Pacotilha poetica/Se é trahida no olhar ou no falar

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Pacotilha poetica
Se é trahida no olhar ou no falar


SENHORAS

2 No olhar desmentis a boca,
  Gostam mais do vosso olhar;
  Por elle, porém, trahida,
  Confessais saber amar.

3 Nem no olhar nem no falar,
  Mas nas cartinhas de amor,
  Onde a par do doce genio
  Transuda o vosso rigor!

4 No falar, quando a saudade
  Vos opprime o coração;
  No olhar, quando junto delle
  Mostrais a vossa paixão.

5 N'olhar, vós mostrais que amais,
  No falar dizeis que não;
  Assim todos não soubessem
  Qual é a vossa paixão.

6 No olhar, e sempre no olhar
  Que reflecte o coração,
  Pois que nas vossas palavras
  Só ha dissimulação.

7 Que olhos! como são bellos!
  Oh! como falam de amores!
  Muda sois; falais por elles,
  Como são elles traidores!

HOMENS

2 Sois um grulha desmedido,
  Falais pelos cotovelos,
  Mas vos trahis tão sómente
  Pelos vossos olhos bellos.

3 Namorado sem ventura,
  Nem sabeis sequer olhar,
  Pensais que piscando o olho
  E' que deveis namorar.

4 No olhar, ah! nem por sombra,
  Inda menos no falar;
  Porém dais taes pisadellas,
  Que é de bestas o namorar.

5 Quereis passar por nascido
  Nesta bella e boa terra,
  Mas a lingua, meu amigo,
  Por aspera, constante erra.

6 Calado sois muita cousa,
  Tendes ar de figurão,
  Falais.. adeus encommendas!
  Não passais de um paspalhão!

7 No riso sempre sardonico,
  Que reflecte o coração!
  Ah! vós não podeis ser bom,
  Não me enganais a mim, não.

SENHORAS

8 Se ha quem saiba que amais,
  Vossos olhos culpas tem,
  Porque de vossos falares
  Culpa nem uma vos vem!

9 Sois tão meiga nesses olhos
  Quando ao lado delle estais,
  Que a confissão dos amores
  Constantemente nos dais.

10 Sois bella: mas vossos olhos
  Não revelam nada, não;
  E' que são tão velhaquinhos
  Como vosso coração.

11 No Baile de S. Domingos,
  Os olhos vos trahirão:
  Oh! não vades a tal baile,
  Que morrereis de paixão.

12 Na voz; mas a voz é falsa
  Se junto delle cantais,
  —Eu te amo— eu te adoro
  A medo pronunciais.

HOMENS

8 Não sei; ahi está quem sabe,
  Quem bem vos póde dizer;
  Tanto sabe, que por vós
  Está de amores a arder!

9 No falar vos trahis sempre,
  Porque sois menos exacto;
  No olhar ás vezes que tendes
  A pedrinha no sapato.

10 Sois nullo! Pois monstro horrendo
  Sois que nem um bicho páo,
  Sem expressão, sem maneiras,
  Mais magro que um bacalháo.

11 No falar! triste de vós
  Não guardais circumspecção,
  Se trazeis no peito roto
  Por amostra o coração.

12 No olhar! nunca mentis,
  Estando sempre a falar,
  Sem que deis com os cotovelos,
  Com os olhos a piscar!