Para que serve um professor de grego?

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Para que serve um professor de grego?
por Lucilo Varejão Filho
palavras de saudação ao Prof. Geraldo Lapenda quando de sua posse no cargo de vice-reitor da Universidade Federal de Pernambuco, em 1º de agosto de 1980, publicado posteriormente na Coleção Espírito Universitário (v. 6)


Há exatamente vinte e sete anos atrás, era eu designado pela Congregação do Ginásio Pernambucano para, em seu nome, saudar um jovem professor que ali chegava. Viera ele de Roma, onde até três ou quatro anos antes cursava a Universidade Gregoriana, com vistas à carreira eclesiástica. E seria um bom sacerdote, culto e correto, não fora ele, dentro de uma maneira de ser muito sua, sacudido por uma feroz crise de dúvida quanto à adesão total de seu espírito à vida que a clericatura iminente já estadeava ante os seus olhos. Perdeu-se para Roma um bom padre, mas ganhou o magistério pernambucano um mestre da melhor qualificação. E o velho Ginásio vira, então, confirmar-se em concurso público a que se submetera, a fama de bom latinista de que vínheis aureolado, sr. Professor Geraldo Lapenda – porque é de vós e não de outro qualquer que aqui se trata, já todos o perceberam. Posteriormente, na convivência diária, haveríeis, ainda, de mostrar, sem que nisso pusésseis o menor empenho, serdes também senhor de outras e altas sabenças.

Aqui à Universidade, chegamos ao mesmo tempo. Fomos fundadores do Curso de Letras nesse já distante ano de 1950. E isso nos dá uma bem longa convivência às vezes de dias inteiros com as manhãs do Ginásio Pernambucano, as tardes da Faculdade de Filosofia e até, durante certo tempo, as noites da Universidade Católica ou, mesmo, do próprio curso noturno do Ginásio Pernambucano. Eis porque eu me sinto grande autoridade no assunto que ora me ocupa, ou seja, o assunto Geraldo Lapenda, e tive a ousadia de aceitar o convite do Magnífico Reitor, Prof. Geraldo Lafayette, para saudar-vos em nome do Conselho Universitário da Universidade Federal de Pernambuco neste momento de vossa posse como Vice-Reitor da instituição.

Em verdade, Sr. Professor, há trinta anos que vos observo e, se ao fim de tão longa análise continuo a vos assegurar o penhor da minha admiração e de minha amizade, isso é prova de que destes difíceis tempos de rasteiras e de traições, soubestes sair engrandecido. Costumo, nos seres que me cercam, buscar não só a cultura e a inteligência, mas também o caráter, o senso pessoal de dignidade e, sobretudo, aquela bíblica Boa Vontade tão vital à convivência humana, da qual tanto necessita a Universidade para a sua tarefa de disseminação e de aprofundamento do Saber. Essa boa vontade como próximo (Ah! Como estamos longe do sartreano l’Enfer c’est l’autre!) que na prática se identifica com a própria Caridade cristã que não se consubstancia, apenas, como pensam alguns ingênuos, na preocupação de dar esmolas aos mendigos que encontramos.

Ora, tendo-vos tão longamente observado, Sr. Prof. Geraldo Lapenda, afirmo ter em vós descoberto um exemplar que honra a espécie humana. Armado, pois, de tais virtudes, chegais a um dos mais altos postos da Universidade, o que me parece dentro da natural lógica das cousas. Figurou o vosso nome em honrosa lista de valores da UFPe, ao lado dos nomes não menos prestigiosos de um Ruy João Marques, o ficcionista seguro de “Romance em Preto e Branco”, ao mesmo tempo que gastro-enterologista dos mais renomados deste burgo; de um Pinto Ferreira que sabe tão bem conciliar os estudos jurídicos com os de nossa história literária; e ainda desses excelentes especialistas que são Lourinaldo Cavalcanti, Alcides Fernandes e Amílcar Bezerra, amenas criaturas, com aquelas qualidades básicas exigíveis de quem vive, aristotelicamente, em sociedade.

