Paraíso Perdido/Livro VIII

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Paraíso Perdido por John Milton, traduzido por António José de Lima Leitão
VIII
Adão interroga o arcanjo acerca do movimento dos corpos celestes: teve resposta duvidosa, e ouviu a exortação para antes se ocupar na indagação de coisas cujo conhecimento lhe seja de proveito maior. Convence-se desta verdade; — e, desejoso de mais demorar ainda Rafael, relata-lhe o que lhe lembra desde que foi criado; como veio ao Paraíso; sua conversação com Deus a respeito da solidão e da sociedade tão necessária ao homem; seu primeiro encontro e suas núpcias com Eva. Sobre este assunto aconselha-o também o arcanjo; e, depois de repetir-lhe as admoestações, retira-se.


JÁ tinha a narração findada o arcanjo;
E inda a voz sua no encantado ouvido
De Adão ressoa, que inda o crê falando
E, por que nada perca, atento escuta.
Mas logo, como quem de êxtase acorda,
Dest’arte lhe responde agradecido:

“Que dignas graças, que devido prêmio
Te posso eu dar, historiador divino,
Que assim saciado tens tão largamente
A sede de saber que me abrasava,
Tendo a condescendência tão amiga
De relatar-me coisas estupendas
Que eu jamais de outra sorte descobrira.
E o que ouço agora com prazer e arroubo
Atribuindo a devida glória delas
Ao sábio Criador? Restam contudo
Em minha mente dúvidas que certo
Resolver podes com franqueza pronta.
Quando esta bela máquina contemplo,
Este Mundo que os Céus e a Terra formam,
E aprecio as grandezas respectivas,
Acho esta Terra um grão, um ponto, um átomo
Comparada ao sublime firmamento
Com todos esses lumes numerosos
Que parecem girar no espaço imenso
(Que imenso o provam deles as distâncias
E o diurno velocíssimo regresso).
Observo que em redor da Terra opaca,
Deste át’mo deste ponto, eles volteiam
Tão somente ocupados, dia e noite,
A ministrar-lhe luz sem que aproveitem
À demais extensão imensurável.
Raciocinando então, muito me admira
Como tão sóbria e sábia a Natureza
Caísse em tais desproporções, criando
Com mão supérflua corpos tão sem conto,
De muito mais nobreza, vulto e brilho,
De rotações perpétuas, incansáveis,
Para este uso somente, — enquanto a Terra
Que por giro menor se moveria
Mais facilmente, em tempo menos longo,
A seu fim chega, imóvel, sedentária,
Servida por mais nobres astros que ela,
Dos quais, como tributo, aceita ufana
O calor que a fecunda, a luz que a doura,
Por viagens tais e tantas conduzida
E ligeireza tal que não avondam
Para avaliá-la os números que temos.”

Assim falou Adão: seu porte abstrato
O inculca entrado em pensamentos grandes.

Eva, que um tanto à parte se assentava,
Do esposo o intento vê; ergue-se; e logo
Com majestade humilde e ingênua graça,
Que ateava em quem a via o doce anelo
De que nunca dali se lhe ausentasse,
Dirige os passos ao vergel viçoso
A observar como as árvores, as plantas,
Que dispusera lá, preparam, brotam
As flores, os botões, gomos e frutos,
Que dela à vista e pela mão tocados
Se abrem e crescem com presteza ovante.
Mas não se entenda que ela se retire
Porque discursos tais não a deleitem,
Ou porque seus ouvidos não se ajustem
A quanto há de sublime: ela se guarda
Para o prazer de ouvir a Adão dizer-lhos,
Sendo ela única ouvinte; antes do esposo
Quer sabê-los que do anjo a quem perguntas
Não ousara fazer, tão fáceis no outro
Que amáveis digressões (ela o sabia)
Havia de entremear no grande assunto,
Também entrando conjugais carícias,
Que ela cheia de amor nem só palavras
Dos lábios dele receber costuma:
(Onde se ajunta agora um par como este,
Unindo-o mútuo amor, lealdade mútua?)

Lá se retira; tem de deusa o porte,
E não sem corte vai porque é rainha:
Das graças mais gentis soberba pompa
Sempre a rodeia; de seu ar divino
Despedem-se desejos fulminantes
Para todos os olhos que admirados
Procuram sempre apascentar-se nela.

