Qual dos dois?/XVII

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Qual dos dois? por Machado de Assis
Capítulo XVII


O procedimento de Augusta era objeto da curiosidade de todos.

— Por que motivo esta moça recusa todos os pretendentes? diziam as mães de família; parece que não quer casar. Quererá ficar para tia?

O argumento era singular; devia ocorrer a todos que Augusta recusava os pretendentes justamente porque não gostava de nenhum.

Mas a reflexão das mães de família era que um casamento nunca se recusa, salvo circunstâncias especiais.

Madalena respeitava os escrúpulos da filha; queria vê-la feliz e entendia que o melhor meio era casá-la com quem lhe falasse ao coração.

Mas onde estava esse fênix, visto que nenhum até agora lhe agradara?

Augusta conservava-se na sua torre de marfim, pouco disposta a ceder às instâncias, nem de Luiz, nem de Daniel. Viu partir um e outro sem a menor emoção. Quem teria razão? Os que esperavam que chegasse a Augusta a hora do amor ou os que a julgavam uma simples estátua de mármore?

Tinham já corrido dois meses depois da partida de Daniel para Minas Gerais, quando Augusta encontrou Amélia na Rua da Quitanda, indo a primeira com a mãe ver umas fazendas, e vindo Amélia de um passeio com Valadares. Era raro que os dois andassem juntos; Valadares gracejara muito por essa circunstância, apenas encontrou as duas senhoras.

— Não repare, D. Madalena; o sol e a lua ao pé um do outro é sinal evidente de eclipse.

Depois de alguns minutos de conversa, Amélia seguiu com Madalena e a filha, ao passo que Valadares foi a outras ocupações. Amélia jantara com as amigas e voltara à noite para casa. Valadares escusou-se, dizendo que tinha um jantar diplomático. Com efeito, ao jantar a que ele assistiu, estiveram presentes alguns secretários e adidos de legação; mas o caráter do festim tinha mais de guerra que de diplomacia. Notas, se as havia, não eram de embaixada.

— Já sabe que a nossa partida está próxima? disse Madalena a Amélia, apenas chegaram à casa.

— Ah!

— Apenas se fecharem as câmaras, continuou Madalena, vou deixar o seu Rio de Janeiro.

Amélia olhou para Augusta com uma insistência que a moça não compreendeu.

— Vai deixar o meu Rio de Janeiro, disse Amélia depois de alguns instantes. Não gosta dele?

— Muito, decerto.

— É magnífico, disse Augusta; mas a nossa província...

— Amor de bairro, respondeu Amélia sorrindo.

— Será, será, mas não somos todos assim?

— Conforme. Às vezes, muda-se de sentimento, conforme os afetos que encontramos nos lugares novos.

— Isso não sei.

— Não achou cá alguma coisa?

— Coisa nenhuma.

Augusta disse isto com tanta frieza e firmeza, que Amélia não pôde reprimir um gesto de espanto.

— Pois olhe, disseram-me...

— O quê? perguntou Madalena.

Amélia hesitou alguns instantes.

— Estou gracejando, disse ela.

Mas daí a algum tempo, achando-se a sós com Augusta, disse-lhe:

— Disseram-me que estavas apaixonada pelo Daniel.

— Eu? Qual!

— Disseram-me... Juras que não é verdade?

— Juro.

— Então, toma cuidado!...

— Por quê?

— Porque podem dizê-lo e então...

— Que importa que o digam? disse Augusta.

— Perdão; importa muito. Se disserem, por exemplo, que fizeste presente de uma liga ao Daniel, como se fosse uma flor ou um botão de camisa...

— Dirão uma tolice.

— Mas se disserem que ele possui esse objeto?

— Que ele possui? Ora essa! Estás brincando, Amélia.

Amélia contou-lhe o episódio da casa de Daniel.