Pensar é preciso/II/O Egito dos Faraós

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
O Egito dos Faraós


Anteriormente à formação da civilização ocidental, que se desenvolveu na Grécia, na costa asiática e em várias ilhas do mar Egeu e Jônico, cujo marco histórico foi a Guerra de Tróia (séc.XII a.C.), existiam civilizações bem mais antigas no Médio e Extremo Oriente, na Europa e nas Américas. Vejam-se, por exemplo, as culturas pré-colombianas de incas e astecas. Neste trabalho, faremos referência apenas a algumas formas de vida religiosa, ética e social, que influenciaram o modo de sentir e de pensar do homem ocidental.

O Egito da época dos Faraós registra a mais vetusta civilização do homo sapiens que se desenvolveu nas margens do rio Nilo, tendo como cidades principais Mênfis, Tebas e Heliópolis. Os estudiosos enumeram 30 dinastias, distribuídas ao longo de três Impérios (Antigo, Médio e Novo), de 2800 até 331 antes de Cristo, quando o Egito acabou sendo dominado pela Macedônia. As construções mais famosas do Império Antigo são as Pirâmides de Quéops, Quéfren e Miquerinos, situadas em Gizé, burgo não longe do Cairo. Trata-se de monumentos funerários de base quadrangular, tendo quatro faces triangulares, com terminação em agulha, significando o desejo de ascender a Rá, o deu Sol. Perto da pirâmide de Quéfren, podemos admirar a estátua monumental da Esfinge, construída aproximadamente ao redor do ano 2500, representando um leão deitado, que está lá protegendo a necrópole, sendo que sua cabeça tem o semblante do Faraó.

Apenas para apontar a semelhança de cultos religiosos entre povos muitos diferentes no tempo e no espaço, lembramos que se encontram pirâmides também na Índia, na Tailândia, no México. A pirâmide de Chichén-Itzá é muito visitada, especialmente pelos turistas que freqüentam o balneário de Cancún. De modo semelhante, a Esfinge existe também na mitologia grega, ligada ao mito de Édipo. Outro mito comum à cultura egípcia e grega é a lenda sobre o famoso casal Ísis / Osíris. A deusa egípcia Ísis tem uma estreita relação com a figura grega de Io, sacerdotisa de Juno e amante de Júpiter, transformada numa novilha branca e perseguida pela ciumenta e vingativa esposa do pai dos deuses.

O mito de Ísis e de seu marido Osíris, considerado neto de Rá e governante bondoso, cujo corpo foi feito em pedaços pelo seu cruel e invejoso irmão Seth, teve várias versões. Segundo uma variante da lenda, que se encontra na obra De Iside et Osiride do historiador grego Plutarco (séc.II d.C.), Seth armou uma cilada: à traição, fechou o corpo do irmão num caixão e o jogou no rio Nilo. Ísis, a esposa fiel, humilhada e em pranto, não descansou enquanto não recolhesse as partes e reconstruisse o corpo do amado. A morte e a ressurreição de Osíris passaram a simbolizar o ciclo da natureza e da fecundidade: a semente do trigo que morre para tornar-se pão. Os romanos elevaram um templo a Ísis no campo de Marte, associando seu culto a Ceres (daí o termo “cereal”), o nome latino de Deméter, a deusa grega da terra, considerada princípio feminino universal, inesgotável reinício de todas as coisas.

Os primeiros documentos da civilização egípcia encontram-se nos Textos das Pirâmides (hieróglifos gravados nos túmulos) e no Livro dos mortos. O maior deus do panteão egípcio é Rá, adorado em On, antiga cidade na extremidade do Delta, a que os gregos deram o nome de Heliópolis, a Cidade do Sol. Os habitantes do Nilo davam-lhe vários nomes: de manhã é o “Horo do Horizonte”, em forma de falcão; de noite é “Atum Rá”, que visita o reino dos mortos, situado debaixo das águas. Os Faraós eram considerados seus filhos pela crendice do povo. Este status divino, mais tarde, será atribuição também de vários Imperadores romanos: Divinus Caesar Augustus.