Eis Rafael, benévolo, agradável,
Às dúvidas de Adão assim responde:

— “Tuas indagações, tuas perguntas
Eu não condeno. Os Céus, que a ti se mostram,
São do supremo Deus o livro aberto,
Onde de suas obras os prodígios
Ler podes e aprender como se medem
As horas, dias, meses, quadras, anos.
Logo que isto alcançares, não te importe
Se o Céu se move ou se se move a Terra,
Ou se a respeito tal tu bem calculas:
Do Arquiteto imortal a augusta ciência
Esconde tudo o mais de homens e de anjos,
E seus grandes segredos não divulga
Aos exames dos que antes só deviam
Admiração humilde tributar-lhes.
A fábrica dos Céus ele abandona
A fátuas conjecturas e argumentos,
Talvez para sorrir quando insensatos,
Com vastas opiniões, lidado estudo,
Componham no porvir do Céu os moldes,
As estrelas ao cálculo submetam,
Dêem vibração à máquina do Mundo,
Desmanchem-na, fabriquem-na de novo
Para de inconvenientes ressalvá-la, —
Quando cinjam com círculos a esfera
Concêntricos, excêntricos, confusos,
Com ciclos, epiciclos, uns sobre outros.
Pelo teu raciocínio bem conheço
(E tu serás de tua estirpe a norma)
Que entendes que esses corpos fulgurantes,
Maiores do que a Terra, não deviam
Servir a Terra que é menor e opaca;
Que não devia o Céu fazer tais giros,
E a terra, a só que se utiliza, queda.
Primeiro atende que a grandeza, o brilho,
Só por si primazia não infundem:
Comparada co’os Céus pequena, opaca,
Pode a Terra possuir mais excelência,
Bem maior do que o Sol que estéril brilha,
Cuja virtude, improdutora nele,
Só na Terra frutífera se mostra;
Ali os raios seus, de outr’arte inúteis,
Vigor adquirem, mil efeitos causam.
Conclui, entanto, que em serviço à Terra
Esses brilhantes orbes não fulguram,
Mas em serviço a ti que a Terra habitas.
Do Céu o âmbito ingente é quem mais pode
Falar de seu Autor no imenso gênio
Que as amplas raias lhe estendeu tão longe,
Que tão vasto edifício ergueu no espaço.
Contente-se o homem de saber que mora
Em uma habitação que não é sua:
Tão grandes paços ocupar não pode;
Só pequena porção habita deles:
O uso do resto, só o Eterno o sabe.
De sua onipotência tu deriva
A rapidez inúmera dos astros...
Ele que dota as corporais substâncias
De quase espiritual velocidade —
Que tu bem aprecias, atentando
Que eu hoje de manhã parti não cedo
Dos elevados Céus, de Deus morada,
E cheguei antes do mei’-dia ao Éden,
Distância para sempre inexprimível
Por números que tenham nome no orbe.
Dando o mover-se aos Céus, assim me exprimo
Para o motivo inválido mostrar-te
Que em dúvidas te lança; mas contudo
Nada te afirmo, posto que isto quadre
A ti que tens morada aqui na Terra.
Para os caminhos seus deixar a salvo
Da pertinaz indagação humana,
Deus colocou da Terra os Céus tão longe, —
De sorte que, se ousasse a humana vista
Querê-los indagar, errasse sempre,
E vantagem nenhuma conseguisse.
Mas que disseras tu, — se o Sol brilhante
Deste Universo teu o centro fora,
E os demais astros em diversos giros
Por atração recíproca obrigados
Andassem dele em torno? Em seis percebes
Vaga carreira, erguida, baixa, oculta,
Progressiva, retrógrada, parada;
E que disseras se, como eles, fosse
A Terra tua o sétimo planeta
Indo insensivelmente circulando
Com movimentos três, diversos todos,
Ela que tão imóvel te parece?
Dado isto, atende que admitir não podes
Que em rumo oposto e em direção oblíqua
Esferas diferentes se revolvam,
Para trabalho enorme ao Sol poupares
E ao rombo que supões mas não observas,
Por cima das estrelas, presidindo
Da noite e dia ao círculo alternado.
Não ganhas nada em conhecer se a Terra,
Sobre o oriente rolando e em próprio moto,
Vai em busca do dia, e segue a noite
Coa face oposta que do Sol se esquiva,
Enquanto dele a luz resplendecente
A outra face lhe doura, e lhe abrilhanta.
E que disseras se essa luz, que corre
Do ar espaçoso as diáfanas campinas,
Repercutida pela diurna Terra,
Vai alumiar a Lua, qual de noite
À luz da Lua a Terra se alumia?
Talvez existam, como nesta, na outra
Habitantes gentis, campos fecundos,
Que de tão mútuo auxílio se aproveitem:
Vês ali manchas que parecem nuvens;
Nuvens dão chuva, chuva frutos cria
Em solo fértil que nutrir bem podem,
Os que por sorte ali nascido houvessem.
Talvez também que a descobrir tu chegues
Mais sóis que de outras luas se acompanhem,
Cujas luzes, os sexos dois possuindo,
Se unam, se comuniquem, se propaguem,
E o Mundo assim animem, entranhando
Em cada orbe prolíficas virtudes.
Talvez também que tão imenso espaço
Nenhum vivente espírito o povoe,
E antes deserto, inabitável seja,
Só próprio a transmitir da luz os raios
Descidos lá de tão longínquos orbes
Sobre este, o só que se orne de habitantes,
E que a seu turno lhos reenvie logo.
Todas estas hipóteses dão azo
A intermináveis, férvidas disputas.
Mas se isto é certo ou não, se às soltas no éter
Da Terra em torno o Sol se eleva e gira,
Do oriente vindo em flamejante pompa
Ou se do Sol dá volta ao disco a Terra
Do ocidente avançando imperceptível
E, ao mesmo tempo, sobre si rodando
Em seu eixo macio, sonolento,
Te embala e leva a ti qual leva os ares, —
Esse oculto problema não te canse:
Deus na altura dos Céus mui bem o entende.
Temer, servir a Deus, a ti só cumpre.
Segundo lhe aprouver, dispor o deixa
Dos mais viventes onde quer que assistam:
De quanto ele te deu, contente goza;
No Éden e em Eva tens a humana dita.
São para ti os Céus muito elevados
Para o que neles possa conheceres:
Sê modesto, coa ciência não te ufanes;
Tua existência e cômodos só busca:
Se outros mundos existem não indagues,
Nem se neles habitam criaturas,
Qual delas seja o grau, estado ou sorte:
Satisfaça-te o quanto, à larga e franco,
Da Terra e do alto Céu te hei revelado.”

