Quando Martha morrer, depois do extremo arranco

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(Quando Martha morrer, depois do extremo arranco)
por Guilherme de Azevedo
Poema publicado em A Alma Nova

Quando Martha morrer, depois do extremo arranco,
Não tratem d'orações;
Desprendam-lhe o cabello o vistam-a de branco
Á moda das visões.

Desejo vel-a então passar d'esta maneira
Depois de tal revêz,
Por entre a chama azul e tenue da poncheira
No fumo dos cafés.

Áquelle bom paiz das pallidas chymeras,
Monotonia azul;
Não temam que ella vá no fogo das espheras
Queimar o véu de tulle.

Assusta-a muito o frio, a chuva, o sol dos tropicos
A nuvem triste e vã,
E pódem-lhe prender os pés tão microscopicos
As nevoas da manhãa!

De noite ella virá com seus trajes singellos,
Archanjo d'outros ceus,
Nos suspiros febris dos meigos violoncellos
Dizer-nos mal de Deus.

Contar-nos por que foge á doce transparencia
Que o ceu formoso tem,
Meiga filha gentil da mesma decadencia
Que é nossa boa mãe.

Se as lagrimas de luz que chora o firmamento
Em noites de luar,
Ao seu pescoço nú podessem, n'um momento,
Cingir-se n'um collar;

De certo ella daria ao pallido comêta
E á estrella trivial,
A mesma adoração que dava á cançoneta
Que amou até final!

E á saida do circo, ao astro romanesco,
Á noite iria, então,
Contar, ainda a sorrir, o ardor funambulesco
Do livido truão!

Assim, não quer ouvir aos córos invisiveis
Um hymno d'enfadar,
Cantado por milhões d'archanjos insensiveis
Sem um que a possa amar!

E não lhe esquecem nunca os rapidos instantes
Do que ella amava mais:
—A vida illuminada á luz dos restaurantes
N'um sonho de cristaes!