Pensar é preciso/IX/A estrutura da personalidade: Id, Ego, Superego

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
A viagem de pesquisa


A estrutura da personalidade: Id, Ego, Superego.

Sigmund Freud (1856-1939), médico e pesquisador austríaco, é considerado o pai da psicanálise, pois sua influência foi tão ampla no tempo e no espaço que é difícil imaginar como o homem entendia sua alma antes dele. Impulsos e paixões eram atribuídos ao corpo e considerados pecaminosos. Com a descoberta do Inconsciente, Freud conseguiu colocar a ciência no lugar da moral, procurando encontrar a causa remota e biopsíquica de distúrbios existenciais, neurológicos ou psicológicos. Filho de um comerciante judeu, estuda medicina em Viena, dedicando-se particularmente à pesquisa em fisiologia e no sistema nervoso. Influenciado pela teoria evolucionista de Darwin, encontra semelhanças entre a estrutura cerebral humana e a de répteis, discutindo sobre a superioridade dos homens com relação a outras espécies. Realiza um estágio de seis meses na França, junto ao mestre Charcot, familiarizando-se com o tratamento da histeria. Em 1886 começa a clinicar, abrindo um consultório em Viena, onde trata de doentes mentais pela hipnose. Começa uma longa amizade com o colega Josef Breuer, que lhe presta ajuda também financeira. Com ele publica a obra Estudos sobre a histeria (1885), onde já são expostos alguns princípios fundamentais da psicanálise, como inconsciente e recalcamento. Mas uma década depois acaba se separando de Breuer, pois este discorda sobre a origem sexual das neuroses, a tese mais original de Freud.

Prosseguindo sozinho no caminho da pesquisa e do atendimento clínico, em 1900 publica A interpretação dos sonhos, praticamente um curso de auto-análise, pois a obra é o resultado de anotações sobre seus próprios sonhos, cujo estudo o remete à infância, onde ele descobre residir a origem das neuroses. A análise de sonhos seus e de pacientes leva Freud à percepção de que desajustes psíquicos podiam estar relacionados com a atração que o menino sente pela mãe e a menina pelo pai. Ele próprio chega a se lembrar que sentia atração por sua mãe e hostilidade a seu pai, na época da primeira infância.

Este insight deve ter-lhe ocorrido ao ler a peça Édipo Rei, do dramaturgo grego Sófocles, a que já fiz referência, falando da mitologia greco-romana. Com Freud, o mito se transforma em complexo. A relação íntima paterna e materna, se não superada pelo relacionamento afetivo com outras crianças, cria uma dependência tão forte a ponto de tornar-se traumática e provocar desvios de comportamento.

Com a publicação das duas obras, Psicopatologia da vida cotidiana (1904) e Três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905), Freud apresenta sua teoria sobre o funcionamento da mente e do comportamento humano. Sua tese de que toda neurose é de origem sexual escandaliza o mundo, sendo uma revolução comparável à de Copérnico (a Terra gira) e à de Darwin (o homem descende de macacos). A descoberta da força do inconsciente e seus conceitos sobre libido e repressão foram absolutamente revolucionários, mudando radicalmente os estudos da psique humana. Simultaneamente, ele inova também na técnica terapêutica, passando da hipnose ou do simples estado de relaxamento do paciente para o método das associações-livres, fazendo com que o próprio doente participe na busca da causa da neurose. Freud ensina que nossa mente, na qual podemos distinguir vários níveis, é dominada por vontades primitivas que estão escondidas sob a consciência e se manifestam em sonhos ou em momentos de relaxamento psíquico. Vou tentar explicar as três camadas de consciência que compõem a estrutura da personalidade humana, comforme a teoria freudiana, vulgarizada pelos termos id (Inconsciente, código natural), ego (eu consciente, código racional) e superego (consciência moral, código cultural):

1) Id é um pronome neutro latino, que significa “isso”, o que está aí mas que não se vê, ultizado por Freud para indicar o impulso instintivo do indivíduo, o que resta de “animal” em nós (sem considerar a vantagem do animal que não sofre do sentimento de culpa!). Recebe também o nome de infra-ego , por estar por baixo do eu consciente, ou de subconsciente (precisamente, Freud usa o termo “pré-consciente”). O Id, regido pelo princípio do prazer, se apresenta incógnito e usa disfarces para enganar as pessoas e induzi-las a fazer coisas que a consciência repudia. Constitui a reserva inconsciente de impulsos e desejos, de origem genética, que têm a função de preservar e reproduzir a vida. O Id aflora em sonhos, em atos involuntários, no estado de embriaguez ou sob efeito de drogas.

2) Ego: o “eu” consciente, a parte da vida psíquica encastelada entre os desejos do Id e a repressão do Superego. É a instância da racionalidade que olha para a realidade e busca alcançar os objetos de desejo do Id, tentando não transgredir as exigências do Superego.