Já dúvidas não tendo, Adão lhe torna:
“Satisfeito de todo estou decerto,
Arcanjo puro, inteligência empírea;
E ensinado por ti conheço ao justo
A mais fácil estrada, a mais sem riscos,
Por onde a vida encaminhar se deva
Isenta de perplexas fantasias
Que a tranqüila doçura lhe interrompem;
A vida que Deus quer que penas e ânsias
Nunca perturbem, nela nunca habitem,
Exceto as que nós mesmos procurarmos
Com vãs idéias e erradios planos.
Mas a imaginação, o entendimento,
Propendem a vagar sem fim, sem modo,
Até que, por alguém sendo avisados,
Ou vindo a si por experiência própria,
Conhecem que a sapiência não consiste
Em perscrutar às soltas mil objetos
Escondidos, sutis, que nunca se usam, —
E sim o que na vida cotidiana
Achamos ante nós e a nós preciso:
É vaidade, ilusão, loucura o resto;
E o pensar nele... faz sermos, em tudo
Que à nossa utilidade mais respeita,
Inexperientes, imprevistos, broncos.
Vamos pois a descer de altura tanta
Para mais baixo vôo, e pratiquemos
Em coisas do uso a que alcançamos sempre:
Talvez de algumas delas me permitas
Fazer menção que imprópria não entendo,
E obter sabê-las da indulgência tua,
Se continuar-me o teu favor te dignas.
Tens-me contado acontecidas coisas
Antes de mim: contar-te agora apraz-me
A história minha que talvez ignores.
Inda é muito de dia: bem conheces
Com que ardil inocente me proponho
A demorar-te aqui, té que ele acabe,
Pedindo-te me escutes complacente;
E isto seria em mim loucura grande
Se em teu sim generoso não confiasse.
Contigo enquanto estou, no Céu me creio;
E mais suaves encontro os teus discursos
Do que os frutos mimosos da palmeira
(Gratos, depois do afã, à sede e à fome)
Nas horas do jantar apetecido:
Gratos decerto são, mas fartam pronto, —
E teus discursos, que enche a graça empírea,
Têm tal doçura que jamais me fartam.”

Rafael então, pelos seguintes termos
E com celeste agrado lhe responde:

— “Não destituídos tens, ó pai dos homens,
De graça os lábios, de eloqüência a língua;
Também o Eterno quis em larga cópia
Com suas grandes dádivas prendar-te:
No íntimo, no exterior fala o silêncio,
Reluz decerto em ti a sua imagem,
Os seus encantos, a beleza sua;
E modula-te a voz, forma-te os gestos.
Nós no Céu, e de Deus quanto ao serviço,
Nosso igual sócio te julgamos no orbe,
E inquirimos com gosto quais do Eterno
As vias sejam para a dita do homem,
Por vermos quanto de honras te cumula
E que ama por igual os homens e anjos.
Conta pois: nesse dia estive ausente,
Como sucede a miúdo; foi mandado,
Da legião minha em frente e em quadro posta,
A descoberta ocasional, longínqua,
Té aos negros portões do horrível Orco,
A fim de obstar que algum dos condenados
De lá em guerra ou como espião saísse
Enquanto Deus formava este Universo,
Para ele então, de audácia tal pungido,
Não vir a ponto de fazer estragos
No tempo em que da Criação se ocupa
(Não decerto que os réprobos consigam
Sem permissão de Deus sair do Inferno;
Mas ele como rei seus altos mandos
Por pompa nos impôs, também querendo
Nossa obediência pronta sujeitar-lhes.)
Fechada com firmíssima pujança
Achámos a portada temerosa,
Munida de trincheiras invencíveis;
Porém muito antes de chegarmos perto,
Ouvimos dentro sons que denotavam,
Não dança ou canto, e sim raivas e fúrias,
Prantos, lamentações, dores, tormentos.
No sábado, e antes de acabar-se a tarde,
Regressámos à luz do Céu contentes;
Esta ordem ao partir nos fora dada.
Agora pois prossegue a tua história;
Atento te ouvirei: os teus discursos
Me são tão gratos como os meus encontras.”

