Pensar é preciso/Introdução

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
Introdução: A insustentável estupidez humana


O propósito deste trabalho é promover uma cruzada contra os políticos corruptos e os religiosos fanáticos, os dois tumores malignos que corroem o tecido social, estimulando a busca da verdade histórica, do raciocínio lógico, do bom senso. Já foi constatado que a preguiça e a ignorância dormem no mesmo berço. O cancioneiro popular explica que a loira bonita não é burra, tem apenas preguiça de pensar. E se fosse só a moça linda e loira... Acontece que também as morenas e as feias, como os homens fortes e inteligentes, preferem usar a cabeça só para embelezar o pescoço. O homo sapiens deveria se distinguir de outros primatas (gorilas ou chimpanzés) pela capacidade do raciocínio, pelo espírito de curiosidade que o pode levar ao conhecimento do mundo em que vive, analisar sensações de prazer e sofrimento, ponderar sobre direitos e deveres. Se isso não acontecer, o que torna o homem diferente da besta? Se viver apenas para satisfazer o instinto da conservação própria e da espécie, o ser humano iguala-se ao animal que também se preocupa com a comida e o acasalamento.

Infelizmente, a maioria costuma renunciar à reflexão, acomodando-se a automatismos lingüísticos (repete palavras ouvidas de outros sem pensar no seu sentido) e ideológicos (segue piamente doutrinas pregadas por líderes carismáticos). Agimos apenas por impulsos, guiados por mecanismos inconscientes, fora do alcance de nossa percepção, dependentes do repertório de vivências anteriores, passadas de pai para filhos. Acreditamos em realidades de que nunca tivemos experiência. A frase do poeta France Paul Valéry, “que seria de nós sem o socorro das coisas que não existem?”, revela a dependência do ser humano de imaginárias entidades sobrenaturais.

Vivemos, assim, o dia-a-dia sem nos dar conta do absurdo existencial. Cultivamos hábitos nocivos a nossa saúde (drogas e excesso de comida e bebida), seguimos rituais religiosos com pouca fé e muita hipocrisia, escolhemos políticos que não atendem aos interesses da coletividade, promulgamos leis injustas ou impraticáveis. Os padrões de comportamento estabelecidos pela sociedade, além de serem hipócritas, não causam nossa felicidade, pois não conseguem atingir o equilíbrio entre a necessidade de satisfazer os instintos individuais e as exigências da vida em sociedade.

A experiência provinda de minha idade avançada me levou à percepção de que, para entender a realidade que me circunda, devo pensá-la do meu modo, como se a descobrisse por mim mesmo e não pela cabeça dos outros. Transcrevo literalmente um pensamento da escritora gaucha Lya Luft: “pensar pede audácia, pois refletir é transgredir a ordem superficial que nos esmaga”. Refletir é transgredir, é não acreditar no que outros disserem, se não for convincente; é não aceitar uma ordem contrária ao raciocínio lógico, à verdade histórica ou à descoberta científica; se causar infelicidade a mim ou a outras pessoas. Passei, portanto, a recusar qualquer preceito “mítico”, baseado em alguma crença que se sustente apenas pelo princípio da autoridade. Não porque “Ele” disse, seja ele Moisés ou Maomé, Hitler ou Stalin, que algo deva ser considerado verdadeiro ou bom. Também porque não sabemos ao certo quem disse, quando disse e o que realmente disse.

Perdi a fé não apenas nos ídolos religiosos, mas também nos líderes políticos, que manobram a massa popular conforme seus interesses e vaidades. Por que tantas guerras, ódio, racismo, injustiça, desigualdade, miséria? Há alguma explicação lógica para tanto sofrimento? Há milênios que a humanidade é guiada por fanáticos religiosos ou políticos, que prometem maravilhas e, no fim, acabam cometendo os erros e as atrocidades de sempre. E isso porque o povo, como se fosse um rebanho, sente necessidade de um ”Pastor” que o guie, um Salvador da Pátria. O problema é que a inteligência, mesmo conatural ao ser humano, não se desenvolve automaticamente. Ela necessita ser cultivada, aguada diariamente, como se fosse uma plantinha.

