Pesquisando/I/O conhecimento empírico, técnico e mítico

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Pesquisando por Salvatore D’ Onofrio
A questão do saber: o conhecimento e sua tipologia


O conhecimento empírico

Do grego empeirikós, é o tipo de conhecimento proveniente apenas da experiência do dia a dia, da observação dos fenômenos da natureza, das sensações que o contato com o mundo exterior estimula em nós: o sentido do calor à aproximação de uma fonte de energia térmica, o medo da escuridão, a satisfação que nos proporcionam a bebida e a comida, o prazer da conjunção carnal, etc. Tal conhecimento, que serve principalmente para satisfazer os dois instintos fundamentais, a conservação própria (pela alimentação) e a conservação da espécie (pela cópula), é comum a todos os seres vivos, vegetais e animais, sendo também uma característica dos agrupamentos humanos mais primitivos. É preciso, porém, não confundir o conhecimento empírico da vida prática, com o empirismo teórico, um filão da especulação filosófica que, como veremos mais adiante, vai tornar-se a base da metodologia científica.

O conhecimento técnico

O étimo grego tecné corresponde ao nosso saber fazer, o know how, conforme a cultura inglesa. Este tipo de conhecimento já não é proporcionado apenas pelo instinto, pelas sensações, pela observação ingênua, pois requer a intervenção da razão que estabelece regras de procedimento para a fabricação de objetos ou o exercício de diversas atividades. É o conhecimento do “como” fazer algo e dos meios a serem usados para a realização de tarefas. Assim, o homem, ao longo de sua evolução existencial, aprendeu a técnica da pesca, da caça, do cultivo da terra, da criação de animais, da fabricação de objetos de uso (sapatos, facas, etc.), de culto (estátuas de divindades) ou de arte (poemas, pinturas, melodias, etc.). Aprendeu também a técnica da cura de doenças ou de rituais para convívio social e culto religioso. O conhecimento técnico está na base da profissionalização. Na sociedade moderna, a aprendizagem é indispensável para qualquer atividade humana, para a fabricação de qualquer objeto, quer de uso, quer de arte. Sem técnica, não seria possível fazer cinema, construir pontes, realizar um bom jogo de futebol.

O conhecimento mítico

O homem, desde que descobriu sua faculdade cognitiva, buscou uma resposta para suas dúvidas existenciais, querendo saber sobre a origem do universo e de si próprio, sobre o porquê do sofrimento e da morte. A palavra religião, em seu significado etimológico, implica a crença de uma ligação entre o mundo natural, visível e um pressuposto mundo sobrenatural, invisível. É muito difícil encontrar um agrupamento humano, primitivo ou civilizado, que não acredite numa força misteriosa, considerada criadora do universo, a que se deve prestar culto. O tipo de religião varia conforme a sociedade e as épocas. Politeísmo, monoteísmo e panteísmo são os macrogêneros que agrupam uma infinidade de crenças.

O sistema religioso mais sugestivo, a nosso ver, foi o paganismo greco-romano. A mitologia inventada pelos habitantes da Grécia antiga sobreviveu à crença primitiva e tornou-se manancial inesgotável para a criação de obras de arte literária e plástica. As epopeias, as tragédias, os templos, as estátuas, as pinturas, até a música, estão intrinsecamente relacionados com os mitos de Dionísio, de Apolo, de Júpiter, de Vênus, etc. O mito, como se sabe, é uma história fantástica inventada para tentar explicar a origem do cosmo, do homem, de objetos, para justificar comportamentos ou compreender a natureza de sentimentos e paixões. Assim, por exemplo, em noites de tempestade, o grego primitivo, apavorado com raios e trovões, imaginava que Júpiter, o pai dos deuses, irado por algum motivo, encarregava seu filho Vulcano, o deus do fogo, a fabricar setas incandescentes e a lançá-las contra a humanidade. Daí a necessidade de realizar ritos expiatórios para acalmar a raiva divina. Mais tarde, quando a ciência avança e demonstra que o raio não passa de uma descarga elétrica provocada pelo atrito entre o ar frio de uma nuvem e a quentura do solo, o mito perde sua crença e se transforma em lenda.

