Pensar é preciso/VIII/Depois de Darwin: teoria do Big Bang

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Pensar é preciso por Salvatore D’ Onofrio
A viagem de pesquisa


Depois de Darwin: Evolucionismo vs Criacionismo (teoria do Big Bang)

Darwin, ao confirmar a teoria evolucionista sobre as origens do cosmo e do homem, dera o passo decisivo para a derrubada da teoria criacionista, conforme o relato bíblico, que dera origem à tese do “design inteligente”, formulada pelo teólogo seu patrício, William Paley (1743-1805), ao apresentar o “argumento do relógio”: o funcionamento perfeito de seu mecanismo pressupõe um engenheiro construtor, um designer. Portanto, a perfeição do microcosmo e do macrocosmo exigiria a existência de uma mente inteligente, a que chamamos Deus.

Anteriormente, o arcebispo de Armagh (Irlândia), James Ussher (1581-1656), conforme sua exegese dos livros bíblicos, chegara a afirmar que a Terra tinha sido criada às 9 horas da manhã do domingo dia 23 de Outubro de 4004 e, no dia 10 de novembro, do mesmo ano, Adão e Eva foram expulsos do Paraíso. Precisou ainda que a Arca de Noé parara no Monte Ararat (Turquia) no dia 5 de maio de 2348. Pela exatidão das datas, seus fiéis enalteceram sua sabedoria, dando credibilidade a sua tese. Que absurdo! Bem que o filósofo francês Ernest Renan (1823-1892 afirmara:

“A unica coisa que nos dá a idéia do infinito é a imbecilidade humana!”

É inconcebível que ainda hoje, não obstante o enorme progresso intelectual e científico da humanidade, há gente que acredite em relatos fantásticos, sem nenhuma consistência histórica ou lógica mental! Mesmo pessoas inteligentes e cultas fecham os olhos à verdade factual, achando preferível (pois mais cômodo ou confortável!) acreditar em Moisés, um mítico pastor de três milênios atrás, do que num cientista genial, como Darwin. Este, como vimos, demonstrou cientificamente que o processo evolutivo do mundo prescinde de um projetista transcendental e que o homem não foi criado de súbito e num preciso momento, mas, simplesmente, é um parente de chimpanzé, bem mais evoluído (às vezes, nem tanto!).

Conforme as descobertas arqueológicas e genéticas, o Universo se formou há 13 bilhões de anos. Mas o início da vida foi bem mais tarde. Os primeiros animais talvez viessem do mar, ocupando todo tipo de nicho ecológico que encontravam entre as águas e a terra firme. Na longa corrida evolutiva, com início talvez 400 milhões de anos atrás, seres vivos, intermediários entre anfíbios e peixes, parecidos com lagartixas ou crocodilos, ao ocuparem a superfície terrestre se tornaram tetrápodes, andando apenas com quatro pés. Os mamíferos apareceram uns 200 milhões de anos depois. Os primeiros hominídeos (mamíferos arquétipos do homem) nasceram na África há cinco milhões de anos, aproximadamente. Foi longa a caminhada que marcou a passagem do primata, quando ainda andava de quatro, até conseguir chegar à primeira forma humana, o homo erectus. Para termos apenas uma idéia, em 1983, foi descoberto um fóssil, de 47 milhões de anos (em exposição no museu da Universidade de Oslo, com o nome de Ida), considerado o mais antigo ancestral comum de macacos e homens, fêmea da espécie dos lemuróides, primatas que habitam no Madagáscar. Mas, conforme uma pesquisa mais recente, o título de “elo perdido” entre humanos e macacos pertenceria ao Ganlea megacanina, um fóssil com 38 milhões de anos, achado em Mianmar, no Sudeste Asiático.

Como se pode deduzir, levou muito tempo para que o protótipo humano começasse a levantar as patas dianteiras e a cabeça para olhar mais alto, descobrindo novos e mais amplos horizontes. Estima-se que o longo processo de formação do homo sapiens teve sua definição uns 200 mil anos atrás, numa região do sudoeste da África, nas proximidades de Angola. O local do berço da humanidade não foi, portanto, o luxuriante Jardim do Éden, mas um amontoado de areia e pedras, sendo a vida vegetal composta apenas de arbustos. Os habitantes dos áridos sítios eram pastores ou caçadores. Recentes pesquisas genéticas demonstram que a humanidade se originou de grupos tribais, da primitiva etnia san, que seriam os longínquos ancestrais de Barack Obama, o Presidente negro dos USA. Eles ganharam o mundo ao ultrapassar o Mar Vermelho, golfo que liga o Oceano Índico ao Canal de Suez, ao pé do Monte Sinai, separando a África da Ásia.

