Pois tudo tão pouco dura

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Pois tudo tão pouco dura
por Cristóvão Falcão
Cantiga presente no Cancioneiro de Paris.


Pois tudo tão pouco dura
Como o passado prazer,
Isso me dá ter ventura
Como deixá-la de ter.

Acaba-se com a vida
Juntamente o mal e o bem,
E quem maior dita tem
Tem mais pena da partida.
E pois é cousa segura
Que tudo fim há de haver,
Isso me dá ter ventura
Como deixá-la de ter.

Nunca vi contentamento
Durar em nenhum estado,
E vi dar muito tormento
Lembrança do bem passado;
Pois magoa e pouco dura
A refega do prazer,
Isso me dá ter ventura
Como deixá-la de ter.

É tão breve em si a vida,
Que tudo lhe corresponde,
O prazer se nos esconde
Ou tem breve despedida.
E pois são de pouca dura
A vida e o prazer
Isso me dá ter ventura
Como deixá-la de ter.

A tristeza e o tormento
Sempre vi em mim sobejo
E não vi contentamento
Que não viesse a desejo;
Como a vida não é segura
E dura pouco o prazer,
Isso me dá ter ventura
Como deixá-la de ter.

Toda a descrição consiste
Em saber homem com cedo
Que nenhum prazer faz ledo,
Pois o ser da vida é triste.
Se a vida não é segura
E os gostos não têm ser,
Isso me dá ter ventura
Como deixá-la de ter.

Estilo da natureza
É prazer vir de passada,
E o prazer e a tristeza
Fazer connosco morada.
E pois tão pouco segura
É a vida e o prazer,
Isso me dá ter ventura
Como deixá-la de ter.