Senhora/Posse/III

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Senhora por José de Alencar
Posse — Capítulo III


Frutas da estação: abacaxis, figos e laranjas seletas, rivalizando com as maçãs, peras e uvas de importação, ornavam principalmente a refeição meridiana que os costumes estrangeiros substituíram à nossa brasileira merenda da tarde, usada pelos bons avós.

Havia também profusão de massas ligeiras, como empadinhas, camarões e ostras recheadas; além de queijos de vários países e doces de calda ou cristalizados. Os melhores vinhos de sobremesa desde o Xerez até o Moscatel de Setúbal, desde o Champanhe até o Constança, estavam ali tentando o paladar, uns com seu rótulo eloqüente, outros com o topázio que brilhava através das facetas do cristal lapidado.

— Não tenho a menor disposição! disse Fernando obedecendo ao gesto de Aurélia e sentando-se à mesa.

— Ora! disse a moça com volubilidade. Para provar frutas e doces não é preciso ter fome; faça como os passarinhos. O que prefere? Um figo, uma pêra, ou o abacaxi?

— É preciso que eu tome alguma cousa? perguntou Fernando com seriedade.

— É indipensável.

— Nesse caso tomarei um figo.

— Aqui tem; um figo e uma pêra; é apenas um casal.

Seixas inclinou a cabeça; colocou o prato diante de si, e comeu as duas frutas, pausada e friamente, como um homem que exerce uma ação mecânica. Nada em sua fisionomia revelava a sensação agradável do paladar.

Aurélia que esmagava entre os lábios purpurinos bagos de uva moscatel, seguia com os olhos os movimentos automáticos de Fernando, e se não adivinhava, confusamente pressentia o motivo que atuava sobre seu marido.

Ergueu-se então da mesa, e saindo fora, à beirada da casa, onde já fazia sombra, divertiu-se em dar de comer aos canários e sabiás, que festejaram sua chegada com uma brilhante abertura de trinados e gorjeios.

Pensava Aurélia que sua presença porventura acanhava ao marido; e buscava aquele pretexto para arredar-se um instante e deixá-lo mais livre de cerimônias. Desvaneceu-se porém essa idéia do seu espírito, quando espiando pela fresta da janela, viu Seixas imóvel, com os olhos fitos na parede fronteira, e completamente absorto.

Depois do lanche, Aurélia convidou o marido para darem uma volta pelo jardim; mas havia senhoras nas janelas da vizinhança, e a moça não quis expor-se aos olhares curiosos. Ela não era a noiva feliz e amada; mas as outras a supunham, e tanto bastava para que seu pudor a recatasse às vistas dos estranhos.

Voltaram pois à saleta.

Aí andaram a borboletear de um a outro assunto, mas apesar do desejo que tinham, de prolongar a conversação, ou talvez por essa mesma preocupação que os distraía, não encontraram tema para divagar.

Afinal recaíram nas fotografias. Desta vez foi o álbum dos conhecidos que forneceu matéria. Em um dos primeiros cartões figurava o Lemos, cuja aparição coincidiu com esta observação de Aurélia:

— O álbum das pessoas de minha amizade, eu o guardo comigo. Estes são álbuns de sala, tabuletas semelhantes às que têm os fotógrafos na porta.

— Mas não apresentam de certo as antíteses curiosas das tabuletas. Os tais senhores parece que o fazem de propósito; não há mais perfeita democracia.

Seixas, emérito conhecedor da Rua do Ouvidor, começou a especificar alguns dos contrastes de que se recordava; abstemo-nos porém de reproduzir suas observações, que ressentiam-se de singular mordacidade.

Esse tom cáustico não era natural ao mancebo, cuja índole benévola e afável nunca passava de uns toques de fria ironia. Ele próprio já notara em si essa alteração de seu caráter, e achava um sainete especial em saturar-se do fel que tinha no coração.

Ao cabo de algum tempo notou Fernando que Aurélia erguia freqüentemente os olhos para a pêndula, e disfarçou, porque ele também interrogava a miúdo e furtivamente o mostrador, ansioso de ver escoar-se o dia.

Uma vez os olhos de ambos encontraram-se, quando buscavam a pêndula. Aurélia corou de leve:

— Cuidei que fosse mais cedo! disse ela.

— Como passa rapidamente o tempo! exclamou Fernando. Quase três horas.

— Ainda falta muito. São apenas duas e um quarto.

— Ah! É verdade.

— Talvez esteja atrasado! observou Aurélia. Consulte seu relógio.

Havia uma diferença de minuto e meio entre o relógio de Seixas e a pêndula da sala. Foi o pretexto para consumir o resto do tempo. Aurélia quis acertar a pêndula; aproveitou a ocasião para dar-lhe corda; depois do que veio uma discussão cerca da conveniência de mudá-la para outro consolo.

— Já três horas! exclamou afinal a moça. É tempo de vestir-nos para o jantar. Até logo!

Aurélia fez um gracioso aceno de fronte ao marido e desapareceu pela porta, que dava para o seu toucador.

