Pensar é preciso/IV/A figura humana de Jesus: quem escreveu os Evangelhos?

Wikisource, a biblioteca livre
Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
'A figura humana de Jesus': quem escreveu os Evangelhos?


A figura divina de Jesus Cristo continua sendo o enigma mais apaixonante da humanidade. A pessoa histórica que viveu na Palestina dois milênios atrás era realmente Filho de Deus? Os milagres a Ele atribuídos podem ser considerados verdadeiros? Efetivamente ressuscitou três dias após sua morte? Um recente achado arqueológico nos certifica de que, na tradição judaica, ao lado da esperança da vinda de um messias triunfante, que redimiria o povo hebreu do jugo romano, existia também a idéia de um salvador sofredor: uma lápide, datada antes da morte de Cristo, se refere a um homem chamado Simão, assassinado pelos judeus sob a proteção do império romano, que também teria ressuscitado após três dias. Controvérsias existem inclusive acerca do lugar de nascimento de Jesus: teria nascido em Belém da Galileia, cidadezinha mais ao norte e bem perto de Nazaré ou na Belém Judeia da Cisjordãnia, atualmente governada pela Autoridade Nacional Palestina?

Na verdade, o que sabemos de essencial sobre Jesus está escrito apenas no Novo Testamento, que está longe de ser um documento histórico. Trata-se de uma coletânea de 27 textos: 4 Evangelhos (Mateus, Marcus, Lucas e João), Atos dos Apóstolos, várias Epístolas (14 de Paulo, 1 de Tiago, 2 de Pedro, 3 de João, 1 de Judas) e o Apocalipse de João Evangelista.

Mas estes livros, que a Igreja Católica passou a considerar como sagrados, pois pressupostamente redigidos sob inspiração divina, não foram escritos na época de Cristo, e sim posteriormente, quase no fim do primeiro século da era cristã. Depois de uma tradição oral de mais de meio século, apóstolos (no sentido de “divulgadores” de doutrina) de Cristo começaram a registrar na língua grega ensinamentos e feitos de Jesus (que falara em aramaico), conforme escutavam no meio do povo. Os autores do Novo Testamento, da mesma forma que os Patriarcas e os Profetas do Antigo Testamento, não escreveram o que viram ou ouviram pessoalmente, mas o que lhes foi dito por outras pessoas. Trata-se, portanto, de um “ouvir dizer”, o que explica a ocorrência de tantas repetições e contradições. Na verdade, não sabemos ao certo quem escreveu os evangelhos e os outros livros sobre Jesus. Durante a passagem da oralidade para a escrita, sua difusão circulou no anonimato. Só mais tarde foi atribuída a autoria dos escritos a judeu-cristãos ilustres e devotos, considerados “Santos”, que escreviam em grego e viviam nas cidades helenísticas do Império Romano.

Tome-se, como exemplo, Paulo de Tarso, o apóstolo mais influente, venerado por toda a cristandade (católicos, ortodoxos e todos os crentes das várias igrejas protestantes) e considerado o verdadeiro cérebro da doutrina de Jesus. Ele nem sequer conheceu seu Mestre pessoalmente, pois Cristo tinha morrido há mais de três anos, quando houve a famosa aparição descrita no livro Atos dos Apóstolos. Ele era um judeu de nome Saulo de Tarso, antiga cidade da atual Turquia, província do Império Romano. Educado por rabinos, recebeu também cultura grega. O Sumo Sacerdote de Tarso lhe deu a incumbência de levar cartas para a sinagoga de Damasco com o fim de perseguir os judeus que estavam aderindo ao novo credo do “Caminho”, o primeiro núcleo da nascente religião cristã. Perto de Damasco, de repente, viu-se envolvido por uma luz intensa, que o cegou e o derrubou do cavalo, e ouviu uma voz: “Saulo, Saulo, por que Me persegues?” Deu-se, então, sua conversão ao Cristianismo, começando sua intensa pregação apostólica. Acusado por judeus, teria sido decapitado em Roma, no ano de 67.

