Qual dos dois?/VII

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Qual dos dois? por Machado de Assis
Capítulo VII


A doença de Marcos foi mortal; dois dias depois da visita de Amélia o bom velho faleceu, deixando saudades a todos quantos o conheciam.

Na vida de Daniel foi um vácuo. Não se costumara à idéia de que viria a perder o pai; era a única família que tinha, e provavelmente o único ente a quem estimava neste mundo.

Os amigos deram-lhe as consolações do costume; alguns discursos foram proferidos na ocasião de dar-se o cadáver à sepultura; mas discursos, nem consolações podiam distrair o moço da dor que acabava de sofrer.

Para os outros pais foi um fausto acontecimento; era o noivo rico que convinha prender de algum modo. Por isso foi grande a afluência de senhoras à missa do sétimo dia.

Lá estavam Madalena e Augusta.

Quando no fim da missa, começou a cerimônia dos pêsames, Daniel recebia-os maquinalmente e sem dar sinal de si. Não aconteceu o mesmo, quando Augusta se aproximou dele e murmurou algumas palavras de consolação; não contava que ela estivesse na igreja.

Todavia, nem o estado dele, nem o lugar eram próprios para maiores espantos. A moça seguiu a mãe, e Daniel ouviu as consolações do resto dos assistentes.

Valadares convidou Daniel para ir passar alguns dias em casa dele; apesar das recusas, tanto instou que Daniel cedeu, e para lá foi mesmo dali.

A morte do velho Marcos punha nas mãos de Daniel uma magnífica fortuna. Não contando com ela tão cedo, o rapaz não sabia em que empregá-la. A mulher de Valadares era da opinião que se casasse; Daniel abanou a cabeça; Valadares aconselhou-lhe uma viagem à Europa como coisa de maior proveito. Este conselho provocou entre o marido e a mulher uma pequena discussão que ia terminando por um ataque de nervos, desenlace seguro de muitas tragédias domésticas.

A idéia de viagem também não agradou a Daniel.

— Afinal, disse ele, a minha situação é a mesma, a diferença é que eu hoje administro aquilo que outrora fruía simplesmente.

— Por isso, digo eu, atalhou Amélia, como os trabalhos de administração são enfadonhos, procure uma companheira. Olhe, eu creio que tenho uma... que não se lhe dava de...

— Quem é? perguntou Daniel.

— A Augusta B...

Daniel franziu a testa. Acreditou que a solicitude da moça, indo à missa, era simplesmente um cálculo. Figurava-lhe um espírito altivo, e saía-lhe uma mulher interesseira. Acaso a mulher de Valadares adivinhou esta impressão de Daniel? O certo é que imediatamente acrescentou:

— Mas repare que isto é lembrança minha; ela não me disse coisa alguma. Creio que até não seria coisa fácil; porque me parece orgulhosa demais...

— Parece-lhe isso?

— Sim. No entanto, se quiser que eu lhe fale...

— Oh! não! não tenho vontade de me casar.

De casar, creio que Daniel não tinha vontade nenhuma, mas nem por isso a lembrança de Augusta deixava de preocupá-lo. Havia naquela moça um mistério que ele queria aprofundar. A ocasião era boa para aproximar-se dela. Já haviam decorrido vinte dias depois da missa fúnebre. Daniel resolveu ir visitar a família de Augusta para agradecer-lhe a presença no ato religioso, tanto mais de agradecer quanto não se ligavam por estreitos laços de amizade.

Só as duas senhoras estavam em casa, quando se anunciou a visita de Daniel.

Augusta desapareceu da sala pouco antes de entrar o rapaz, que apenas encontrou Madalena, com quem travou uma conversa de cerca de meia hora. Durante esse tempo todo, Augusta não apareceu na sala. O rapaz esperou ainda alguns minutos, mas vendo que não chegava, levantou-se para sair.

— Espero, disse Madalena, que não será esta a última vez que nos honre com a sua visita.

Daniel curvou a cabeça, agradecendo.

Depois apertou a mão de Madalena e dirigiu-se para a porta, justamente no momento em que Augusta entrava na sala.

Cumprimentaram-se friamente.

Daniel saiu.