Quinze mil-réis dantemão

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Indo certo frade a casa de huma meretriz lhe pedio esta quinze mil reis dantemão para tirar humas argollas, que tinha empenhadas.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia

Quinze mil-réis dantemão
Cota a pedir-me se atreve,
o diabo a mim me leve,
se ela val mais que um tostão:
que outra fêmea de canhão,
por seis tostões, que lhe dei
toda a noite a pespeguei,
e a quem faz tal peditório
Borrório.
  
Ora está galante o passo;
Menina, não me direis,
se vos deu quinze mil-réis,
quem vos tirou o cabaço?
fazeis de mim tão madraço,
que vos dê tanto dinheiro
por um triste parrameiro,
que está junto ao cagatório?
Borrório.
  
Quereis argolas tirar
Co'as moedas, que são minhas?
para tirar argolinhas
só lança vos posso dar;
vós pedis por pedinchar
sem vergonha, nem receio,
como se eu tivera cheio
de dinheiro um escritório:
Borrório.
  
Saís muito à vossa Mãe
nos costumes de pedir,
e eu em não contribuir
me pareço com meu Pai:
essa petição deixai;
quereis sustentar-vos só
vossa Mãe, e vossa Avó,
e todo o mais avolório?
Borrório.
  
Vindes a mui ruim mato,
Menina, fazer a lenha,
que outra fêmea mais gamenha
mo fazia mais barato:
buscai outro melhor pato;
quereis depenar, a quem
a penas segura tem
a ração do refeitório?
Borrório.
  
Quereis, que o Prelado astuto
me tome conta da esmola,
e que a bom livrar dê a sola?
que tal faça! fideputo:
eu não sou amba macuto,
nem sou tampouco matreiro,
que vós comais o dinheiro,
e eu fique de gorgotório?
Borrório.
  
Vós quereis sem mais nem mais,
que no sermão de repente
eu faça chorar a gente,
para que vós vos riais?
tão ruim alma me julgais,
que para as vossas cobiças
tome capelas de missas,
e que chore o Purgatório?
Borrório.
  
Ora enfim vós a pedir,
e eu Cota a vo-lo negar,
ou vós havei de cansar,
ou eu me hei de sacudir:
com que venho a inferir
destas vossas petições,
que heis de pedir-me os culhões,
a parvoíce, e zimbório
Borrório.