A religião egípcia, como as outras religiões, apresenta aspectos divergentes. De um lado, notamos sinais de alta espiritualidade, apresentando Rá como deus único, criador e providente, conforme o seguinte trecho do Hino de Tell el-Amarna, gravado em várias sepulturas:


“Quando eras só, criaste a terra a teu bel-prazer,
Os homens, o grande rebanho e todos os animais,
Tudo o que na terra anda com os pés,
Tudo o que no ar voa com as asas,
Toda a região, a Palestina, a Etiópia, o Egito.
Pões cada qual em seu lugar, és a sua Providência,
Cada um tem seu alimento”.


Num hino posterior, talvez da época de Ramsés II, podemos notar até a concepção de uma Trindade na Unidade:


“Só há três deuses: Amon, Rá e Ftá;
Não têm semelhantes:
Quando esconde o nome é Amon,
Rá é a sua Face, Ftá o seu Corpo”.


Tal concepção de uma Trindade dentro de uma Unidade não deixa de ter uma certa semelhança com o Hinduísmo oriental (Brahman = Criador, Shiva = destruidor e construtor, Vishnu = mantenedor) e o dogma católico da existência de um único Deus, distinto nas três pessoas do Pai (Criador), Filho (Redentor) e Espírito Santo (Fecundador e Amor). Apesar desta aparente tríade monoteísta do Egito, há uma infinidade de outros deuses, venerados em lugares e épocas diferentes, inclusive com surpreendentes teogamias, pois os sacerdotes, para agradar os poderosos do momento, inventavam núpcias entre divindades e faraós. Os egípcios achavam que, no início, o país era governado por deuses e os faraós eram seus descendentes, ao longo das várias dinastias.

Outros aspectos importantes, que colocam os textos egípcios como fonte de outras religiões posteriores, politeístas ou monoteístas, são o culto aos mortos, a crença numa vida além do túmulo e o julgamento final. Uma doutrina escatológica foi se formando gradativamente. No começo, a outra vida era a própria tumba, onde o defunto recebia as oferendas. Construir mausoléus, capelas funerárias e embalsamar os corpos: tudo isso visava a conservação dos restos mortais. Mais tarde, a partir do Novo Império, se generalizou a crença na existência do “Amenti”, um paraíso celeste, onde os antepassados, reunidos debaixo do governo de Osíris, viviam felizes. Mas, para ter acesso a este reino de felicidades, o defunto era submetido a um julgamento perante uma corte de 42 juízes, que pesavam numa balança pecados e méritos.

De outro lado, a necessidade de tornar sensível a idéia da divindade levou os egípcios a formas de zoolatria (prestavam culto a animais: serpente, crocodilo, vaca, falcão, gato, entre outros), de animismo (crença em espíritos que animam todas as coisas do universo) e de totemismo (relação mística com um objeto, animal ou planta). A antropologia considera “totem” um animal sagrado, visto como ancestral ou divindade protetora de uma tribo ou clã. Chegamos assim a uma inversão de papéis: o animal já não é mais servo do homem, mas seu dono. O homem, quando renuncia à sua capacidade de raciocinar e sucumbe à idiotice de crenças em divindades, messias ou tiranos considerados salvadores da pátria, torna-se pior do que a besta. Não dá nem para imaginar com quanto suor e sangue de escravos foram erguidas as Pirâmides do Egito, civilização marcada por uma profunda diferenciação de classes sociais, que vai do homem-escravo ao Faraó-deus!

Talvez fossem essa concepção e prática de vida que levaram à decadência a religião egípcia e o sistema faraônico de governo, que não resistiram ao confronto com a civilização grega, bem mais evoluída, pelo culto da democracia, da filosofia, da ciência, da historiografia, da arte teatral e literária. Durante os três séculos do domínio macedônico, o helenismo invadiu a cultura egípcia, dando vida a um sincretismo entre as antigas divindades do Nilo e os deuses do Olimpo. O processo de aculturação se consumou na época do domínio latino, quando o Egito, rebaixado a colônia romana, perdeu seu fulgor e acabou aderindo ao Cristianismo. Na fase da hegemonia bizantina, o Egito foi dominado pelo Império Romano Cristão do Oriente. Com o advento de Maomé, a partir do séc. VII, as povoações que habitavam nas proximidades do Nilo começaram a sofrer as influências do Islamismo. Ao redor do ano mil, uma dinastia xiita fundou a cidade do Cairo, que se tornou o novo centro do Egito.