Senhor: se quem vem, não tarda

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Empenha o poeta para conseguir esta mercé ao capitão da guarda Luiz Ferreyra de Noronha seu particular criado.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsHomens de Bem

1Senhor: se quem vem, não tarda,
vim eu em boa ocasião,
pois da Guarda o capitão
é Anjo da minha guarda:
vossa presença galharda,
vossa dócil natureza
bem mostram, que sois na empresa
da minha fortuna imensa
capitão pela defensa
Anjo pela gentileza.

2Obrigado a tão bom trato,
que em mim é lance infalível,
o desempenho impossível
temo, que me faça ingrato:
mas como já me precato
de tão previsto desar,
que eu não basto a desviar,
sirva de escusa, ou perdão,
que não falta à gratidão,
quem se peja de faltar.

3Na Corte em era oportuna
vistes a minha abastança,
hoje vereis a mudança
da minha infausta fortuna:
de estrela tão importuna
dera uma justa querela,
porque hajais de corrige-la:
mas no mundo é já patente,
que como sábio, e prudente
dominastes minha estrela.

4Mudei-me de ponto a ponto
de Portugal ao Brasil,
lá deixo infortúnios mil,
acho cá ditas sem conto:
co’as ditas é, que de ponto
a desgraça lá passada,
e a graça considerada
está em vós, meu capitão,
que a dita está na eleição
da sombra, a que está chegada.