Esta Grande Viagem fez a diferença entre o homem e o animal: enquanto a besta se contenta em seguir apenas o instinto gregário, vivendo em grupos no mesmo lugar, o homem é movido pelo espírito da curiosidade, a vontade de conhecer o que está além da sua vista. De acordo com cálculos de paleontólogos, o Homo Sapiens da África, a partir de 100 mil anos atrás, depois de ter explorado boa parte do seu continente, começou a dirigir-se, sucessivamente, em direção à Ásia (60.000 anos atrás), à Oceania (50.000), à Europa (35.000) e às Américas (15.000).

No continente europeu, por mudanças biológicas, ambientais e culturais, um protótipo de ser duvidosamente humano, chamado de Homo de Neandertal, espécie já extinta, gradativamente teria sido substituído pelo Homo Sapiens, de origem africana. A pele humana branca começou a surgir nas regiões glaciais, a partir de 12 mil anos atrás, devido ao fator climático (diminuição da exposição direta do corpo aos raios solares: isso explicaria a causa da brancura da palma dos pés e das mãos dos africanos que originariamente andavam de quatro). Portanto, o homem de cor branca que se achar superior ao negro está renegando suas origens. Qualquer ser humano é afrodescendente! O cantor pop star norte-americano Michael Jackson, de cor preta, recorrendo a um processo químico de embranquecimento, tentou conseguir, em poucos anos, o que a natureza levou milênios: os resultados foram pífios.

Na sua generalidade, a civilização humana teria uma história de 6.000 anos, aproximadamente. Mas a época pré-histórica da humanidade apresenta sinais de trabalhos artísticos, encontrados numa caverna da África do Sul, que remontam a 70 mil anos, aproximadamente. A primeira figura humana, documentada até agora e encontrada numa caverna do Sul da Alemanha, foi esculpida há uns 35 mil anos: é a estatueta de uma mulher sem cabeça, com enormes seios e nádegas volumosas, com genitália bem desenhada. A fenda entre as coxas põe em evidência a vulva no meio dos grandes lábios. O convite ao coito, à penetração, que pode ser considerado pornográfico pela nossa moral (os arqueólogos denominaram o achado como Venus Peituda), salienta a importância que o homem primitivo dava ao ato sexual. A configuração artística desta mulher representa os dois instintos fundamentais do ser humano: a conservação própria pelo alimento (os peitos generosos que fornecem o leite) e a perpetuação da espécie pelo acoplamento sexual (o rego onde a vida se reproduz). Para todos os povos indígenas, a arte é principalmente utilitária, estando a serviço da comunidade tribal. O animal pintado ou esculpido numa rocha está lá para precaver os transeuntes sobre o perigo que aquele sítio apresenta.

A descoberta da Venus Peituda na Alemanha reforça a tese da existência de um primitivo matriarcalismo, quando a mulher tinha mais poder do que o homem. Isso aconteceu (e ainda acontece) especialmente nas regiões do Norte da Europa, onde é valorizado o papel da mulher na sociedade, contrastando com os povos de origem judaica, latina ou islâmica, em que predomina o machismo. O achado arqueológico confirma o mito: o primitivo poema épico-religioso da Finlândia, Kalevala, narra que quem criou o mundo foi uma mulher, a virgem Ilmatar, após 700 anos de trabalho de parto. Narra a lenda que a jovem teria recebida a visita de um bichinho anfíbio (uma espécie de pato marinho ou boto), que se aninhara na sua vulva, confundindo os pelos pélvicos com uma moita de capim fresco ou uma turfa, matéria esponjosa que se forma no limite entre a terra e água.

A figura da deusa Ilmatar lembra a lenda brasileira do boto, golfinho do rio Amazonas, que de noite se transforma num lindo jovem que seduz as mocinhas, na praia ou ao sair de um baile. “Filho do boto” passou a denominar um filho natural, de paternidade desconhecida. Luís da Câmara Cascudo, no Dicionário do Folclore brasileiro, relata que uma mulher do Pará levara uma criancinha ao médico. Ao perguntar a paternidade do nenê, recebera a seguinte resposta: é “filho de boto”. Ela acreditava que apenas os outros três filhos seus eram do marido. Cascudo narra ainda que um caboclo amazonense ofereceu ao comandante de um barco um “Olho de Boto”, uma espécie de amuleto, dizendo que se olhasse pelo buraquinho qualquer moça se apaixonaria por ele. O Comandante quis experimentar e olhou pelo furinho na direção do caboclo. E este começou a desmunhecar, se remexendo todo, sorrindo, virando os olhos e dizendo “deixe disso, seu comandante”. Diante dessa prova incontestável de sua eficácia, o Comandante comprou o amuleto.