Falou o arcanjo assim. E Adão lhe torna:
“Acha-se o homem perplexo quando narra
Como teve princípio a vida humana!
Quem se conhece a si quando começa?
Contudo contarei: grande é meu gosto
De por mais tempo conversar contigo.
Como acabando o mais profundo sono,
Deitado em mole relva, em flores lindas,
De mim dei tino, e em suor de cheiro grato
Que o Sol, nutrido de úmidos vapores,
Co’os vastos raios seus de pronto enxuga.
Para o Céu volvo logo a vista errante:
Atônito por largo espaço admiro
Todo o amplo firmamento, até que me ergo
Por instintiva rapidez movido,
E, como procurando ir-me de um salto
Além ao Céu, nos pés firmei-me a prumo.
Vejo em redor de mim vales e montes,
Campos cheios de sol, bosques sombrios,
Cristalinas correntes murmurantes,
E criaturas que andam, correm, voam;
Cantar nos arvoredos ouço as aves:
Tudo acho encantador, risonho tudo;
Meu coração transborda de alegria.
Examino-me então; por miúdo indago
Quanto em mim vejo, tento as móveis juntas,
Ando e corro: interior prazer me impele.
Mas quem eu era, conhecer não pude,
Nem de quem tinha o ser, nem onde estava.
Diligenciei falar, falei de pronto;
A língua obedeceu-me, e a quanto via
Consegui adaptar os próprios nomes.
— “Tu, Sol, formosa luz” (eu exclamava),
“Tu alumiada Terra, ovante e linda,
“Vós, montes, rios, vales, campos, bosques,
“Criaturas que tendes moto e vida,
“Contai-me, sim, contai-me, se o souberdes,
“Donde provenho, como aqui me encontro!
“Não me fiz eu a mim; logo, outrem fez-me
“Possuindo em si os necessários dotes
“De poder sumo, de bondade imensa.
“Dizei-me: — como me será possível
“Conhecer e adorar o Autor supremo
“Da vida e intelecção de que me adorno,
“E por quem mais feliz me considero
“Do que à primeira vista me supunha?”
Falava e andava sem saber onde ia,
Do sítio me afastando em que primeiro
Vira a ditosa luz e respirara:
Não ouvindo resposta, pensativo
Sentei-me à sombra num mimoso banco
Onde a verdura matizavam flores.
Ali colheu-me o sono a vez primeira,
Que, por suave opressão tomando posse
Dos meus sentidos cada vez mais fracos,
Me fez pensar que regressando eu ia
Ao que era dantes, insensível, mudo,
E que passava logo a dissolver-me.
Eis um sonho agradável, de improviso,
Minha imaginação tendo abalado,
Deu-me o prazer de me mostrar ao certo
Que inda eu gozava de existência e vida.
Pareceu-me que alguém de empíreo aspecto
A mim se chega e diz-me: — “Homem primeiro,
“Tu, destinado pai de imensos homens,
“Ergue-te, Adão; tens prestes a morada.
“Por ti chamado, venho ser teu guia
“Para os jardins ditosos que te aguardam.”
Disse, tomou-me a mão, alevantou-me;
E, pelos ares que macios cedem,
Sem precisão de andar, me foi levando
Sobre campinas e águas iminente,
Até me colocar numa montanha
Cujo cimo era um plano em torno vasto.
Cercava-se ele de árvores formosas,
Entremeado de flores e de plantas
Ora em caramanchões, ora em latadas,
Já em vistosas moitas, já dispersas,
Cortadas de lindíssimos passeios, —
De maneira que a terra dantes vista
Por muito menos bela eu reputava:
Cada árvore enfeitava-se de frutas
De variedade encantadora, e os olhos
Subitâneo apetite me entranharam
De as colher e comer. Eis nisto acordo
E vejo tudo real, como dormindo
Me fora vivamente afigurado.
De novo andara, se o que foi meu guia
Para estes sítios se me não mostrasse,
Com seu divino porte, no arvoredo:
Cheio então de respeito e de alegria,
Prostrando-me a seus pés submisso o adoro.
Logo ele me levanta e diz-me afável:
— “Eu sou quem buscas, sou o Autor de tudo;
“Quanto vês em redor, por cima, em baixo,
“Por mim é feito: este Éden te franqueio;
“Cultiva-o, dele goza e come os frutos:
“Com plena liberdade e ânimo alegre,
“De todas estas árvores te nutre
“No jardim postas; nada aqui te falta:
“Mas da Árvore que em quantos dela comem
“Produz do bem e mal a infausta ciência,
“Que eu mesmo, junto da Árvore da Vida,
“No meio do Éden pus, caução singela
“Da obediência e da fé que haver te incumbe,
“Nem sequer proves; nunca isto te esqueça;
“Evita as conseqüências amargosas
“Que há de ter a infração deste preceito;
“E sabe que no dia em que a provares,
“Meu único preceito transgredindo,
“Decerto morrerás, — e desde logo
“Tens de perder estado tão ditoso.
“E de ires para um mundo desabrido
“Onde só há desgraças e misérias.”
Esta rígida ameaça temerosa,
Ele ma pronunciou com tom severo;
E inda soa espantosa em meus ouvidos,
Posto que eu possa preservar-me dela.
Mas logo serenou o aspecto lindo
E continuou gracioso o seu discurso:
— “Nem só confins tão gratos te franqueio
“Mas toda a terra a ti e à raça tua:
“Tem-na como senhor; impera em quantos
“Vivem nela, ou no mar, ou campos do éter,
“Andem, nadem ou voem: toma posse
“Deles todos; observa as várias castas:
“Eu, os da terra e do ar, aqui tos chamo
“Para de ti seus nomes receberem;
“E sujeição igual fica entendida
“Nos peixes que recinto aquoso ocupam,
“Não vindo aqui porque sair não podem
“De seu próprio elemento, ou do ar ambiente
“As ondas respirar por mais delgadas.”
Tal falou: ante mim vêm logo vindo
Do ar e da terra os animais aos pares;
E chegando, o seu vôo aqueles sustam,
Estes curvam-se humildes. Quando passam,
Sei quem são — e lhes ponho os próprios nomes
(De inteligência tanta Deus me ornara).
Porém não descobri em nenhum deles
Aquele que eu supunha inda faltar-me,
E tal reparo ouviu-me o Autor de tudo.
— “Que nome te hei de dar, ó tu que acima
“Da humana essência estás, ou de outra essência
“Mais alta que ela, e te sublimas tanto
“A tudo que há, se muito aquém te fica
“Qualquer dos nomes que eu me anime a dar-te?
“Como adorar-te posso, Autor do Mundo,
“Autor de todo o bem tão visto no homem?
“Provido em cópia larga o tens de tudo;
“Mas com quem a reparta não diviso.
“Na solidão que dita se concebe
“Susceptível de gozo a sós estando?
“Ou, dado o gozo, que prazer se lhe acha?”
Assim falar ousei. E a visão linda,
Mais linda co’um sorriso se tornando,
Assim me diz: — “Por solidão que entendes?
“Não estás vendo cheia a terra e os ares
“De tantos, tão multímodos viventes;
“E às ordens tuas não acorrem todos
“Diante de ti a divertir-te prestes?
“Não lhes conheces propensões, linguagens?
“Eles pensam também, também combinam,
“E têm direitos a que os não desprezes:
“Impera neles; teu império é vasto:
“Neles teu passatempo constitui.”
Destarte se exprimiu quem tudo manda,
E pareceu que essa ordem me intimava.
De falar-lhe pedindo antes licença,
E com humilde submissão, lhe torno:
— “Não te estimulem as palavras minhas,
“Ó poder celestial, meu Deus, meu tudo:
“No que eu te vou dizer, sê-me propício.
“Teu substituto aqui não me fizeste,
“E inferiores a mim, por graus e muito,
“Todos os outros animais que existem?
“Em sociedade que prazer encontram
“Os que são desiguais na essência ou gênio?
“Desfrutar o prazer somente é dado
“Ao que, com proporção devida e mútua,
“De outrem, a quem o dá, também o aceita;
“Porém, tais circunstâncias diferindo,
“E unir querendo condições contrárias,
“Em vão se lida, e dentro em prazo breve
“Com tédio ambas as partes se repugnam.
“De própria companhia ouso falar-te
“Que ansioso busco para erguer-me co’ela
“A todo o grau do racional deleite
“Em que os brutos não são consortes do homem.
“Com sexos dois, cada um na sua espécie,
“Tu propriamente os animais combinas:
“Assim com mútua dita se comprazem;
“Ao lado um do outro, o leão e leoa exultam:
“Mas nunca entre eles as espécies várias
“Juntar-se podem; separados vivem
“As aves, os quadrúpedes, os peixes;
“E assim nas castas; boi não se une a símia.
“Muito menos será possível no homem
“Tratar com brutos tão diversos dele.”
De desagrado não mostrando indícios,
Dest’arte o Onipotente me responde:
— “Mui requintada e fina, Adão, me ostentas
“Em tua escolha a dita que procuras.
“Dizes que em solidão prazer não gozas,
“Posto que de prazeres circundado:
“Que ajuízas tu de mim, do estado meu?
“Serei ditoso ou não? De todo sempre
“Tenho eu estado só, não vendo nunca
“Outrem depois de mim, nem semelhante,
“E igual menos ainda, — como tenho
“Com quem recrear-me se me não dirijo
