Rapto original/I

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Namoravam-se a valer, de uns mezes atraz; a visinhança sabia de tudo, acompanhava curiosa, accesa, as peripecias do derriço e tomava bons regabofes.

Ella, muito nevrotica, atirada a romantismos, exaltada, amiga de leituras violentas, fin de siécle, tocando piano de modo quasi notavel e gostando de despertar, alta noute, o bairro com a valentia dos accordes que deferia, nem bonita, nem feia, com esse viço da primeira mocidade que os italianos espirituosamente appelidam la beltá dell’ásino, vivendo uma atmosphera de perfumes entontencedores, exoticos, acre, a soffrer, quasi todos os dias, de enxaquecas, que a levavam a abusar da antypirina e lhe davam desejos ardentes de se morphinisar, para cahir em longos torpôres e fruir sonhos paradisiacos.

Filha única de antigo negociante, retirado rico do commercio, o commendador Jacintho Candelaria fazia as suas quatro mil vontades, creada, como fôra, sem mãe, e no meio de numerosas mucamas, que beliscava forte, nos dias de máo humor e mais nervosismo. Num só ponto, comtudo, e ponto capital, desenvolvia o pae todas as energias de portuguez teimoso e embezerrado. Significára á filha, desde em menina, e incessantemente lh’o repetia, que só elle é que havia de casal-a .Tivesse paciencia e sobretudo confiança, pois lhe daria para noivo, não nenhum velho ou qualquer figura estapafurdia, porém sim rapaz novo, sacudido, de boa presença, latagão de peso e medida, mas que offerecesse, depois de cuidadosas provas, garantias seguras para tornal-a feliz no correr da existencia.

Tambem soubéra o zelo paterno arredar já não poucos pintalegretes – uma sucia de bilontras! Berrava possesso o commendador, - alguns patricios até, que lhe rondavam a casa, ou melho, palacete das Laranjeiras, atthraidos pelos dótes da rapariga, entre os quaes sobresahia, mais que os seus olhos e apimentado donaire ou o talento do piano, o dote ante-nupcial, de que diziam maravilhas.

— De duzentos contos para cima, era voz geral, e logo de pancada, antes de se agadanhar, por morte do velho, cobre muito grosso.

Estava, pois, a moça, entre dores de cabeça, nocturnos ao piano, bocejos e manifestações hystericas, cada vez mais accentuadas, esperando o pretendente patent, garantido pelo governo paternal, quando ferrou n’esse namoro muito cerrado e sério – pois os pequenos á janella não contavam – com o Arnaldo Gracias.

Gracias ou Garcia? Não, senhores, Gracias, no plural – d’isso fazia questão – elle, proprietario único do nome. Zangava-se devéras, ou fingia zangar-se, ao lhe não transporem, principalmente, o tal r caracteristico, que a todos causava tamanha estranheza.

Bohemio aliás, até a medulla dos ossos.

Dotado de muito chiste natural, talentoso, com estupendo poder de assimilação, sabendo tudo, e no fundo ignorante chapado, verboso, e mais que isso eloquente, com uma phrase viva, faiscante, imaginosa, colorida, entresachada de tropos, verdadeiro fogo de artificio, em que, se havia muita fumaceira, fuzilavam, por vezes, alguns clarões.

Tinha a mania de inventar palavras, locuções; e algumas entravam logo em circulação. Fôra quem puzera em giro o estrambotico de quando em vez, tão em moda por algum tempo no Rio de Janeiro.

— Não me banalisem o nome, costumava gritar nos cafés, batendo com a bengalinha de junco no marmore das mesas, Gracias... Gracias; com mil milhões de diabos! Não sou qualquer Garcia da venda ou da botica. Descendo de guerreiros hespanhóes que costearam de rijo os mouros, os infieis. Attendam bem, tenho que zelar tradições, cousas até de religião.

E nas rodas de estudantes, que applaudiam e chasqueavam, lá vinham vibrantes narrações das batalhas com a mourama, em que se haviam illustrado os primitivos Gracias.