Mas os estudiosos do folclore brasileiro acham que a lenda do boto não é de origem autóctone, pois foi levada para Amazônia pelos colonizadores portugueses. Há uma longa tradição clássica a respeito: o povo grego consagrara o delfim a Afrodite (Vênus, em Roma), a deusa do amor, que nascera da espuma formada sobre o mar pelo sêmen do deus Céu, quando este teve os testículos cortados pelo filho Saturno. Na Roma antiga, vários poetas exaltam a luxúria dos delfins. A iconografia, nas origens da religião cristã, representa um peixe, na forma de delfim, como símbolo da Eucaristia, para representar o amor de Jesus para com a humanidade. A verdade é que o erotismo está muito presente nas povoações primitivas, anteriormente à formação do preconceito de que o sexo é “pecado”, quando a prática da sexualidade era considerada como algo natural, assim como o prazer da comida e da bebida. Só posteriormente, com o avanço da civilização, igrejas e governos começaram a permitir a atividade sexual apenas dentro do matrimônio, para salvaguardar superestruturas sociais ou projetar a felicidade individual num hipotético mundo ultraterreno.

Quanto à origem do Universo, o cosmo, como o homem, também está submetido ao princípio da evolução. Também aqui, a tese do movimento e da mudança, que caracteriza o conhecimento científico, vem substituir o conceito de fixidez, de criação por um ato instantâneo e definitivo, em que repousa o dogma religioso. Os astrônomos antigos sempre pensaram que o Universo fosse estático. Só em meados do século passado, o astrofísico norte-americano Edwin Powell Hubble (1889-1953) descobriu que as galáxias estavam se afastando umas das outras, fortalecendo assim a tese da expansão do Universo. Tomou sustentação científica, então, a teoria do Big Bang (“a grande explosão”):

a) a partir de um instante zero, há mais de 13 bilhões de anos, toda a matéria e a energia do Universo estavam concentrados em um único núcleo (idade das trevas);
b) o núcleo, por um motivo ainda desconhecido, em certo momento explode e dá início à expansão desenfreada do Universo;
c) este continua a se expandir, mas a força de gravidade puxa a matéria, refreando a expansão e formando as galáxias (5 bilhões de anos);
d) atualmente, as galáxias estão se afastando com tanta velocidade que o Universo parece se expandir de forma acelerada: a força que provoca essa aceleração, batizada de “energia escura”, ainda é um mistério.

Como também é um mistério o que existiria antes do Big Bang! As pessoas estudiosas de religião se perguntam: “o que estava fazendo Deus antes de criar o mundo”? É a indagação sobre o mistério da passagem da eternidade (característica da divindade) para a temporalidade (própria da humanidade), visto que o tempo surgiu com a Criação. De modo semelhante, os cientistas se perguntam: “o que estava acontecendo antes do Big Bang”? Pois foi esta explosão que deu origem, ao mesmo tempo, às categorias do tempo e do espaço. Werner Heisenberg (1901-1976) formulou o famoso “Princípio da Incerteza” ao estudar as vibrações das partículas subatômicas, colocando em dúvida a correlação entre causa e efeito.

A ciência, pela sua própria natureza, é uma contínua indagação, sendo o território da dúvida em busca de novas respostas que, por sua vez, provocam outros questionamentos e, assim, ad infinitum. Contrariamente à religião que se sobrepõe à dúvida, tendo a pretensão de possuir a verdade acabada e definitiva sobre todas as coisas do presente, do passado e do futuro. Enquanto o princípio evolutivo da ciência é a vida, a fixidez da fé é a morte do espírito, pois impede seu desenvolvimento. No embate entre ciência e religião, esta, historicamente, nunca conseguiu uma vitória sequer, porque está sempre voltada para um passado mítico, que lhe impede enxergar a verdade existencial.