“Às criaturas que formei eu mesmo,
“Das quais as que em mais alto grau se encontram
“De mim abaixo estão infindamente
“Mais do que estão de ti as outras todas?”
Disse. E eu humildemente assim lhe torno:
— “Para chegar à profundeza e altura
“De teus caminhos eternais, não bastam,
“Ente supremo, os pensamentos do homem.
“Tu por essência a perfeição possuis;
“Nenhuma falta em ti achar-se pode:
“Assim o homem não é; de sua dita
“Por graus só chega aos términos bem curtos;
“Por isso anseia acompanhar-se sempre
“De semelhante seu com quem se ajude,
“Nos defeitos de essência limitada,
“Para alcançar de sua dita a posse.
“Tu não tens precisão de propagar-te
“Porque, inda que estás só, és infinito
“E quanto há de numérico transcendes:
“Mas o homem só por números avonda
“A encher de sua imperfeição as metas;
“Assim de outro igual seu iguais propaga
“Multiplicando sua imagem própria,
“Da unidade suprindo um tanto a falta
“Que em tal ato requer nas partes ambas
“A mais viva amizade, o amor mais terno.
“Na tua solidão, tu solitário
“Muito bem de ti mesmo te acompanhas
“Sem que precises de sociais prazeres;
“Contudo, se o quisesses, poderias
“Elevar tuas mesmas criaturas
“A grau divino, próprio ao fim proposto:
“Mas por conversação não me é possível
“Pôr a prumo animais que andam de bruços,
“Nem comprazer-me nos costumes deles.”
Tomando ânimo, assim falei afoito,
E usei da permitida liberdade
Que, sendo aceita, pôde esta resposta
Alcançar da engraçada voz divina:
—“Adão, exp’rimentar-te assim me aprouve:
“Não só dos animais vejo que entendes,
“Nome apropriado a cada qual impondo;
“Mas de ti mesmo, porque bem expressas
“O espírito que livre em ti reside,
“Imagem minha, que não dei a brutos
“E cuja sociedade, a ti imprópria,
“Fortes motivos tens de rejeitares:
“Essa disposição conserva sempre.
“Antes de tua súplica eu sabia
“Que o homem, estando só, não é ditoso;
“E que nenhum dos animais que observas
“Será tua adequada companhia:
“Falei-te assim, a ver como julgavas
“Do que mais relação terá contigo.
“Descansa, que será muito a teu gosto
“A companhia que eu te der; tens nela
“Teu igual, teu auxílio, outro tu mesmo:
“Serão de todo os vívidos desejos
“De teu ansioso coração cumpridos.”
Calou-se ele, ou mais nada ouvir eu pude:
Minha térrea substância, — fatigada
De tal colóquio celestial, sublime,
Em que subiu tão alto obedecendo
Tanto tempo de Deus à força empírea
Que a levava de envolta em seu influxo, —
Sucumbiu, quais sucumbem os sentidos
Se os exercita e cansa um grande objeto:
Eis deixa-se cair como ofuscada,
E logo auxílio procurou no sono,
Que pronto acode à voz da Natureza,
Apossa-se de mim, fecha-me os olhos...
Fecha-me os olhos — mas liberta fica
Minha imaginação que é vista interna
Pela qual, como estático, presumo,
Posto dormindo estar, que ali contemplo
A imagem fulgurante que acordado
Estava a ver. Então ela se inclina,
Abre-me o lado esquerdo, — e dali toma
Uma costela tinta em vivo sangue,
De espíritos vitais inda animada:
Foi grande o golpe e num instante a cura.
Deus coas mãos a costela vai moldando,
Té que uma criatura dela forma
Mui semelhante a mim mas de outro sexo.
Pareceu-me tão bela e tão amável,
Que tudo quanto dantes no Universo
Julgara belo agora o cri mediano, —
Ou que do Mundo as formosuras todas
Em corpo tão gentil se resumiam,
Principalmente nos benignos olhos
Que desde então mimosos infundiram
Dentro em meu coração tanta doçura,
Qual nunca exp’rimentado havia dantes:
Do porte seu também logo exalaram
O espírito de amor, graças, deleites
Que em toda a Natureza se esparziam.
Nisto ela foge e me deixou em trevas:
De repente acordei na ânsia de achá-la
Ou de carpir sem causa a perda sua,
Abjurando prazer que não fosse ela.
No entanto, quando menos a esperava,
Não longe a vi, tal como a vira em sonhos
Adornada de quanto o Céu e a Terra
Para fazê-la amável possuíam.
Ei-la que vem: condu-la o Autor celeste,
Guiando-a com sua voz, porém não visto:
Dos ritos conjugais vem informada,
Da santidade e candidez das núpcias:
Nos olhos traz o Céu, no andar as graças,
O amor e o brio nas maneiras todas.
Em tantas perfeições eu enlevado,
A erguer assim a voz fui compelido:
— “Ela volta!... Dissipa-se o meu susto!
“Cumpres quanto disseste, ó Deus benigno,
“Generoso doador de coisas belas;
“Mas esta sobrepuja as outras todas
“Que não se podem comparar com ela.
“Nela me estou a ver; dos meus por certo
“Seus ossos são, da minha carne a sua:
“Do homem tirada foi, mulher se chama:
“Por ela pai e mãe ele abandona,
“E esposo se une à esposa idolatrada, —
“Em deliciosa união ambos formando
“Um coração, uma alma, uma só vida.”
Prestava ela atenção às minhas vozes:
Acabando de ser por Deus formada,
Inda toda pudor, toda inocência,
Já conhecia com clareza exata
O grande preço das virtudes suas;
Que deve ser com mimo requestada
E não ganhada sem que muito a roguem;
Que não deve óbvia ser, nem ser esquiva,
Mas recatada estar, assim causando
Mais vivo amor, mais ávido apetite:
Ou, por melhor dizer, a Natureza
Nos pensamentos tanto lhe influía,
Inda que isentos da mais leve mancha,
Que ela me olhou modesta e retirou-se.
Eu fui seguindo-a: percebeu em breve
Com que respeito e amor eu me portava,
E não tardou com majestoso obséquio
Em ceder à razão que me assistia.
Ao nupcial aposento a vou guiando,
Corada, semelhante à manhã bela:
Nessa hora inteiro o Céu e os astros todos
Sobre nós mandam mais seleto influxo,
E nos decoram com fulgor mais vivo:
Mais ataviados de verdura e flores
Dão-nos os parabéns montes e vales;
Suave e alegre concerto as aves tecem;
Frescas as virações, meigas as brisas,
Nossa união pelas árvores murmuram,
E coas asas brincando nos atiram
De arbustos próprios rosas e fragrâncias,
Até que o rouxinol entoou solene
O canto do himeneu, e assim convida
Da tarde a estrela a que de pronto acenda,
No arbóreo cimo da montanha sua,
Das sacras núpcias o brilhante facho.
Assim te hei relatado a minha história,
Levando-a té ao ápice da dita
Que neste Paraíso estou gozando:
E cumpre confessar que, — achando eu gosto
Em tudo o mais de que se adorna o Mundo,
Quais os passeios, plantas, frutos, flores,
A música das aves, tudo em suma
Que delicadamente me comove
O tato, o gosto, o ouvido, a vista, o cheiro, —
Por nada sinto na alma abalo vivo,
Desejo ígneo nenhum, goze ou não goze;
Mas outro é meu sentir por tal beleza.
Vejo-a abalado de transporte sumo,
Cheio de igual transporte a toco e apalpo;
Ardo por ela em comoção estranha,
Minha única paixão conheço nela:
Quaisquer outros prazeres não me agitam,
A todos eles superior me julgo;
Porém somente me confesso fraco
Ante os encantos, ante o mover d’olhos,
Com que a beleza triunfar consegue.
Ou pobre a Natureza em mim se mostra,
Fazendo-me imperfeito e assim não apto
De tal objeto a repelir encantos:
Ou mais talvez tirou do que bastava
Do meu lado, e essa falta me enfraquece:
Ou, quando menos, deu em demasia
Ornatos à mulher que, não obstante
Ser no seu interior menos sublime,
Mostra por fora as perfeições mais belas.
Não que eu deixe de ver que abaixo fica
No desígnio essencial da Natureza
E da alma nas internas faculdades,
Que são na espécie humana as mais distintas;
E que também por fora iguala menos
De quem nos fez a majestosa imagem,
E designa com menos expressão
O caráter de império impresso no homem,
Com que ele as outras criaturas rege.
Contudo, quando dela me aproximo,
Tão amável a julgo, tão perfeita,
Tão ciente de si mesmo e extreme em tudo,
Que quanto ela pretende, ou faz, ou fala,
O mais discreto me parece sempre,
O melhor, o mais certo, o mais virtuoso:
A vista dela a ciência a mais profunda
Titubeia, desmente a usada força;
A mais grave e ilustrada sisudeza
Desconcerta-se e mostra-se loucura.
Como se antes de mim fosse ela feita
E não depois, qual foi por causa minha,
De autoridade e de razão se adorna:
E, para tudo ter, seu porte amável,
Candura e graças todo, em si ostenta
Nobreza de alma, pensamentos grandes,
Dela em torno espalhando reverência
Que faz o ofício ali de guarda de anjos.”

