Polonia (1864)

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Epitaphio do Mexico
por Machado de Assis
Poema publicado em Chrysalidas (1864). Agrupado posteriormente em Poesias Completas (1902).
Texto com ortografia atualizada disponível em Polônia.



POLONIA.


(1862.)



Como aurora de um dia desejado,
Clarão suave o horisonte innunda.
É talvez amanhã. A noite amarga
Como que chega ao termo; e o sol dos livres,
Cangado de te ouvir o inutil pranto,
Alfim resurge no dourado Oriente.

Eras livre, — tão livre como as aguas
Do teu formoso, celebrado rio;
        A corôa dos tempos
Cingia-te a cabeça veneranda;
E a desvellada mãi, a irmã cuidosa,
        A santa liberdade,
Como junto de um berço precioso,
Á porta dos teus lares vigiava.

Eras feliz demais, demais formosa;
A sanhuda cobiça dos tyranos
Veio enluctar teus venturosos dias...
Infeliz! a medrosa liberdade
Em face dos canhões espavorida
Aos reis abandonou teu chão sagrado;
        Sobre ti, moribunda,
Viste cahir os duros oppressores:
Tal a gazella que percorre os campos,
        Se o caçador a fere,
Cahe convulsa de dôr em mortaes ancias,
        E vê no extremo arranco
        Abater-se sobre ella
Escura nuvem de famintos corvos.

Presa uma vez da ira dos tyranos,
        Os membros retelhou-te
Dos senhores a explendida cobiça;
Em proveito dos reis a terra livre
Foi repartida, e os filhos teus — escravos -
Viram descer um véu de luto á patria
E apagar-se na historia a gloria tua.

À gloria, não! — É gloria o captiveiro
Quando a captiva, como tu, não perde
A alliança de Deus, a fé que alenta,
E essa união universal e muda
Que faz commuuns a dôr, o odio, a esperança.

Um dia, quando o calix da amargura,
Martyr, até ás fezes esgotaste,
Longo tremor correu as fibras tuas;
Em teu ventre de mãi, a liberdade
Parecia-soltar esse vagido
Que faz rever o céu no olhar materno;
Teu coração estremeceu; teus labios
Tremulos de anciedade e de esperança,
Buscaram aspirar a longos tragos
A vida nova nas celestes auras.

        Então surgiu Kosciusko;
Pela mão do Senhor vinha tocado;
A fé no coração, a espada em punho,
E na ponta da espada a torva morte,
Chamou aos campos a nação cahida.
De novo entre o direito e a força bruta
Empenhou-se o duello atroz e infausto
        Que a triste humanidade
Inda verá por seculos futuros.
Foi longa a luta; os filhos dessa terra
Ah! não pouparam nem valor nem sangue!
A mãi via partir sem pranto os filhos,
A irmã o irmão, a esposa o esposo,
        E todas abençoavam
A heroica legião que ia á conquista
        Do grande livramento.

        Coube ás hostes da força
        Da pugna o alto premio;
        A oppressão jubilosa
Cantou essa victoria de ignominia;
E de novo, ó captiva, o véu de luto
Correu sobre teu rosto!
                       Deus continha

Em suas mãos o sol da liberdade,
E inda não quiz que nesse dia infausto
Teu macerado corpo allumiasse.

Resignada á dôr e ao infortunio,
A mesma fé, o mesmo amor ardente
        Davam-te a antiga força.
Triste viuva, o templo abriu-te as portas;
Foi a hora dos hymnos e das preces;
Cantaste a Deus; tua alma consolada
Nas azas da oração aos céus subia,
Como a refugiar-se e a refazer-se
        No seio do infinito.
E quando a força do feroz cossaco
Á casa do Senhor ia buscar-te,
Era ainda resando
Que te arrastavas pelo chão da egreja.

Pobre nação! — é longo o teu martyrio;
A tua dôr pede vingança e termo;
Muito has vertido em lagrimas e sangue;
É propicia esta hora. O sol dos livres
Como que surge no dourado Oriente.

        Não ama a liberdade
Quem não chora comtigo as dôres tuas;
E não pede, e não ama, e não deseja
Tua resurreição, finada heroica!