Estudar, ler, refletir: eis as atividades que deveriam ser estimuladas em todo ser humano, de uma forma constante, desde a primeira infância. A conjunção da vontade de saber (pelo estudo) com a necessidade de atuar (pelo trabalho) é que faz um cidadão de verdade. Democracia nenhuma funciona se a totalidade do povo não tiver um nível cultural satisfatório. Pouco adianta a passagem de um regime ditatorial para um sistema democrático, se a massa pobre e desinformada vende seu voto por um favor qualquer. Troca-se apenas uma ditadura (pelas armas) por outra (pelo voto). E também ajuda quase nada mudar de Comandante (Rei, Ditador ou Presidente) se o povo continuar na ignorância. A seguinte pergunta deveria intrigar qualquer ser pensante: por que, no nosso país, o Estado, como a Igreja, nunca se preocupou assertivamente com a educação da massa popular? A resposta talvez esteja no medo da verdade. Os poderosos não conseguiriam dominar um povo esclarecido e a religião não poderia impor seu credo, se aconselhasse seus fiéis a lerem outros livros a não ser aquele que cada seita considera como “sagrado”, depositário de uma verdade incontestável.

O escopo principal deste livro é um convite para a reflexão sobre temas filosóficos, religiosos, científicos e artísticos, considerados fundamentais para o desenvolvimento da nossa civilização. A matéria é apresentada de uma forma sintética e na ordem cronológica, que vai desde o mito greco-romano até à formulação da teoria da relatividade. A exposição do pensamento de profetas, filósofos ou literatos tem apenas o intuito de divulgação cultural, sem nenhuma pretensão científica. E isso eu faço contando histórias (mitos, lendas, episódios lúdicos) que é a forma mais antiga e eficiente de educar o povo. Estou convencido de que o conhecimento do passado é indispensável para compreender o momento presente, pois não há saber sem história.

Outro motivo, portanto, que me levou à elaboração deste trabalho foi apresentar um panorama da cultura no ocidente para estimular a leitura de obras maravilhosas produzidas pelo gênio humano. Minha intenção foi estabelecer uma ponte no tempo e no espaço e entre as várias disciplinas do conhecimento. O conceito de cultura implica em abrangência, pois ninguém pode se considerar sábio, se não tiver um mínimo de erudição. Uma base de cultura geral é indispensável para o início de qualquer especialização. Daí a necessidade da interdisciplinaridade, estabelecendo um diálogo entre religião e filosofia, história e sociologia, ciências naturais e antropologia, literatura, teatro e artes plásticas.

Enquanto o pensamento reflexivo nos dá a luz, a poesia vivifica o espírito e a ciência nos aproxima da verdade. A monocultura, além de infrutífera, é muito perigosa para a vida em sociedade. Os leitores de um livro só (Bíblia ou Alcorão), não conhecendo outros caminhos, acabam se convencendo de estar em posse da verdade e de ter a obrigação de impô-la aos outros, inclusive pela violência. Do fanatismo ao terrorismo o passo é quase automático, na religião e na política. Por isso, outro objetivo do presente trabalho intelectual reside em despertar no leitor o espírito crítico. Questionar tudo e sempre. Uma máxima filosófica diz: “enquanto o tolo afirma, o sábio duvida”. E uma frase do cancioneiro popular faz eco: “todo o mundo erra”. Quem se achar dono da verdade deve ser preso num hospício, pois, por ter perdido a faculdade do raciocínio, pode se tornar um perigo para a sociedade. A insanidade mental pode levar alguém a se achar um enviado de Deus e inventar uma religião qualquer, que proíba o homem de ser feliz, elencando um montão de pecados sujeitos a penas eternas. Infelizmente, no nosso país, as igrejas pipocam mais do que partidos políticos!

Mas este trabalho não é apenas crítico, polêmico, iconoclasta. Tem seu aspecto construtivo também. Apresentar um pequeno esboço da história da estupidez humana é o primeiro passo para tentar o melhoramento social. A reflexão sobre os erros do passado pode nos levar à libertação de preconceitos atávicos que impedem o progresso civilizacional. O último capítulo, que toca mais especificamente no momento atual da política brasileira, visa apresentar sugestões para a construção de uma cidadania de verdade. Isso só será possível na medida em que, pelo esclarecimento do povo, o sentimento de verdade e de justiça irá substituir os egoísmos individuais e de grupos.


“O que é a maioria? A maioria é tolice.
O bom senso sempre tem sido de poucos!
Convém pesar os votos e não contá-los”.


Tal constatação, feita pelo poeta alemão Schiller, 200 anos atrás, infelizmente, ainda hoje continua verdadeira. A massa popular, manobrada por líderes religiosos ou políticos, causou a morte de homens maravilhosos, como Sócrates e Jesus Cristo, e exaltou figuras sinistras, como Hitler e Stalin. Pensar é preciso para que aumente, cada vez mais, o número de gente com consciência crítica e cívica!