O arcanjo, carregando-se no vulto:
“A natureza não acuses — diz-lhe —;
Cumpre ela o seu dever, o teu tu cumpre,
No facho da razão sempre confia;
Nos graves lances em que mais é útil
(Como esse em que ora estás de nímio creres
Em coisas que inda menos primorosas
São em si do que tu as consideras)
Não te há de ela deixar se a não deixares.
Quem te transporta assim? Que admiras tanto?
Um simples exterior? Bela é por certo
A esposa tua; mostra-se credora
De teu respeito, teu amor, teus mimos,
Mas nunca de que sejas dela escravo.
Compara-te com ela; e raciocina:
A estima de si próprio, se é fundada
Na ingênua retidão, na sã justiça,
A melhor guia do homem constitui;
E, quanto mais souberes conhecê-la,
Tanto mais Eva em ti verá seu chefe,
Sua bela aparência sujeitando
À realidade com que tanto te honras.
E não deixes de ver que a esposa tua,
Tão linda feita para altear teu gosto,
Tão respeitável para tu poderes
Com dignidade amá-la, entende quando
A estima de ti próprio desconheces.
Mas... a respeito das sensuais delícias
Pelas quais se propaga a espécie humana,
Repara que, se as julgas superiores
Às mais que tens, também são elas dadas
Aos brutos todos, o que assim não fora
Se elas possuíssem privativo império
De subjugar o entendimento do homem
Ou de paixões introduzir-lhe na alma.
Ama na esposa, sempre estima nela
Razão, bondade, pundonor, encantos;
Tu cumpres teu dever, amando-a muito;
Degradas-te, se tens paixão por ela.
O verdadeiro amor não se combina
Da paixão coas danosas turbulências;
No bom-senso e razão tudo se firma;
Refina o juízo, o coração ilustra;
É caminho por onde erguer-te podes
Ao prazer eternal do amor divino;
Té às sensuais delícias não se abaixa;
Por tais motivos digna companheira
Nunca entre os brutos foi por ti achada.”

