Pacotilha poetica/Se ha de dar que falar em alguma cousa

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Pacotilha poetica
Se ha de dar que falar em alguma cousa


SENHORAS

2 Tão completa nullidade
  Descereis á sepultura,
  E o não se falar em vós
  Será a vossa ventura.

3 Pelo que? — por não ser bella?
  Pelo que? — por presumida?
  Pelo que? — ha como atino,
  Por ser nada nesta vida.

4 Pela vossa f’licidade
  Sereis na patria falada,
  Ganhareis até na Europa
  Uma tal qual nomeada.

5 Naquillo que bem sabeis,
  E que está ainda em segredo
  Mas sentido, sinházinha,
  Que não é para brinquedo.

6 Em arrancardes as cans,
  Que vos estão a enfeiar,
  Não vendo que logo cedo
  Haveis de calva ficar.

7 Pela fama das empadas
  Que fareis com gran primor,
  Que será breve um manjar
  Do mais divino sabor.

HOMENS

2 Naquella certa cousinha
  Com aquella certa pessoa,
  Que fará com que aquillo
  Não seja lá cousa boa.

3 Ouvireis por toda a parte
  O gabo eloquente e grato
  De vossos tamanhos feitos
  Como capitão do matto.

4 Sim, por certo, e porque não?
  Qu’amores, meu Deus qu’amores!
  E depois… fostes ingrato,
  Tratando-a com mil rigores!

5 Não jogais? Pois falam disso.
  Não falais? Tanto peior.
  Não dansais? A mal vos levam.
  Não cantais? Inda melhor.

6 Tanto, tanto, tanto, tanto,
  Quanto, quanto, quanto, quanto
  Desejais para causar
  A todo este mundo espanto.

7 Dirão que sois bandoleiro;
  Dirão que sois toleirão;
  Dirão que nada sabeis;
  E afinal nada dirão.

SENHORAS

8 Sim, dareis, oh sim, dareis!
  Com taes olhos seductores,
  Que entendem com a gente
  Nos volveres matadores.

9 Por causa delle por força,
  Que por vossa causa não,
  Pois vós mesma afiançais
  Que é só delle a tentação.

10 Sim, dareis, e porque não?
  Não dansais, não tocais bem?
  Não sois bella como um anjo?
  Como vós não ha ninguem!

11 Sim, com vossa intrepidez,
  Nos mais arriscados trances,
  Nos mais perigosos passos,
  Nos mais esforçados lances.

12 Muito e muito, senhora,
  Com o que quereis fazer,
  Pois que por não conseguil-o
  Haveis cedo eudoudecer.

HOMENS

8 Direis que ella vai gritando;
   «Ai, pega, pega ladrão!
   Roubou-me os dias felizes,
   E roubou-me o coração!»

9 Sim e não; quem saber póde,
   Se é o destino tão vario?
   Deixai que falem ou não,
   Segui o vosso fadario.

10 Nullidade, nullidade,
   Ninguem de vós se dará;
   Quer sejais grande ou pequeno,
   A ninguem importará.

11 Sim, com vossas pretenções,
   Sim, com vossas mil emprezas,
   Sim, com vossas boas artes.
   Sim, com vossas espertezas.

12 Por não namorar, oh não;
   Por sim, póde ser que sim ;
   Pois será em vós mania,
   A qual jamais terá fim.