Na verdade, a figura histórica de Saulo de Tarso, como a de Jesus Cristo, foi envolta por várias lendas. No final do século II, já venerado com o novo nome de São Paulo, Apóstolo dos Gentios (abriu o cristianismo para os não-judeus) e Mártir da fé cristã, vem descrito como baixinho, careca, manco, com problemas de visão, epilético (o motivo da queda do cavalo). Diferentemente dos discípulos de Cristo, ele era uma homem culto e viajado. É certo que escreveu Cartas (“Epístolas”) a diversas igrejas que ele tinha fundado para explicar a nova doutrina, mas elas só foram divulgadas quase no fim do século primeiro.

Segundo os estudiosos do assunto, Saulo escreveu cartas apenas aos romanos, coríntios, gálatas, filipenses e tessalonicenses. Após sua morte, cristãos esclarecidos e admiradores de São Paulo, desenvolveram suas idéias e escreveram em seu nome várias Cartas a outros destinatários. Refletindo um pouco, não faz sentido acreditar que Paulo tenha enviado epístolas também a Timóteo e a Tito, seus companheiros de viagens missionárias. Eles deviam ter aprendido e praticado a fé cristã junto com o mestre Saulo, que morrera antes deles. A não ser que pensemos em cartas “póstumas”, como teria acontecido com Moisés que teria relatadas passagens do Pentateuco acontecidas posteriormente a sua morte! O conjunto de escritos que compõe o Corpus Paulinum, a parte mais consistente da doutrina do Novo Testamento, foi compilado bem mais tarde por cristãos cultos, empenhados em fundamentar a fé em Jesus. Como observa Karen Armstrong (A Bíblia: uma Biografia, pág.63-64),


“escreveu cartas a seus conversos, respondendo às suas perguntas, exortando-os e explicando a fé. Paulo nem por um instante pensou que fazia uma “Escritura”; como estava convencido de que Jesus retornaria ainda durante a sua vida, nunca imaginou que as gerações futuras estudariam cuidadosamente suas epístolas”.


Paulo nunca afirmou que Jesus era Deus, assim como Cristo nunca disse que ele era o Messias esperado pelos judeus. Aí está o grande erro de todas as religiões: a consagração do instante. Acontecimentos excepcionais, relacionados com realidades peculiares, são vistos como feitos milagrosos, expressões de uma vontade sobrenatural, que devem ser cultuados para sempre e em todos os lugares, fixados em dogmas, como verdades inquestionáveis.

É preciso salientar que notícias sobre a vida de Jesus não se encontram apenas nos 27 Livros, considerado o “cânone” do Novo Testamento pela Igreja de Roma. Existiam muitos outros escritos considerados “apócrifos” (não autênticos ou ocultos) ou “gnósticos”: de seitas cristãs heterodoxas, que juntavam judaísmo com helenismo, professando a crença no dualismo cósmico do princípio do mal (matéria) e do bem (o espírito, que se identificava com o “conhecimento” racional). Estes escritos, considerados não sagrados, foram destruídos por ordem do Concílio de Nicéia, em 325. Trata-se do primeiro crime contra a cultura perpetrado pela religião católica. Em nome de uma presumida “Autoridade Divina”, foram condenados à fogueira documentos que não estavam conforme idéias retrógradas e conveniências políticas.

Felizmente, monges egípcios não obedeceram à ordem papal e guardaram códices de papiros dentro de urnas de argila e as enterraram na base de um penhasco, à margem do rio Nilo, e ali ficaram esquecidos e protegidos por mais de quinze séculos. Os manuscritos foram descobertos, por acaso, em 1945. Este achado incentivou pesquisas arqueológicas, que continuam em andamento, especialmente nas proximidades do Mar Morto. Ao todo, foram já encontrados 112 textos, de vários tamanhos, 52 referentes ao Antigo Testamento e 60 em relação ao Novo, inclusive os evangelhos de Judas e de Maria Madalena.