Adão, meio-corrido, lhe responde:
“Nem de Eva o corpo que Deus fez tão belo,
Nem os sensuais, prolíficos deleites,
De quaisquer outros animais partilha,
Possuem sobre mim poder tão grande, —
Inda que ao leito conjugal tributo
Misteriosa, sublime reverência:
Mas de tudo me encantam, me arrebatam
Suas nobres maneiras tão graciosas,
A decência que, imensa e ingênua sempre
Das ações suas e palavras corre,
De amor e complacências misturada,
Provando não fingida a união solene
Que em nós faz uma só das almas ambas,
Harmonia que, vista em par consorte,
Mais prazer causa do que sente o ouvido
Quando sons harmoniosos o deleitam.
Contudo, nunca dela sou escravo.
Assim a este respeito te descubro,
Tais quais são, meus internos pensamentos:
Mas os objetos vários, que os sentidos
Mostram de modos mil, não me subjugam:
O que é melhor, com liberdade aprovo;
Com liberdade, quanto aprovo, sigo.
Uma pergunta agora me concede,
Se legítima for essa pergunta:
Na raça humana o amor tu não condenas;
Dizes que pelo amor aos Céus se sobe,
Que é para os Céus o condutor e a estrada;
Os anjos porventura também amam?
E, se amam, como o seu amor exprimem?
Somente os olhos em tal caso empregam,
Ou seus mútuos fulgores entrelaçam?
Unir-se-ão estando um nos braços de outro,
Ou será essa união mental somente?”

