sereis, senhor,
  Pois sabeis que as quitandeiras
  Querem ouro por amor.

11 Muito, e ella folga disso
  Com a mira no dinheiro!
  Ah! meu tolo, acreditai-me,
  Não ha amor verdadeiro!

12 Sois muito correspondido,
  E, meu senhor, porque não?
  A moça não pensa em vós:
  Nos contos cifra a paixão!