Quando ela entrou nesse aposento e fechou a porta sobre si, não teve tempo de desatacar o corpinho do vestido; meteu as mãos pelos ilhoses e magoando os dedos mimosos nos colchetes, despedaçou a ourela para não sufocar. O coração que ela recalcara por tanto tempo sublevava-se afinal, e estalava nos soluços que lhe dilaceravam o seio.

De seu lado Fernando, ao ficar só, respirava, como um homem que repousa de uma tarefa laboriosa e fatigante. Ele desejaria sair daquele teto, perder de vista a casa, ir bem longe daí para gozar desses momentos de solidão e recuperar durante uma hora sua liberdade. Mas um passeio, e ainda mais solitário, não era conveniente no dia seguinte ao de um casamento de amor.

O criado pediu licença para entrar.

— O senhor não precisa de mim?

— Não, obrigado. A que horas janta-se?

— Às cinco, se o senhor não der outra ordem.

— Bem.

— O senhor sai a passeio depois de jantar? De carro ou a cavalo?

— Não.

— Sei que não é próprio logo nos primeiros dias do casamento, mas foram as ordens que recebi; que nada faltasse ao senhor.

— Quem as deu?

— A senhora.

Este cuidado que em outra circunstância lhe causaria íntimo prazer, em sua posição humilhava-o. Sentia a influência da tutela que pesava sobre ele, e o reduzia à condição de um pupilo nupcial, se não cousa pior. Mas estava resignado às duras provações da situação, a que seu erro o submetera.

Ainda nessa ocasião, Seixas revelou uma nova alteração em sua índole, ou pelo menos em seus hábitos.

Ele tinha essa flor da ingênua elegância, que não se alimenta da vaidade de ser admirada, mas da satisfação íntima. Vestir-se era para ele outrora um prazer; o contato de um novo trajo causava-lhe uma sensação deliciosa, como a de um banho frio em hora de calma.

Nesse dia, porém, quando os guarda-roupas e cômodas regurgitavam, limitou-se ele apenas a reparar algum leve desarranjo; e dar ao trajo da manhã uma feição de novidade pela mudança de uma gravata. Quando entrou na saleta de conversa, já ali estava D. Firmina, e Aurélia não se demorou.

A moça trajava de verde. Ela tinha dessas audácias só permitidas às mulheres realmente belas, de afrontar a monotonia de uma cor. Seu lindo rosto, o colo harmonioso e os braços torneados, desabrochavam dessa folhagem de seda, como lírios d’água levemente rosados pelos rubores da manhã.

Quando a porta abriu-se para dar-lhe passagem, Seixas cuidou que assistia à metamorfose da ninfa transformada em loto. Mas logo depois admirando a graça que se desprendia dessa peregrina gentileza como a irradiação de um astro, pareceu-lhe antes que a flor tomava as formas da mulher e animava-se ao sopro divino.

D. Firmina trouxera da rua muitas novidades.

Recomendações de umas amigas de Aurélia; mil inquirições de outras acerca do casamento; elogios dos noivos; e toda a outra bagagem de agradáveis banalidades, que na máxima parte compõem a vida nas grandes cidades.

Com esta provisão encarregou-se ela de preencher a meia hora que faltava para o jantar.

— É voz geral, que não se podia escolher um par mais perfeito, disse a viúva a modo de resumo.

— Já vê que nos casamos por unânime aclamação dos povos, observou Aurélia sorrindo-se para o marido. Nada nos falta para sermos felizes.

— Mais do que eu sou, não é possível, tornou Seixas.

— Esta primazia me pertence, e não lhe cederei!

D. Firmina aplaudiu essa contestação que revelava os extremos de amor dos noivos um pelo outro.

O jantar correu como o almoço. Aurélia, isenta do enleio, ou antes opressão, que a tolhia quando se achava só com o marido, recobrava na presença de D. Firmina e dos criados a sua feiticeira volubilidade, na qual um observador calmo notaria certa irritabilidade nervosa, habilmente encoberta com a galanteria do gesto e a graça do sorriso.

Seixas não se demoveu da sobriedade que havia guardado pela manhã, senão para aceder aos desejos da mulher, a qual por mais de uma vez exerceu essa tirania feminina, que à semelhança de certas realezas, compraz-se com as minúcias.

Ao levantarem-se da mesa, Fernando dirigiu-se à porta do jardim, e esperava divagando os olhos pelo arvoredo, que dessem destino ao resto da tarde. Aurélia aproximou-se enquanto D. Firmina estava ocupada em arranjar a cauda de seu vestido nesgado, moda a que ainda se não pudera habituar.

— Que bela tarde! exclamou a moça ao lado do marido.

Logo sombreando a voz disse-lhe quase ao ouvido, com tom rápido e incisivo:

— Ofereça-me o braço!

Depois prolongando a exclamação, continuou mostrando no horizonte uns arrebóis encantadores, em que os mais finos matizes se cambiavam sobre a nívea polpa de um grande cirro que de repente incendiou-se como um rosicler de fogo.

