Poesias de Sá de Miranda (1885)/Parte Primeira/Soneto XX

Wikisource, a biblioteca livre

Saltar para a navegação Saltar para a pesquisa
96.

Soneto XX.

1.O sol é grande, caem com calma as aves
Em tal sazão que soía de ser fria.
Esta agua que cai de alto acordar me hia
De sono não, mas de cuidados graves.

52.Oh cousas todas vãs, todas mudaveis,
Qual é o coração que em vos confia?
E passa um dia assi, passa outro dia,
Incertos muito mais que ó vento as naves?

3.Eu vira ja aquí sombras, vira flores,
10Eu vira fruita ja, verde e madura;
Ensordecía o cantar dos ruiseñores!

4.Agora tudo é seco e de mistura:
Tambem mudando me eu, fiz outras côres.
E tudo o mais renova: isto é sem cura.


P f. 42. J f. 33v. A f.14. B f.3v. — 1 A coa calma. — 2 AB Do tempo em tal sazão que soi ser fria. — 3 AB que d’alto cai. — 4 B Do. — 5 A mudaves. — 6 A tal coração. — 7 A Passão os tempos, vai dia tras dia. B Passando um dia vai, passa outro dia. — 8 B Incertos todos mais. — 9-11 B Eu vi ja por aqui sombras e flores, Vi aguas, e vi fontes, vi verdura, As aves vi cantar todas d’amores. — 10-11 Vi tantas aguas, vi tanta verdura, As aves todas cantavão d’amores. — 12-13 A Tudo é seco e mudo e de mestura T. m. m’eu fiz d’outras cores. B Mudo e seco é ja tudo e d. m. Tambem fazendo me eu fui d’outras côres.