Pastoral aos crentes do amor e da morte (1923)/Olhos

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IV
OLHOS

Olhos sublimes, sombras chinezas,
Sob a arcaria das sobrancelhas...
Solar magnifico, onde princezas
Passam de tunicas vermelhas...

Olhos de poente, luares remotos
Por entre torres inaccessiveis...
Rosas e lirios, goivos e lotos,
Rôxas violetas impassoveis...

Olhos viuvos, santos, blasphemos,
Ladainha dos Sete Peccados...
Nuvens doiradas de crysanthemos,
Sonhos de mysticos noivados...

Olhos pungentes, que choraes tanto,
Dias de lucto, noites em calma...
Instrumentados por algum Santo
Para o responso da minh’alma...

Olhos profundos, florindo juntos,
Cheios do sangue dos sacrificios...
Eças armadas para defuntos,
Dobres dos ultimos officios...

Olhos, olhares evocadores
De espectros mudos de altivo porte...
Fechae a campa dos meus amores,
Officiantes da minha morte!