3) Superego: o terceiro agente da vida psíquica vai se formando aos poucos, a partir da primeira infância. Ele também surge ao nível do inconsciente, como o Id, mas em oposição a ele, pois não é de origem natural, mas cultural. O Superego se forma pela interiorização de normas éticas e sociais, provenientes da família, da escola, das crenças religiosas, do meio ambiente. Ele cria um eu “ideal”, formado sobre um conjunto de valores apenas desejados pela sociedade, mas não realmente ou plenamente vividos pelo indivíduo: castidade, honestidade, justiça, caridade etc. Pode ser considerado um vigilante atuando como juiz da moralidade necessária para a estabilidade social.

É pela interação destes três níveis da psique humana que se forma a personalidade. O Ego, a camada consciente e racional, é constantemente bombardeado pelos dois lados opostos e conflitantes, pressionado pelos desejos insaciáveis do Id, de um lado, e pela severidade repressiva do Superego, do outro. O Superego censura os impulsos, especialmente os sexuais, que a sociedade e a cultura proíbem ao Id, impedindo o indivíduo de satisfazer plenamente seus instintos e desejos. Se o Ego se submeter ao Id, o homem torna-se imoral, perverso; se acatar as ordens do Superego, ele viverá numa insatisfação que o torna infeliz. A solução do impasse estaria, portanto, em adotar a filosofia do velho mestre Epicuro, que afirmara a felicidade residir no meio termo, no equilíbrio entre dois extremos. Mas ser filósofo não é para qualquer um!

De acordo com Freud, o ser humano experimenta repetidamente pensamentos e sentimentos muito dolorosos ao ponto de se tornarem insuportáveis. Tais sensações (assim como as recordações a elas associadas), não podendo ser expulsas totalmente da mente, fogem da zona da consciência, refugiando-se no Id, o receptáculo do inconsciente. O Ego sofre pela angústia existencial, o ser humano estando dividido entre o principio do prazer (que requer satisfação imediata e não conhece limites) e o principio da realidade (que estabelece normas). O Ego, portanto, tem a dupla função: ora, recalcar o Id satisfazendo o Superego; ora, satisfazer o Id violando os limites impostos pelo Superego. No indivíduo considerado “normal”, essa dupla função é cumprida sem muito sofrimento. Mas nos neuróticos e psicóticos o Ego sucumbe, ou porque o Id e o Superego exercem uma força excessiva, ou porque o Ego é muito fraco.

Daí a necessidade do tratamento psicanalítico para tentar descobrir a causa de distúrbios de comportamento. Mais uma vez, Freud é inspirado pela cultura grega. Como o mito de Édipo fora o ponto de partida para sua teoria sobre o complexo materno, assim o estudo da filosofia de Platão ajuda o cientista austríaco na descoberta da divisão da alma nas três partes apontadas acima e na formalização do tratamento terapêutico. O filósofo grego, adotando o método da maiêutica, o processo dialético e pedagógico do mestre Sócrates, que ensinava dialogando com seus discípulos, antecipara, por quase dois milênios, o tratamento psicanalítico. Semelhantemente, Freud começa seguindo a técnica do amigo e colega Breuer, a chamada “cura pela fala”: o paciente vai associando lembranças do passado com sintomas da doença, superando, assim, a neurose pelo esclarecimento do trauma. A diferença entre os dois estudiosos residia no fato de que Freud acreditava que as memórias reprimidas, nas quais se baseavam os sintomas da histeria, eram sempre de natureza sexual.

Com a ocupação de Viena pelos nazistas, Freud, por ser de família judía, perdeu quatro irmãs levadas para campos de concentração. Ele foi salvo pela interferência de Roosevelt, então Presidente dos EUA, e pelo pagamento de um resgate, refugiando-se em Londres, onde viveu o último ano de sua vida (1939), na companhia da filha, a psicanalista Anna Freud. Conforme seus biógrafos, o mestre austríaco morreu de um câncer na mandíbula, de que estava acometido desde 1924. As dores se intensificaram com a velhice e ele pedia doses de morfina cada vez maiores. Supõe-se que tenha morrido de uma overdose, suplicando pela eutanásia.

Freud, acima de acertos ou possíveis derrapadas face aos posteriores avanços da ciência, teve seu incalculável mérito por considerar o impulso sexual como algo natural, afastando o sentimento de culpa que até então atormentava especialmente as almas mais religiosas. A hagiografia, disciplina que narra a vida dos santos, registra muitos casos de devotos que, para livrar-se de desejos carnais, castigavam seus corpos, usando cilícios diretamente sobre a pele. Conforme a doutrina católica, o ato sexual era um pecado em si, a libido sendo considerada a fonte de todo o mal, pois vinha da matéria e não da alma, do Demônio e não de Deus, de acordo com o princípio do maniqueísmo.

E tal mentalidade não mudou muito. Lembro que, quando criança, estudei como interno num seminário na Itália e, de manhã cedinho, ao acordar, um padre vinha examinar se havia manchas de esperma nos lençóis, que acusassem alguma ejaculação. Mesmo se fosse involuntária, devia correr me confessar para sair do estado de pecado mortal. E custou para me libertar de tamanha escória moral! Por enfrentar tais tabus, Freud, junto com Darwin e Marx, continua sendo visto por todas as igrejas como uma encarnação demoníaca.