Saudades (Álvares de Azevedo)

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Saudades
por Álvares de Azevedo
Poema agrupado posteriormente e publicado em Lira dos Vinte Anos. Ortografia e fixação de texto tal como em Obras de Manoel Antonio Alvares de Azevedo (1862).


’Tis vain to struggle — let me perish young!

Byron.

 
Foi por ti que n’um sonho de ventura
A flôr da mocidade consumi,
E ás primaveras disse adeus tão cedo
E na idade do amor envelheci!

Vinte annos! derramei-os gota a gota
N’um abismo de dor e esquecimento...
De fogosas visões nutri meu peito...
Vinte annos!... não vivi um só momento!

Comtudo, no passado uma esperança
Tanto amor e ventura promettia...
E uma virgem tão doce, tão divina
Nos sonhos junto a mim adormecia!...

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Quando eu lia com ella — e no romance
Suspirava melhor ardente nota,
E Jocelyn sonhava com Laurence
Ou Werther se morria por Carlota,

Eu sentia a tremer, a transluzir-lhe
Nos olhos negros a alma innocentinha,
E uma furtiva lagrima rolando
Da face della humedecer a minha!

E quantas vezes o luar tardio
Não viu nossos amores innocentes?
Não embalou-se da morena virgem
No suspirar, nos canticos ardentes?

E quantas vezes não dormi sonhando
Eterno amor, eternas as venturas,
E que o céu ia abrir-se, e entre os anjos
Eu ia me acordar em noites puras?

Foi esse o amor primeiro — requeimou-me
As arterias febris de juventude,
Acordou-me dos sonhos da existencia
Na harmonia primeira do alaúde!

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Meu Deus! e quantas eu amei!... Comtudo
Das noites voluptuosas da existencia
Só restão-me saudades dessas horas
Que illuminou tua alma d’innocencia!

Foram trez noites só... três noites bellas
De lua e de verão, no val saudoso...
Que eu pensava existir... sentindo o peito
Sobre teu coração morrer de gozo!
 
E por trez noites padeci trez annos,
Na vida cheia de saudade infinda...
Trez annos de esperança e de martyrio...
Trez annos de soffrer — e espero ainda!
 
A ti se erguêrão meus doridos versos,
Reflexos sem calor de um sol intenso:
Votei-os á imagem dos amores
P’ra velal-a nos sonhos como incenso!

Eu sonhei tanto amor, tantas venturas,
Tantas noites de febre e d’esperança!
Mas hoje o coração desbota, esfria,
E do meu peito no tumulo descansa!

Pallida sombra dos amores santos!
Passa, quando eu morrer, no meu jazigo,
Ajoelha ao luar e canta um pouco,
E lá na morte eu sonharei comtigo!


12 de septembro, 1851

Comentário de Domingos Jaci Monteiro[editar]

Esta poesia foi feita em dia dos annos do autor, no anno antecedente ao da sua morte, como se póde vêr pela data.