Rapto original/IV

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Foi a triste e mesquinha heroina accordada em sobresalto por enorme barulho. De todos os lados inundava o quarto sol alegre, triumphante; deviam ser 8 horas da manhã.

Batiam á porta com desabalada violencia, iam arrombal-a .

Gracias nem se mexeu.

Julia Candelaria fez um esforço e, arrastando-se deu volta á chave.

Atiraram-se sofregos para dentro em bolo o commendador, o delegado de policia, soldados e curiosos. Fructificara a palestra de vespera do indiscreto automedonte, pondo a auctoridade na pista immediata e certa dos fugidinhos.

Dominando a immensa conturbação, viu a moça afinal a salvação. Agarrou-se ao pae que, em vão, buscou repelil-a .

— Juro, exclamou ella bem alto e com accento de irrecusavel verdade, que passei a noite toda naquella cadeira de braços. Não me acabrunhe mais com a sua justa colera, meu pae... meu bom pae... minha protecção única nesta terra de miserias. Tenha pena de mim, da sua filha tão infeliz! Fui... muito, muito culpada... mas salvei-me...

E com tudo isso Gracias nem se mexia.

Afinal sacudiu-o umas tres ou quatro vezes o delegado com energia por um braço, e o homem... despertou.

— Bom, disse elle com relativa calma, esbogalhando quante poude os estremunhados olhos, temos agora historias com o senhora policia... era infallivel!

E, sentando-se na cama, pegou com as mãos os pés em attitude de quem estava disposto a encetar conversa familiar e entrar em accordo amigavel.

Fossem razoaveis, era só o que pedia.

Não mostrava maior abalo.

— Aliás, continuou já um tanto altivo, acatei esta donzella como se fôra minha irmã. Ella que o diga... Sei portar-me como cavalheiro. Raptei-a, para que o commendador, aqui presente e que me merece estima e consideração, consentisse na eterna união de dous corações leaes, que se estremecem loucamente e anceiam um pelo outro!...

Julia soluçava como uma perdida.

— Que vergonha! Que vergonha!... Como é que se não morre nestes casos?

Candelaria mostrava-se muito abatido.

— Devéras, minha... filha? poude elle a custo perguntar.

Teve a moça uma arrancada de desespero e indignação.

— Casar-me com esse homem bradou estancando de subito o angustioso chorar, antes a morte, mil vezes antes, na forca, diante do mundo inteiro!

E, numa explosão de bem sincera dôr, implorou humilde e meiga:

— Tenha dó, meu pae, da sua desgraçada filha... Leve-me d’aqui já e já... Soffro como jámais pude imaginar sofrer!... Nada lhe occultarei!... Nunca mais lhe hei de desobedecer, mas vamo nos embora... perdão, perdão.

Quinze dias depois, e muito á capucha, effetuou-se o casamento de Julia Candelaria, com o desempenado rapagão que o commendador tinha desde muito de olho, conforme avisára a filha.

Partiram os ditosos noivos sem demora para a Europa, e, de certo, não acharam motivo algum de estranhza e queixa um em relação ao outro. Fôra, ainda mais, o dote duplicado, acima de toda a expectação...

Quanto a Arnaldo Gracias, continuou na sua existencia desorientada e solta, cada vez mais bohemia e mais satisfeito comsigo mesmo.

Toda uma epopéa aquelle momento phsychico da turbulenta vida!

Pudéra, qual outro archanjo S. Raphael conculcando aos pés o truculento Belzebuth, subjulgar victorioso a animalidade feroz e bramante, amordaçar a turgidez da desencadeada luxuria, agrilhoar pela inacreditavel possança do idealismo as tremendas e leoninas investidas da materia, e arcar, braço a braço, peito contra peito, em esforço titanico, com os impetos vorazes da volupia, tudo para quedar-se immovel de joelhos, em extasi de mystica homenagem, puro, continenti, sem pécha, na mais adoravel e santa vigilia de amor e de respeito, ante o symbolo da paixão etherea, seraphica, lyrio virginal, a fl ôr sublime, que sahira de tão extraordinaria prova immaculada, impolluta, intemerata, adamantina, realçado o brilho offuscador da incomparavel confiança, candidez e castidade!

E com todos esses elementos da mais inspiradora subjectividade, em menos de meia hora e entre dous calices de cognac, compôz, sublimando a virtude propria e o seu heroismo, esplendido soneto nuns sonóros alexandrinos, muito citados depois, e que, nos gremios litterarios da mocidade, provocavam sempre applausos de fremente enthusiasmo e enternecida admiração.