Quer os escritores canônicos, quer os apócrifos, serviram-se também do texto grego do Antigo Testamento, a famosa Septuaginta, como fonte biográfica para falar da vida e das obras de Jesus. Na verdade, sob muitos aspectos, o Novo Testamento é uma retomada do Antigo, pois sua figura central, o Christós grego, corresponde ao Meshiah hebraico, o “ungido”, o Messias prometido para a salvação do povo judeu, conforme anunciado pelos Profetas. As correspondências entre os dois Testamentos são gritantes: quem redimiria o povo judeu seria um descendente da casa de Davi; ele viria montado num asno; os 12 discípulos de Jesus correspondem às doze tribos de Israel; os 40 anos da peregrinação dos hebreus no deserto têm um paralelo com os 40 dias do retiro de Cristo; as Tábuas da Lei no Monte Sinai têm a ver com o Discurso da Montanha; Isaias profetizara que uma Virgem daria a luz um filho chamado Emanuel; seu nascimento é anunciado por um anjo como aconteceu com Isaac, Ismael e Sansão; a destruição do templo de Jerusalém, em 70 d.C., é vista como o advento do Apocalipse, a “revelação” do final dos tempos. Enfim, o Antigo Testamento pode ser considerado um prelúdio do Cristianismo. A maioria dos eventos da vida de Jesus aconteceu “para cumprir as Escrituras”. Ele próprio afirmou que viera ao mundo “não para abolir, mas para completar a Lei e os Profetas”.

Todavia, o legado de Jesus superou, ao mesmo tempo em que frustrou, as expectativas judaicas. A figura do Nazareno se tornou um divisor de águas e a história da humanidade se distinguiu entre um “antes” e um “depois” de Cristo. Com Jesus nasceu uma nova Era, um novo Calendário, uma nova cosmovisão. Conforme os ensinamentos contidos no Novo Testamento, Jesus Cristo não veio ao mundo apenas para salvar o povo judeu da subjeção aos romanos, mas para redimir toda a humanidade do pecado original cometido por Adão.

O Pacto de Aliança não é mais entre Deus e um povo específico, privilegiado, de etnia hebraica, mas com todos os povos da Terra, com todas as raças humanas. A confirmação do compromisso entre o homem e a divindade, simbolizado pelo batismo, não será mais mediante o derramamento de sangue (a circuncisão), mas pela água purificadora. O sacrifício humano de Isaac será substituído pelo cordeiro pascal. A lei da vingança (“olho por olho, dente por dente”) cederá lugar ao imperativo do perdão (“oferecer a outra face”); o amor ao próximo é colocado como mandamento único, capaz de substituir todo o Decálogo de Moisés.

Penso não ser necessário relatar, neste trabalho, a vida de Jesus Cristo, os milagres a ele atribuídos e seus ensinamentos de vida, conforme se encontram no Novo Testamento, por serem por demais conhecidos. Acho melhor, em face das várias discordâncias, contradições, inverdades científicas e extravagâncias dos textos bíblicos, que ofendem nossa inteligência, indagar o que há de verdade no meio de tanta fantasia. Em vista de que a ignorância e o erro são atributos humanos e não divinos, não posso considerar nenhum livro “sagrado”, escrito sob inspiração de algum ser transcendental (mesmo que existisse!). Busco, portanto, a autenticidade histórica, desconfiando da palavra de qualquer ser humano que tem a arrogância de achar-se porta-voz de Deus.

Sabemos muito pouco de Jesus “histórico”. É estranho o fato de que nenhum historiador seu contemporâneo registrasse, em língua hebraica, grega ou latina, notícias relevantes acerca da figura de Cristo, um taumaturgo tão importante ao ponto de ser considerado o Messias esperado, o Filho de Deus encarnado. Ou não o era? Ou o foi apenas na cabeça de seus discípulos e apóstolos, quase um século depois de sua morte? O que me intriga é o fato de Jesus Cristo não ter deixado nada por escrito pessoalmente, nem ter-se claramente identificado como Filho de Deus.

Chamar Deus de Pai (“Pai, afasta de mim esse cálice!”) era e é uma forma comum de invocar a divindade. Se ele se achasse realmente um ser divino, a segunda pessoa da Trindade, não precisava implorar a ajuda de ninguém. Se ele veio ao mundo, adquirindo uma forma humana, para ensinar sua doutrina de paz e amor, por que não a registrou na língua grega, naquela época a mais universal? Por que confiar apenas em seus discípulos, gente inculta, que mal falavam o aramaico, língua pouco difundida, para evangelizar outros povos?

