Preso está no Limoeiro

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Ao capitão Manuel Dias Figueyra prezo, e Retraido na moxinga por haver quebrado um camareyro na porta de certa personagem.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsEspada e Espadilha

 
1Preso está no Limoeiro
repicando uma corrente
certo Capitão valente,
por matar um camareiro:
e se o caso é verdadeiro,
e foi ele o matador,
pois o maior ao menor
usurpa, arrasta, e convence,
quem um camareiro vence,
será camareiro mor.
  
2Rompeu a testa a um cortiço,
que estava em certa calçada,
cuida ele, que não fez nada,
e à rua fez mau serviço;
porque tendo aviso disso
pelo favônio, que entrava,
a gente, que ali morava,
enfadada do vapor,
que exalava o servidor,
por mal servida se dava.
  
3Como os miolos saltaram
da cabeça, que ofenderam,
assim as novas correram,
té que à cadeia chegaram:
logo então se despacharam
os Morenos da corrente,
e o caso era tão recente,
que sem mais informação
prenderam ao Capitão,
porque cheirava a valente.
  
4Entre tanta cachaporra
veio à prisão, que o maltrata,
porque quem com ferro mata,
quer Deus, que com ferro morra:
e porque nada o socorra,
na moxinga o entupiram,
onde os mais dos presos viram,
que por serviço do Céu,
pois que o vidrado ofendeu,
vidrados o perseguiram.
  
5Lastimou-se o mundo disso,
pois quantos serviços fez
como homado Português.
perdeu por um mau serviço:
hoje que livre o toutiço
já penteia o pêlo louro,
ganhou (fora vá de agouro)
por indústria, e por santaca
uma Noiva de tambaca
com dote de prata, e ouro.
  
6Mas ficou em tão ruim fé
este sucesso infeliz,
que nenhum homem já diz,
servidor de Vossarcê:
item qualquer homem, que
publicar, que é servidor
do Fidalgo, e do Senhor,
há de vir, com maus feitiços
o Capitão dos serviços
a quebrar-lhe o servidor.