Para esta Angola enviado

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Ao Padre Manuel Domingues Loureyro que rehusando ir por capellão para Angolla por ordem de sua ilustrissima, foy ao depois prezo, e maltratado, porque resistio as ordens do mesmo prelado.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia

1Para esta Angola enviado
vem por força do destino,
um marinheiro ao divino,
ou mariola sagrado:
com ser no monte gerado
o espírito lhe notei,
que com ser besta de lei,
tanto o ser vilão esconde,
que vem da vila do conde
morar na casa d'EI-Rei.
  
2Por não querer embarcar
com ousadia sobeja
atado das mãos da Igreja
veio ao braço secular:
a empuxões, e a gritar
deu baque o Padre Loureiro:
riu-se muito o carcereiro,
mas eu muito mais me ri,
pois nunca Loureiro vi
enxertado em Limoeiro.
  
3No argumento, com que vem
da navegação moral,
diz bem, e argumenta mal,
diz mal, e argumenta bem:
porém não cuide ninguém,
que com tanta matinada
deixou de fazer jornada,
porque a sua teima astuta
o pôs de coberta enxuta,
mas mal acondicionada.
  
4O Mestre, ou o capitão
(diz o Padre Fr. Orelo),
que há de levar um capelo,
se não levar capelão:
vinha branco, e negro pão
diz, que no mar fez a guerra,
pois logo sem razão berra,
quando na passada mágoa
trouxe vinho como água,
e farinha como terra.
  
5Com gritos a casa atroa,
e quando o caso distinga,
quer vomitar na moxinga,
antes que cagar na proa:
querer levá-lo a Lisboa
com brandura, e com carinho,
mas o Padre é bebedinho,
e ancorado a porfiar
diz, que não quer navegar
salvo por um mar de vinho.
  
6Aquentou muito a História
sobre outras ações velhacas
ter-lhe aborcado as patacas
o magano do Chicória:
mas sendo a graça notória,
diz o Padre na estacada,
que ficarão a pancada,
quando um, e outro desfeche
se o Loureiro de escabeche,
o Chicória de selada.