Porque a fama vos celebre

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A certo tenente chamado O Surdo insigne vendelhão, e atravessador vendendo huns payos por cousa muy selecta quando os mais delles estavam pobres.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsEspada e Espadilha

1Porque a fama vos celebre,
meu Tenente mercador,
dizem em vosso louvor,
que vendeis gato por lebre:
temo, que o trato vos quebre,
e temo, que vos quebreis,
quando as bocas não tapeis,
que dizem, por onde andais,
o modo, com que comprais,
e o modo, com que vendeis.
  
2Se vós a boca vazia
tapásseis do nosso Alferes,
não disseram más mulheres
mal da vossa mercancia:
que o Alferes a porfia
anda estrugindo os quartéis
com dous mil aqui-d’El-Reis,
porque sois tão mau cristão,
que o que vos custa um tostão,
vendeis por duzentos réis.
  
3Se os paios, que vós vendeis,
são do castelo de vide,
guardai-lhe embora a pevide,
mas co não a semeeis:
porque se esta terra encheis
de tão pobre sementeira,
sobre perder a queijeira,
em que ganhais quatro réis,
virão os Almotacéis
meter-vos na Leoneira.
  
4Se os paios tão podres são,
quando vo-los pede alguém,
quando os vendeis muito bem,
como é cada qual tão são?
o certo é, meu Irmão,
que nos trazeis enganados,
pois sois na verdade tal,
que gabando-os sem sal
no-los vendeis bem salgados.
  
5Meu Tenente, e meu Senhor,
vós mereceis justamente
comer praça de Tenente,
porque sois bom tenedor:
por força, nem por amor,
por jeito, nem por violência
pôde nunca a diligência
do Alferes vosso parceiro
tirar do vosso fumeiro
um fole de pestilência.
  
6Por esta terra se conta,
que por preços tão diversos
destes os paios preversos,
que nem vós lhe dais na conta:
um contador vos desconta
pobres mais de nove, ou dez,
dados de graça nem três:
mas isto é dito de graça,
pois vem revendido em praça,
quanto dais sem interes.
  
7Sobre a partida dos queijos,
que vós intentais comprar,
me dizem, que heis de ganhar
mais de quatro percevejos:
creio, que destes sobejos
tirareis ganância boa,
com que honreis casa, e pessoa;
mas tenho o meu pesarzinho
de ser mercador ratinho,
quem é filho de Lisboa.
  
8Quanto ao outro negocinho
da frasqueira rosa soles,
que intentais vender aos goles
a frasquinho por frasquinho:
tirareis tal coscorinho
deles, como de um crisol,
que no sagrado arrebol
do convento heis de meter
uma filha, que há de ser
Madre Soror Rosa Sol.
  
9Enquanto aos demais contratos,
para que o dito não quebre,
ou vendeis gato por lebre,
ou vendeis lebres por gatos:
guardai-vos de mentecaptos,
que dirão já boto o dente
com mofina escarnecente
depois de sorver aos goles
paios, queijos, rosa soles
má cousa, Senhor Tenente.