E tanto era o fogo que a tudo punha, como se assistira ás tremendas pelejas, pelo que, não raro, palmas rompiam, sinceras, espontaneas.

A todo o instante, contava historias do arco da velha, sua vida em Pariz, seus triumphos no Quartier latin. Fôra até amigo de Theophile Gautier, a eterna creança, o poeta genial, o estylista impeccavel, e, com effeito, parecia haver tomado ao mestre e companheiro de troças algumas scentelhas do maravilhoso poder descriptivo.

Carioca da gemma, e votando certa orgeriza á gente nortista – “são trefegos, invejosos, proclamava sem apellação possivel – tinha como obrigatorio o odio ao burguez em geral.

— Miseraveis! Exclamava com indignação repassada de desprezo; corriqueiraram-me o sublime Shakespeare! Babujaram-me de ignobil baba o immenso Dante! Canalhas! Entrego-lhes o Inferno e o Purgatorio, já que não há ,aos defesa possivel; mas, com mil bombardas e pelas cinzas dos meus avós, o Paraiso é meu. Hei de zelar-lhe a alvinitente pureza, custe o que custar, até a morte. Não consinto que n’elle toquem!...

E olhava para todos com ares de quem acabara de receber a sagrada herança por testamento do immenso Dante, com recommendações expressas acerca d’essa parte da Divina Comedia.

Lêra elle jámais esse Paraiso, por que quebrava tantas lanças, o Purgatorio ou simplesmente o Inferno? Nunca se soube.

Buscando abrigo, em refugios extremos do gosto e da originalidade, ainda não conspurcados pelo torpe vulgo, entranhara-se, como um perseguido pelas literaturas do Norte e citava com pasmosa profusão os nomes mais arrevesados, apregoando, dos primeiros nos circulos da rua do Ouvidor, Dostoiewsky, Pissensky, Arne Garborg, Ibsen, Bjoenstierne, Bjoernson, Ostrowsky, Hastzembusch, Ocienxdloeger e outros de igual calibre.

Alto, magro, muito claro, com o olhar meio empanado sobre palpebras empapuçadas, cabellos em continuo desalinho, barba espetada perpendicularmente ao queixo, distinguia-se, mais que tudo, por pés e mãos enormes. Calçava Clark 43 e luvas, letra... não; luvas era superfluidade de que nunca usara. Em compensação, movia essas mãos em gestos continuos, ora largos, calmos e generosos, ora freneticos, raivosos, ameaçadores, de quem ia derrear meio mundo, com pancada de moer ossos.

Vivia ao Deus dará, sempre em vesperas de estrondosa collocação, já n’alguma das secretarias de Estado, onde distribuiria o santo e a senha, introduzindo reformas estupendas de mais apurado cunho literario na feitura das peças officiaes, já a frente de uma publicação periodica que havia impreterivelmente de desbancar a

Revista dos Dous Mundos – nada menos.

— Vocês verão, annunciava exaltado, convicto, como ponho de pernas para o ar o tal Buloz e toda a sua igrejinha carrança, pedantesca e jesuitica. Será o protesto do mundo pensante contra aquella ridicula camarinha, que pretende avassalar o intelecto universal;. Preparem-se para estourar de tanta gargalhada!

Por em quanto, porém, nem emprego de secretaria, nem revista. Passava os dias a pedir emprestadas a amigos e conhecidos umas miseraveis quantias, que considerava favor ir embolsando; hospede dias, semanas ou mezes seguidos, aqui, acolá; excellente rapaz no fundo, divertido, serviçal e meigo, em meio de todas as bravatas e objurgações.

Sempre prompto para a pandega. Lá isso, contassem com elle; era dos fieis, dos inabalaveis. Com a bréca, até em patuscadas há deveres a cumprir. Demais, a vida foi feita para desobrigar-se com honra e pontualidade dos compromissos tomados; curta e boa – a sua divisa.