O anjo, rindo, e nas faces cor tomando
Qual a da empírea, rutilante rosa,
A cor de rosa que é de amor emblema,
Assim responde: — “Basta-te que saibas
Que nós nos altos Céus somos ditosos,
E que, onde amor não há, jamais há dita.
Quantos puros prazeres tu desfrutas
No corpo teu, que puro o fez o Eterno,
No mais subido grau nós desfrutamos.
Sem os obstarem membros nem junturas,
Mais fácil do que do ar porções diversas,
Abraçam-se os espíritos e se unem
Com íntimo, instantâneo movimento,
Pureza com pureza misturando.
Adeus; não posso mais: o Sol, transpondo
O Verde promontório e Hespérias ilhas,
Vai pôr-se e assim minha partida marca.
Sê constante e feliz: de amar não deixes...
Mas Deus primeiro, que é somente amado
Por quem restritamente lhe obedece:
Guarda-lhe o seu preceito soberano.
Toma cuidado que a paixão demente
Não force o juízo teu a ações que livre
Ele de modo algum fazer quisera.
De ti, dos filhos teus, dita e desdita
Em ti postas estão, de ti dependem.
Não te descuides: eu e os demais anjos
Tua perseverança aplaudiremos.
Porta-te firme: livremente mandas
No arbítrio teu; em tua mão possuis
Firmeza ou queda. Basta-te a ti mesmo;
Não precisas pedir auxílio estranho:
A tentação de transgredir repele.”

Calou-se; levantou-se, e foi seguindo.
“Pois que deves partir” (Adão lhe torna
E com saudosas bênçãos o acompanha),
“Vai, hóspede celeste, etéreo núncio,
Mandado aqui por Deus que temo e adoro.
Tua condescendência sacrossanta
Foi para mim afável, generosa:
E sempre tem de ser por mim honrada
Com mui viva lembrança agradecida:
Pelo gênero humano sempre nutre
Essa beneficência, essa amizade:
Tua visita a miúdo aqui repete.”

Assim partiram, para os Céus o arcanjo,
E para o albergue seu, o pai dos homens.