Senhora/Quitação/VII

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Senhora por José de Alencar
Quitação — Capítulo VII


Um dia, por manhã, bateram à porta de D. Emília.

Quando a viúva e a filha vieram à sala, acharam sentado no sofá um velho alto e robusto, cujo traje denotava provinciano ou homem do interior. Tinha o rosto sangüíneo e os traços duros e salientes.

Cravou ele o olhar pesado no semblante de Aurélia, sem erguer-se à chegada das senhoras. Depois de ter assim examinado a menina, com insistência desusada, volveu a vista para a viúva; reparou no vestido preto desbotado que ela trazia por casa, e tornou a descarregar os olhos torvos sobre a moça.

D. Emília, assustada com estes modos, trocou um sinal de inteligência com a filha. Ambas receavam achar-se em presença de algum louco ou ébrio; julgando-se expostas a um desacato, não sabiam que fazer.

Entretanto as lágrimas saltavam aos molhos das pálpebras do velho, que erguendo-se de supetão correu a Aurélia, e suspendeu a moça nos braços antes que ela se pudesse esquivar.

— Que é isto, senhor? Está louco? disse D. Emília levantando-se para defender a filha.

Às palavras da viúva e ao grito que soltara Aurélia, o velho recuou e quis falar; mas o soluço embargava-lhe a voz:

— Não me conhece, minha filha? Sou o pai de seu marido!

— O Sr. Lourenço Camargo?

— Ele mesmo. Não consente que abrace minha neta?

Foi Aurélia quem se lançou nos braços do velho, e este depois que a teve cerrada ao peito por algum tempo, desviou-se bruscamente, e foi sentar-se no sofá, enxugando o rosto com o grande lenço de seda enrolado em uma bola.

— É o retrato de meu Pedro. Pobre rapaz! murmurou o velho.

Depois de algumas perguntas acerca do nome e idade de Aurélia; explicou o fazendeiro a razão de ali achar-se naquele momento, reconciliado com sua nora, e pesaroso do modo por que se portara com ela.

Na estalagem ou rancho em que falecera, deixou Pedro Camargo sua maleta. Guardou-a o dono da casa com tenção de levá-la à fazenda ou mandá-la pelo primeiro portador. Por lá ficou anos até que pairou aí por acaso um formigueiro, nome que dão ao indivíduo perito em destruir o inseto daninho que devora as roças.

Esse de que se trata ia à fazenda do Camargo oferecer os seus serviços, e incumbiu-se de levar a mala. Ao recebê-la, avivaram-se ao fazendeiro as saudades do filho; enxugou os olhos, e mandou acender uma fogueira no terreiro para queimar os objetos que haviam pertencido ao morto.

Enquanto se cumpria sua ordem, abriu ele próprio a maleta, e tirou uma por uma as peças enxovalhadas, um pequeno estojo de toucador, e outras cousas de uso comum. No fundo havia um volume envolto em papel e atado com uma fita preta.

Continha as fotografias de Pedro Camargo, da mulher e dos dois filhos; a certidão de casamento e as de batismo dos dois meninos, e finalmente uma carta sem sobrescrito dirigida ao fazendeiro.

Essa carta de data muito anterior ao falecimento indicava que Pedro Camargo tinha a princípio pensado em suicidar-se, e se preparara para levar a efeito esse desígnio, escrevendo ao pai a fim de implorar-lhe o perdão de sua falta.

Depois de fazer a confissão do casamento que havia ocultado só pelo receio de afligir ao pai, suplicava-lhe que protegesse sua viúva e aqueles órfãos inocentes, que eram seus netos, e que o haviam de substituir, a ele Pedro, no amor e na veneração.

Lendo essa carta, Lourenço Camargo afigurou-se receber as últimas palavras do filho; e lembrou-se quanto fora injusto duvidando da realidade desse casamento de que ali tinha a prova irrecusável.

Era uma alma rude, mas direita.

Nessa mesma noite partiu para a Corte. Por intermédio do correspondente mandou colher informações na vizinhança e soube que a viúva ainda morava na mesma casa.

Depois destas explicações, que arrancaram lágrimas às duas senhoras, sobretudo quando leram a carta de Pedro Camargo, o velho deu um giro pela sala e tomando o chapéu disse:

— Chorem a seu gosto; eu voltarei depois.

De feito voltou todos os dias enquanto se demorou na Corte. Por seu gosto teria enchido de presentes a Aurélia e à mãe; porém as duas senhoras acanharam-se com a excessiva liberalidade, pelo que amuou-se o velho fazendeiro:

— Pois bem, não lhes darei mais nada. Quando precisarem peçam.

Dois dias depois deste incidente apresentou-se o velho com um maço de papel lacrado. Ao tirá-lo do bolso do jaleco, refranziu jocosamente a cara para Aurélia:

— Não vá pensando que é presente, não, senhora dona! Fique descansada. Quero que me guarde aqui este papel, até à volta.

— Se tem dinheiro, acho melhor... ia dizendo Aurélia.

— Qual dinheiro! Você parece que tem nojo dos meus cobres!

— Não é por isso, meu avô. Bem vê que duas mulheres numa casa como esta oferecem pouca segurança.

— Pois saiba que isto é um papel... uma escritura que passei, e para não a perder na viagem, deixo em sua mão.

Na capa do maço estavam escritas em bastardinho estas palavras. "Para minha neta Aurélia guardar, até eu, seu avô, lhe pedir. L. S. Camargo."

Partiu o velho para a fazenda, tendo mandado adiante de si pedreiros, carapinas e pintores a fim de quanto antes transformar o velho e sujo casebre em uma habitação digna de receber a família de Pedro Camargo, com certo aparato que o fazendeiro considerava indispensável, como reparação de sua anterior indiferença.

