Passou o surucucu

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Ao mesmo capitão fretandolhe a amasia certo homem chamado O Surucucu.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsEspada e Espadilha

1Passou o surucucu,
e como andava no cio,
com um e outro assobio,
pediu a LuÍsa o cu:
Jesu nome de Jesu,
disse a Mulata assustada,
se você é cobra mandada
que me quer ferir da escolta
dê uma volta, e na volta
poderá dar-me a dentada.
  
2Apenas isto escutou,
quando a boa cobra solta
deu a volta, mas a volta
não foi, a que a namorou:
porque o bom Adão achou
no Paraíso, ao entrar,
sem poder a Eva falar,
jurando o seu nome em vão,
pecou no segundo então,
por no sexto não pecar.
  
3O seu Santo nome disse
em vão: mas o capitão
perguntou a Luísa então
a causa da parvoíce:
ela; porque ele ouvisse,
toda de risinhos morta,
este mandu (disse absorta)
não repara, que se implica
marchar eu com outra pica,
tendo o Capitão à porta?
  
4Saiba, Senhor Capitão,
que se Luísa, se fornica,
antes com homem de pica,
que com homem de bastão:
porém se este toleirão,
quiser vomitar peçonha,
livrar-me-ei dessa erronha,
pois na sua cara vejo,
que terá muito de pejo,
mas tem mui pouca vergonha.
  
5Prometeu vir do passeio
veio como um corrupio,
eu não vi homem tão frio,
que tão depressa se veio:
sobre ser frio é mui feio;
sobre ser feio é mui tolo:
porém se o meu porta-colo
não erra, tem o magano
nos culhões muito tutano,
na testa pouco miolo.