Acreditar em Jesus Cristo como Deus é um ato de fé, mas sua existência como ser humano é um fato histórico incontestável. Além dos relatos bíblicos, temos testemunhos de escritores insuspeitos. Há alguns historiadores latinos que fazem referências indubitáveis sobre a figura de Cristo: Tácito (55-120) fala de certos “cristãos” supersticiosos, que sofreram nas mãos de Pôncio Pilatos, na época do imperador Tibério; Suetônio (69-126), que foi arquivista do imperador Adriano, escreveu que houve um homem chamado “Chrestus”, que viveu na Palestina durante o primeiro século; Plínio, o Jovem (62-114) fala de cristãos que adoravam Jesus como Deus, fazendo inclusive referência à Santa Ceia. O filósofo grego Luciano de Samósata (125-192), um crítico das religiões, reconhece que Jesus foi adorado pelos cristãos, que praticavam o monoteísmo e a fraternidade entre os homens.

Tais depoimentos de estudiosos laicos são importantes para a confirmação da historicidade do Jesus bíblico, embora fossem escritos no começo do séc. II, quando os ditos e os feitos de Cristo já vinham sendo alterados pela criação de mitos ao redor da figura do Mestre. Valiosas são também as fontes históricas hauridas de hebreus que se mantiveram à margem dos textos da Bíblia. O mais famoso foi Flávio Josefo (37-100), fariseu de Jerusalém, que escreveu As antiguidades judaicas. Ele se refere a um Tiago como “o irmão de Jesus, que era chamado Cristo”. Josefo, considerado o historiador oficial dos judeus, afirma que estes, na época do Segundo Templo, se dividiam em vários grupos, que viviam em atritos entre si: macabeus, fariseus, saduceus, essênios.

A este último clã teria pertencido Jesus, conforme a própria tradição cristã. Os essênios retiraram-se por um tempo no deserto, praticando vida ascética e vivendo em comunidades. Eles aboliram a propriedade privada, vestiam sempre de branco, eram vegetarianos, não contraíam núpcias, banhavam-se antes das refeições, praticavam o batismo por imersão nas águas fluviais. A proposta de um sistema de vida comunitário nos lembra a utópia da República de Platão, o filósofo grego que viveu uns dois séculos antes da seita judaica dos essênios.

Pelo que podemos verificar, as notícias verdadeiramente históricas sobre a pessoa de Cristo podem ser assim resumidas: Jesus foi um judeu culto, talvez professor ou pedagogo, um homem de bem que pela sua pregação chamou a atenção de um pequeno grupo de galileus e, após um período de ministério, foi crucificado pelos romanos na Palestina, durante o governo de Pôncio Pilatos. O resto, especialmente sua atividade milagrosa, é puro mito. Talvez, sua pertinença à comunidade essênica nos ajude a entender muitos episódios descritos no Novo Testamento, visto que alguns estudiosos consideram os essênios como precursores do Cristianismo.

A historia de Jesus tem muito a ver com a prática de vida e o ideal ético desta seita judaica: após uma infância e juventude dedicada aos estudos bíblicos (aos 12 anos discutia com os doutores da Lei, no Templo de Jerusalém), ele desaparece (é lícito pensar que se tenha refugiado no deserto para meditação, vivendo numa comunidade de essênios); aos 30 anos, retorna à vida da cidade, se submete ao ritual do batismo nas águas do rio Jordão e começa a liderar um movimento entre tantas seitas em competição, pregando o desapego aos bens materiais, a lealdade ao grupo mais do que à própria família, a não violência, o perdão dos pecados, o amor ao próximo, a espera dos últimos dias do mundo.

Sua figura carismática atrai especialmente pessoas humildes e necessitadas, doentes que lhe pedem socorro. Sua força espiritual é tão grande que consegue feitos considerados milagrosos, como recuperar a visão ou ressuscitar defuntos. Tais sucessos provocam a inveja da seita rival dos fariseus que instigam o povo contra ele, ao ponto de ser condenado e crucificado. Mas sua mensagem era muito maravilhosa para morrer com seu corpo. Os discípulos e algumas mulheres devotas acreditaram na sua ressureição, como ele havia anunciado, começando a divulgar sua doutrina.