Além do material do edifício, havia também no regime da casa certos hábitos inveterados, que se estabelecem em algumas fazendas, sobretudo quando são os donos solteirões. Camargo carecia pelo menos de um mês para coibir umas familiaridades antes toleradas, e abolir certa moda de saia ou tanga que dava às crioulas uns ares de dançarinas, menos a calça de meia e os frocos de gaze.

Compreendia o Camargo, que estas minudências, inocentes para um velho barbaçudo como ele, deviam arrepiar os escrúpulos da Corte. Mas quando essa idéia não lhe acudisse, bastava-lhe ter visto Aurélia, e respirado a atmosfera de altiva castidade que envolvia a formosa menina, para não ousar profaná-la com o contágio daquelas indecências.

Logo após a partida de Camargo, D. Emília teve um dos costumados acessos da moléstia crônica; porém tão forte, que inspirou sérios receios ao médico. O paroxismo cedeu à aplicação de remédios enérgicos; mas a viúva não se levantou mais do leito, onde agonizou cerca de dois meses.

Foi este o período mais difícil da vida de Aurélia; porque às mágoas acerbas de seu amor ludibriado, acresceu a dor dos sofrimentos de sua mãe. E como se não bastasse esse golpe para acabrunhá-la, veio agravar esta situação a miséria com seu cortejo.

Quando apareceu o Camargo enviado pela Providência para reconhecer a nora e a neta, a existência das duas senhoras já era bastante penosa. Consumido o dinheiro que lhes entregara o tropeiro, viviam das costuras de Aurélia, e do preço de algumas jóias, ainda presentes de Pedro.

Não chegavam porém estes escassos recursos; e teriam passado inclemências se não fosse o crédito obtido na loja e venda em que se supriam.

Com algum dinheiro que o fazendeiro deixara à viúva, pagara ela essas dívidas, e o resto entregara à filha para as despesas.

Enquanto durou essa quantia, pôde Aurélia fazer face às despesas; mas estas avultaram com a moléstia da mãe; e breve não houve com que mandar ao mercado comprar um frango para o caldo da enferma.

Foi só nessa ocasião que Aurélia cedeu às instâncias do Dr. Torquato Ribeiro, e recebeu dele emprestados cinqüenta mil-réis. Até então rejeitara sempre o seu oferecimento, e esforçava-se por ocultar-lhe a penúria em que se achava.

É verdade que Aurélia esperava receber a cada instante os socorros que pedira ao avô. Escrevera-lhe logo que a moléstia da mãe agravou-se; e admirava-se de não receber resposta, nem ter notícias da fazenda.

A razão só depois a soube. De volta à fazenda achou Lourenço Camargo uma caterva de peraltas, que se diziam seus sobrinhos, e com eles as respectivas mulheres, e a récua dos marmanjos e sirigaitas, que formavam a ninhada dessa parentela.

O Camargo não os podia suportar; para ver-se livre deles deixava-se fintar uma vez no ano, mas não consentia se demorassem em sua casa mais do que uma noite, se fazia mau tempo.

Imagine-se pois como ficou o velho, quando aí achou-os todos de uma vez, com os seus apêndices, e muito a gosto.

Mas o furor de Camargo não teve limites, quando os intrusos tiveram o desfaçamento de confessar o motivo que ali os reunia.

Constara-lhes de fonte certa que o velho tinha feito testamento na Corte, e segundo as suas conjeturas deixava todos os bens a uma rapariga, filha de certa mulher perdida, antiga amásia de Pedro Camargo.

À vista disto haviam-se reunido e ali estavam para declarar ao tio que não consentiriam jamais em semelhante espoliação. Se, como esperavam, ele não reparasse o seu erro, para o que já traziam o escrivão de paz, o preveniam desde logo que anulariam esse testamento pela instituição de pessoa indigna. Neste ponto apoiavam-se no voto de um rábula, de que por cautela se tinham acompanhado.

O velho Camargo conteve-se durante esta exposição; mas como se contém a torrente que sobe para romper o dique, e a tempestade que se condensa até desabar.

Quando o rábula, aberta a caixa de rapé, fechou a chave dos dois dedos tabaquistas para agarrar a pitada que devia destilar-lhe no nariz o monco e a eloqüência, não achou presa. A boceta de tartaruga voara pelos ares a um murro do Camargo, que apanhando uns arreios de mula cargueira, suspensos à varanda, caiu na parentela, e dispersou-a a lambadas de couro e ferro.

Homens, mulheres e meninos, tudo foi escovado. Ao mesmo tempo o fazendeiro gritava pela negraria, e armando-a de peias e manguais, enxotava de casa a praga que a tinha invadido. Só depois que a deixou na estrada com as trouxas e malas de bagagem, voltou o velho.

Mas o corpo robusto, que apesar dos setenta anos desenvolveu aquele prodigioso esforço físico, não pôde resistir à explosão da cólera estupenda que subverteu-lhe a alma. Quando não teve mais em quem descarregar a indignação, esta subiu-lhe ao cérebro e fulminou-o.

O ataque paralisou-o completamente; a vitalidade de sua organização lutou cerca de dois meses, nesse corpo morto, até que afinal extinguiu-se. Em todo esse tempo não deu acordo de si. As cartas de Aurélia ficaram na gaveta, onde as guardara o administrador.

Com diferença de dias veio a falecer também D. Emília, deixando Aurélia em completa orfandade. Nesse transe cruel, o Dr. Torquato Ribeiro não abandonou a moça, e foi a rogos dele que D. Firmina Mascarenhas levou a órfã para sua casa.

À exceção dessa parenta afastada, nenhuma outra pessoa da família apareceu ou mandou à casa de Aurélia, durante a enfermidade da mãe, e depois do passamento. O Lemos e sua gente não deram sinal de si.