E desfiava umas 8 a 10 horas inteirinhas do dia na rua do Ouvidor que, percorria do largo de S. Francisco á ria Primeiro de Março quinze ou vinte vezes, ora ás carreiras como homem atarefadissimo e que não podia perder um minuto. Ora parando em cada botequim e n’elle chuchurreando café, licores, cognac, leite, sorvetes, sem absynthosinho não raro, e quantos liquidos, innocentes ou não, todos de bom grado lhe offereciam.Pagava tudo com o seu verbo inflammado, multiforme, incansavel, já contando anecdotas picarescas, engraçadissimas, já vociferando, sempre em opposição violenta contra os homens do poder; hoje nihilista, communista, anarchista, amanhã autocratico, déspota feroz na desapiedada repressão e no illimitado rigorismo, tudo com inabalável convicção e grandes luzes de argumentos.

Á noite, theatros, onde achava sempre meios de encaixar-se, sem jámais se entender com o bilheiteiro. E, nos entreactos, eram interminaveis catilinarias á proposito da decadencia da arte dramatica e dos costumes publicos, adubada a prelecção com olhares de indignação manospreço ás petulantes francezas e raparigas que poralli se exibiam espivitadas, provocadoras. Occasiões, porém, havia em que com ellas confabulava graciosamente.

— Boas creaturas em summa, estas michélas e marafonas, dizia com um sorriso bonacho, o que nãp impedia de declarar-se discipulo intransigente de Shopenhauer e de prégar inflexivel cruzada contra o eterno feminino, a perdição do homem , o seu instrumento de degradação e insanavel vaillania.

— Tirem-me a mulher do mundo, urrava já muito escaldado com os bocks de cerveja e copinhos de cognac fine champagne, e faço de todos os homens deuses, estes supernaturaes!

Davam-se épocas, entretanto, em que, de viseira alçada, com muita nobreza, relembrando o cavalheirismo castelhano, se batia em rpol do sexo fraco, victima e martyr da prepotencia do forte, secularmente tyrannico e maldoso, brutal e egoista. Nessa quadra de reivindicação, exigia. Em nome da justiça ultrajada, que a natureza repartisse com igualdade os gravames da reproducção da especie.

Bradava então imperioso:

— Uma vez a esposa, outra o marido. Os taes senhores que experimentem o que é bom. Quero ve-los gravidos!

E com toda a seriedade chegava a affirmar e prometter, que elle, Arnaldo Gracias, á fé de gardingo e descendente de fidalgos wisigodos, de uma só palavra, de antes quebrar que torcer, havia afinal de pôr cobro a tamanha iniquidade.

Boas surriadas e espirituosos dichotes ia promovendo com tudo isso.

Morava não se sabia bem onde, alcandorado em qualquer pouso mais á mão, quasi sempre republicas abarrotadas de estudantes, onde discutia sciencias, artes, literatura, e lá se deixava ficar mais ou menos tempo, conforme o capricho, não se lhe dando absolutamente com a amabilidade ou os máos modos d’aquelles a quem dispensava a honra da sua convivencia.

É que estabelecia logo incommodativo communismo, e a applicação d’esse systema devéras modificava o prozaer de interminaveis e acaloradas palestras, em que gastava tanto fluido vital. Com toda e sem cerimonia, tomava a roupa dos outros, vestindo camisas alheias, quer já servidas , e enfiando-se sem o menor escrupulo nas calças e nos paletots, que encontrásse mais de geito.

E por cima, se o apertavam mais sériamente apuros de dinheiro, não punha duvida alguma em passar a mão nos livros dos que o hospedavam, levando velhas grammaticas, compendios de mathematicas elementares, selectas latinas, ou até obras de preço, que truncava sem o mais leve emba5raço de consciencia, e ia vender a esses modestos belchiores, chrismados com a alcunha bem feia de ... cagacebos.

Costumava, entretanto, que incoherencia! Esbravejar com sincero furor contra essa timida classe, tão util aos seus habitos, e propunha uma Saint Barthélemy implacavel, que extinguisse de vez a abominada raça.

— Há de chegar o dia, olé, se há de! Annunciava ameaçador. Tenho de olho uns cinco ou seis... Já os avisei... Esses ficam por minha conta... gallegos todos – uma bella bainha de toucinho para a adága dos meus avós!

No fundo, incapaz de matar um caçapo.