Pacotilha poetica/Porque foi que quem amava lhe esqueceu

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Pacotilha poetica
Porque foi que quem amava lhe esqueceu


SENHORAS

2 Foi porque vos vio um dia
  Dizer o outro: «Eu vos amo;
  «Se amo a outro é fingido,
  «Que por vós eu só me inflammo»

3 Porque vio já alta noite
  Parando a vossa janella,
  Negro vulto que dizia:
  —Eu vos amo, minha bella!

4 Por causa daquelle sim,
  Depois daquelle talvez.
  Antes daquelle me deixe,
  Por aquillo que elle fez.

5 Por muitas cousas: primeiro,
  Por causa de certo não;
  Segundo, pela mentira
  De uma falsa confissão.

6 Porque pedio-vos a flôr
  Que tinheis hontem na trança,
  Não lha déstes, e dahi
  A fatal desconfiança.

7 Ignorais? Pois sabido
  E' já de todo o Brazil,
  Que morreis hoje por outro
  Do que elle mais gentil.

HOMENS

2 Porque teve seu motivo,
  Que é zeloso o coração;
  A uma bixenta negra
  Renderdes negra paixão!

3 Porque no Omnibus vio-vos,
  Bem ao pé de uma Franceza,
  E já diziam que vós
  Morrereis por tal fraqueza.

4 Esqueceu-vos? Que desgraça!
  Pois tamanha fealdade
  Faz lembrar a qualquer ente
  Até a futura idade!

5 Porque vos vio namorado
  De moças das Larangeiras,
  Que cantam com requebrados
  As modinhas brazileiras.

6 Por uma cousa de nada,
  Que é mesmo um rigor do fado,
  Pois soube que o vosso alcunha
  E' o de Gato pingado!

7 Porque lá no seu namoro
  Vos tinha por firme amante,
  E a final reconheceu-vos
  Pelo mais bello tratante.

SENHORAS

8 Elle teve seus motivos,
  Esses motivos sabeis:
  Ah! também amar tal mono
  Por certo que não deveis.

9 Porque vio que não devia
  Querer cousa tão estranha;
  Se sois pombinha sem fel
  Tendes dentes de canhanha.

10 Mal vos vio que elle adorou-vos
  Que enlouqueceu logo e logo,
  Mas logo e logo deixaste
  Por outro de Botafogo!

11 Porque é muito inconstante,
  Porque tem o seu senão;
  Não zombeis, que tambem vós
  Não tendes tal isenção.

12 Porque vos vio na janella
  Tendo no peito um cravinho;
  Quem vol-o deu sabe elle,
  Pois o encontrou no caminho.

HOMENS

8 Porque no hotel Pharoux,
  Existe quem vos quer bem;
  E' uma bella Argentina,
  Que estab'lecer-se aqui vem!

9 Porque raspastes, nhonhô,
  O negro e bello bigode;
  A moça que vos estima,
  Ver agora vos não póde.

10 Um dia ella dirá
  Tudo tintim por tintim;
  Suspirareis de saudades!
  O que é bom tem cedo fim.

11 Ella soube e depois vio,
  Oh que damnada affeição!
  Votardes tambem amores
  A um tão negro tição!

12 Esqueceu-vos! Uma bruxa,
  Com cara de escumadeira?
  E' qu'ella pensou primeiro
  Qu'era só por brincadeira!