Em meio a tão boa companhia fostes o escolhido. E posso afirmar que permanecestes estranho ao mecanismo dessa escolha que vou colheu de surpresa. Entrastes na lista sêxtupla sem que vos tivésseis nisso empenhado e dela saístes ungido sem que, por igual, tivésseis movido uma palha sequer em vosso favor. Não tivestes necessidade de mascarar ambições pessoais, pois que não as tínheis, com a falácia da “Consulta à Comunidade”.

A vossa caminhada foi por largos caminhos batidos de sol, nos quais vos vejo quase como aquele patriarca que pintara Victor Hugo: Vêtu de lin blanc et de probité candide. Professor Catedrático do Ginásio Pernambucano, Professor Assistente e, depois, Titular da Faculdade de Filosofia de Pernambuco, que se transformaria no atual Departamento de Letras do Centro de Artes e Comunicação, Chefe desse mesmo Departamento – por duas vezes seguidas pela unânime votação dos seus pares – e, finalmente, Vice-Reitor da UFPe: eis os marcos dessa caminhada por claros caminhos em que nunca ninguém pôde descortinar zonas de sombras. Creio que a vossa maneira pessoal de ser, a vossa retidão fundamental está na base de tudo. Mas creio, também, que vosso longo contacto com o espírito das velhas civilizações clássicas com o qual, professor de grego e latim que sois, estivestes sempre em contato, muito há de ter contribuído para tanto.

Um professor de grego! Para que serve um professor de grego nestes tempos de obsessão tecnológica e de violência? Ésquilo, Sófocles, Eurípedes e Aristófanes – que todos nós mastigamos nas traduções nem sempre fiéis e que tendes a ventura de ler nos textos originais – acaso não vos ajudaram eles a formar a vossa visão do mundo? Analisando ao escalpelo todas as velhas paixões humanas eles hão de ter contribuído para vos dar a sensação do déjà vu diante de muitas dessas cousas que o mundo no seu rolar constante traz vez por outra aos nossos olhos.

E de que vos serviu a companhia dos latinos, de Cícero, ou de Virgílio, ou de Horácio? E, até mesmo, de Júlio César, em que pese pertencer ele a essa maldita linha dos conquistadores que também passa por Alexandre da Macedônia, por Napoleão Bonaparte (que me perdoem alguns amigos franceses que ainda hoje adoram o Corso) e que chega até Adolf Hitler? De que vos serviu a companhia de todos esses gregos, latinos e também italianos, ingleses, franceses e espanhóis, de que vos podeis valer em qualquer momento de desalento ou de dúvida, nas suas línguas originais que tão bem conheceis? E até os heróis das ingênuas lendas indígenas que poderão falar-vos em seu rude linguajar tupi ou no não menos rude iatê, que vos trouxeram eles? Creio que eles vos trouxeram o testemunho da longa experiência humana. Dolorosa aqui, cheia de júbilo acolá. Amarga, angustiada, em uns momentos, irônica, brincalhona ou mesmo dourada de esperança em outros. E essa experiência, esse conhecimento do ser humano nos seus altos e baixos, nas suas grandezas e nas suas misérias, que a filosofia e a literatura sempre traduziram, é que hão de ter largamente contribuído para vos dar esse misto de retidão, equilíbrio, energia e, paradoxalmente, de brandura, que caracterizam a vossa personalidade. Sois o melhor exemplo que conheço da utilidade da cultura humanística na formação dos cidadãos.

Tudo isso, creio, já vos foi reconhecido, e, quando hoje chegais ao Vice-Reitorado da nossa Universidade, posso dizer-vos que outra cousa não representou a vossa escolha senão a aposição de uma chancela oficial a méritos já por vossos amigos e companheiros de trabalho longamente proclamados. Reconhece-se também aqui, que sois o companheiro ideal para esse tranqüilo e experiente Reitor Geraldo Lafayette, ao lado do qual iniciais uma jornada de quatro anos universitários que todos queremos fecundos no seu esforço em favor da cultura pernambucana e da boa ordem administrativa em nossa Universidade. Sêde, pois, feliz, Sr. Prof. Geraldo Lapenda, em vossa longa tarefa! E para saudar-vos à maneira dos gregos que tanto amais: Que os deuses vos sejam propícios, dileto amigo!