Talvez, a nova geração de supertelescópios renove a esperança de conhecer a entidade física da natureza desconhecida, a chamada energia escura, ou nos esclareça melhor sobre as causas e os efeitos do Big Bang ou nos apresente uma nova teoria sobre a origem do Universo. Recentemente, num profundo e longo túnel, entre a França e a Suíça, começou a funcionar uma supermáquina, conhecida pela sigla LHC (Large Hadron Collider). Em seu interior, físicos atômicos aceleram e provocam choques entre partículas de prótons a uma velocidade próxima da luz, com a intenção de reproduzir o instante do Big Bang. Também as ciências biológicas, especialmente a genética, estão com pesquisas adiantadas, ampliando e aprimorando o mapeamento do DNA, com o fim de descobrir o “elo perdido” para poder compreender o enorme buraco entre os humanos e outras espécies que também têm traços de inteligência, como golfinhos ou chimpanzés. Qualquer que seja a futura resposta científica dos astrônomos, paleontólogos ou biólogos, a única certeza que temos agora é que Darwin estava certo. O mundo e o homem não foram “criados”, já belos e prontos, por uma entidade sobrenatural, como continuam ensinando as várias doutrinas religiosas, mas foram frutos de uma longa evolução.

A teoria da Evolução de Darwin, junto com a teoria da Relatividade, formulada recentemente por Einstein, constitui um dos grandes pilares de sustentação da nova ciência. As duas descobertas se encaixam na teoria geral do conhecimento, fundamentada no processo natural de início, meio e fim (nascimento, desenvolvimento e morte ou transformação). Este princípio dialético dos três momentos serve como base de conhecimento não somente das ciências, mas também das artes e até dos esportes. O princípio do mobilismo cósmico já se encontra expresso no famoso pantarei (“tudo corre”) do filósofo grego Heráclito, pela bela imagem do homem que não consegue banhar-se duas vezes nas mesmas águas de um rio. Este princípio é retomado pelo Intuicionismo do filósofo francês Henri Bergson e pela poesia de Manuel Bandeira:

“Ser como o rio que deflui

Silencioso dentro da noite.

Não temer as trevas da noite”

No fim, tudo é evolução e o progresso é sempre relativo ao tempo e ao espaço. Se, por exemplo, a gente observar os jogos olímpicos, vai confirmar a consistência dessa tese. As primeiras Olimpíadas foram criadas na Grécia com uma finalidade educativa e cívica. Fortificar o corpo, ter mais altura e correr mais era uma preparação indispensável para a defesa individual e coletiva, quando as póleis (cidades) lutavam uma contra a outra pela supremacia. Os jogos eram treinamentos para fugir de animais ferozes ou de inimigos (corrida), ultrapassar riacho (salto em distância), dominar as águas do mar ou de rios (natação), apanhar frutas das árvores (salto em altura), pular cercas (salto com vara), enfrentar o inimigo no corpo-a-corpo (luta greco-romana) ou com espadas (esgrima), aprender a cavalgar (hipismo). Mais tarde, com o avanço da civilização, nas Olimpíadas modernas as competições passaram a ter outras finalidades, desenvolvendo não apenas o físico, mas também a mente. O que acontece especialmente com os jogos com bolas: o drible no futebol, a deixadinha no vôlei, a passada no tênis, onde a inteligência vale mais do que a força bruta.

A questão Criacionismo x Evolucionismo deixou as várias igrejas perplexas, cada qual apresentando uma reação diferente. Penso que estes são os principais pontos de vista ideológicos que distinguem os vários credos:

1) as igrejas que continuam apegadas à tradição bíblica, interpretando literalmente as Escrituras consideradas sagradas e, portanto, de uma verdade indiscutível, pelas quais o mundo foi criado em seis dias, a terra é chata e imóvel, o sol rodando ao seu redor;
2) as igrejas que aceitam a teoria da evolução, abandonando a tese criacionista e a discussão sobre temas de ordem científica ou histórica, considerando os relatos bíblicos como obras de ficção humana e aceitando apenas os dogmas espirituais e morais que se encontram nos textos religiosos;
3) as igrejas que tentam ajustar a Bíblia à luz das descobertas científicas, achando que a Revelação divina se deu por metáforas e gradativamente, pois Deus teria adaptado seu discurso à compreensão do povo simples, usando uma linguagem figurada, parábolas fáceis de serem entendidas.

Sem dúvida, a maioria das pessoas religiosas pertence a este último grupo. Mas aí vai a pergunta: se foi o mesmo Deus, apesar dos diferentes nomes (Jeová, Alá ou o Senhor Deus Pai), que inspirou Abraão e os outros profetas que deles descenderam (Moisés, Cristo, Maomé, entre tantos outros), ao longo do tempo e do espaço, como explicar a diferença de doutrinas e de costumes entre as três religiões monoteístas (Judaísmo, Cristianismo e Islamismo), que vivem brigando entre si? Qual é a Palavra “verdadeira” de Deus na qual deveríamos acreditar? E se este Deus, em que o homem vem acreditando há mais de cinco mil anos, realmente existe, por que continua insensível ao sofrimento de suas criaturas?