O conhecimento mítico, teológico, religioso, em geral, por não ter nenhuma sustentação lógica ou racional, fundamenta-se apenas no princípio da autoridade: a verdade sobre a fundação do mundo, a origem e o destino do homem, bem como seu comportamento ético, teria sido revelada por entes superiores a seres privilegiados. A Bíblia, os livros sagrados do Velho e do Novo Testamento, contém o conjunto das doutrinas supostamente reveladas pelo deus do judaísmo e do cristianismo a profetas e a evangelistas. Também outros sistemas religiosos (budismo e islamismo) exigem o ato de fé: a pressuposição da intervenção divina na criação do mundo (cosmologia) e no regimento da vida em sociedade (ética).

É uma verdade indiscutível que o sentimento religioso é conatural ao ser humano, pois não existe nenhuma sociedade, primitiva ou civilizada, que não acredite em seres sobrenaturais ou que não pratique alguma forma de culto. E isso porque homem nenhum, em nenhum lugar ou tempo, se conforma com o absurdo da morte, sonhando com a continuação da vida num além e imaginando a alma como uma entidade imortal, porque espiritual, podendo viver separada do corpo perecível. Outro motivo da crença na divindade é a impotência em resolver seus problemas existenciais: a doença, a fome, a maldade, a injustiça, a dor fomentam o desejo da existência de outro mundo onde seria feita justiça, os bons sendo premiados e os maus punidos. Toda religião é uma utopia salutar, porque o homem não conseguiria suportar a dor da existência se não acreditasse na possibilidade de uma vida melhor após a morte. Portanto, qualquer sentimento religioso, de indivíduos ou de grupos étnicos, deve ser respeitado, devendo a liberdade de culto ser uma norma internacional, praticada por todos os povos.

Se o conhecimento religioso, como acabamos de ver, não tem fundamento racional ou científico, tendo por suporte apenas a crença numa palavra revelada, não entendemos a razão das sangrentas lutas religiosas que ainda hoje envergonham até povos considerados civilizados. É preciso aceitar o fato incontestável de que não existe nenhuma religião “ortodoxa”, quer dizer, verdadeira, em sentido absoluto, porque toda religião é válida apenas para quem acredita nela. Lutar para suplantar um credo por outro é um ato de insânia, uma ofensa contra a inteligência humana. Sem falar do fanatismo extremo a que chegam alguns grupos étnicos. Se matar em nome de Deus já é inconcebível, imaginem então o absurdo dos suicídios individuais e coletivos que, volta e meia, algumas seitas religiosas cometem, na vã esperança de passar para uma vida melhor.

Ainda no primeiro século antes de Cristo, Lucrécio, poeta e filósofo romano, ao comentar em seu De Rerum Natura (Sobre a natureza das coisas) a passagem mitológica de Agamenão induzido a sacrificar sua filha Ifigênia à deusa Diana, exprimia sua revolta contra a ignorância humana com a famosa expressão: “Quantos crimes não se cometem em nome da religião!” É vergonhoso constatar que, até agora, o homem não aprendeu a controlar seu sentimento religioso: haja vista as lutas sangrentas entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte, entre cristãos e muçulmanos no Oriente Médio ou os últimos suicídios coletivos de seitas religiosas, como na Guiana, em 1978 (mais de 900 seguidores de Jim Jones), em Waco, EUA, em 1933 (o “profeta” David Koresh e mais 80 membros de sua seita), na Suíça, em 1944 (48 membros da Ordem do Templo Solar) e na Califórnia, em 1997 (39 jovens de uma seita apocalíptica ligada à internet, que acreditavam que, com sua morte física, iriam pegar carona no cometa Hale-Bopp). Como dizia o escritor francês Renan: “A única coisa que nos dá a ideia do infinito é a imbecilidade humana.”