— Veja; até o céu está festejando a nossa ventura. Quem já teve desses fogos de artifícios, que o sol preparou para obsequiar-nos?

— É pena que não possamos... que eu não possa gozar da festa mais de perto, para melhor apreciá-la.

Aurélia voltou-se rapidamente para fitar no semblante do marido um frio olhar de interrogação; mas Fernando contemplava as gradações da luz no ocaso, e só voltou-se para oferecer o braço à mulher, conforme a recomendação que recebera.

Fê-lo porém, mais com o gesto, pois as palavras apenas murmuradas, mal se ouviram.

— Acenda seu charuto, disse a moça vendo que ele esquecia-se desse pormenor, apesar de lhe ter o criado oferecido fogo.

Aurélia conduziu o marido a um caramanchão que havia no meio da chácara, e cuja espessa ramada os escondia às vistas de D. Fimina, e do jardineiro e hortelão que andavam na lida costumada.

Seixas tinha umas tinturas de orquídeas e parasitas que havia colhido um verão em Petrópolis, no tempo em que a cultura e o estudo desses dois gêneros de plantas esteve na moda, e para alguns degenerou em mania. Como um dos leões fluminenses, estava ele na obrigação de sujeitar-se a esse novo capricho da soberana; e cumpria-lhe habilitar-se para em uma reunião nomear por sua designação científica a flor da moda que ornava uma gruta de jardim ou um vaso de sala.

Justamente embaixo do caramanchão havia uma bela coleção de orquídeas, que o jardineiro ali guardava do sol. Fernando aproveitou-se do tema, para fazer mostra dos seus conhecimentos botânicos.

Aurélia ouviu-o com atenção; só quando o marido parecia ter esgotado o assunto, foi que ela encartou uma reflexão.

— Como todo o mundo, eu sempre fui muito apaixonada de flores; mas houve um tempo em que não as pude suportar. Foi quando se lembraram de ensinar-me botânica.

— Quer isto dizer que tive a infelicidade de aborrecê-la com a minha conversa?

— Eis o que é a prevenção! Conseguiu reconciliar-me com a botânica. Não há melhor calmante.

Já estava escuro quando Aurélia se recolheu do jardim pelo braço do marido. D. Firmina os esperava da saleta já esclarecida com um doce crepúsculo artificial coado pelo cristal fosco dos globos.

A viúva sentara-se à mesa do centro para devorar os folhetins dos jornais; e teve a discrição de voltar as costas para o sofá onde se tinham acomodado os noivos.

Aurélia, fatigada da comédia que representara durante o dia, recostara-se à almofada, e cerrando as pálpebras engolfou-se em seus pensamentos. Fernando respeitou essa meditação: tanto mais quanto seu espírito cedia também a uma irresistível preocupação.

A noite causara-lhe um indefinível desassossego, que mais crescia agora com a aproximação da hora de recolher. Não sabia de que se receava; era uma cousa vaga, informe, ignota, que o enchia de pavor.

Assim, cada um em seu canto de sofá, separados ainda mais pela completa alheação do que pelo espaço que entre ambos medeava, ela absorta, ele agitado, passaram esse primeiro serão de sua vida conjugal.

D. Firmina, às vezes, nalgum ponto menos interessante do folhetim, aplicava o ouvido; e aquele silêncio suspeito a fazia sorrir pensando nos abraços e beijos furtivos que surpreenderia, se de repente se voltasse para o sofá.

Com discreta malícia, a pretexto de procurar o lenço fazia menção de voltar-se para gozar do prazer de assustar os dois pombinhos. Então percebia um leve rumor; cuidando que eles se afastavam, quando ao contrário fingiam ocupar-se um do outro, para não traírem sua mútua indiferença.

Pelo meio da noite Aurélia saiu da sala. Depois de uma pequena ausência durante a qual ouviu-se dentro algum rumor, ela voltou a ocupar seu lugar no canto do sofá.

Afinal a pêndula marcou dez horas. D. Firmina dobrou seus jornais e despediu-se.

Aurélia acompanhou-a lentamente como para certificar-se de que se afastava; depois do que cerrou a porta, deu duas voltas pela sala, e caminhou para o marido.

Seixas viu-a aproximar-se assombrado pela estranha expressão que animava o rosto da moça.

Era um sarcasmo cruel e lascivo o que transluzia com fulgor satânico da fisionomia e gesto dessa mulher.

Só faltava-lhe a coroa de pâmpanos sobre as tranças esparsas, e o tirso na destra.

Em face do marido porém essa febre aplacou-se como por encanto; e surgiu outra vez do corpo da bacante em delírio a virgem casta e melindrosa.

Aurélia tinha na mão dois objetos semelhantes, envoltos um em papel branco, outro em papel de cor. Ofereceu o primeiro a Seixas; mas retraiu-se substituindo aquele pelo outro.

— Esta é minha, disse guardando o invólucro de papel branco.

Enquanto Seixas olhava o objeto que recebera, sem compreender o que isto significava, Aurélia fez-lhe com a cabeça uma saudação:

— Boa noite.

E retirou-se.