Sol de Inverno/Prefácio III

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Sol de Inverno por António Feijó
Prefácio III


Um mestre, sim! Elle foi-o, não só entre os da sua geração, mas tambem e mais largamente na nossa poesia contemporanea. Porque ninguem o excedeu no manejo do verso, ninguem o trabalhou com mais correcção metrica, mais relevo na phrase, mais arte, mais pericia technica, ninguem lhe deu mais ductilidade, mais elegancia, mais harmonia, mais sonoridade, mais riqueza de rimas, mais graça de rythmo, do que o poeta excellente do Cancioneiro Chinez, da Ilha dos Amores, do Sol de Inverno.

Nem durezas, nem frouxidões, nem hiatos, nem cacophatons, nem alliterações mal soantes, nem muletas, nem rimas forçadas, nem impropriedades arrepiadoras, nem a banalidade das imagens e das phrases feitas, como clichés sempre promptos para qualquer reproducção.

Já nas Transfigurações e nas Lyricas e Bucolicas, que são as suas juvenilia, esse poder e segurança de technica se haviam revelado. Mas foi no Cancioneiro Chinez que se affirmaram decisivamente. Feijó attingiu ahi o inexcedivel. Ainda me recordo do encanto com que Anthero saboreava essas pequenas composições, finamente desenhadas e coloridas como uma delicada pintura em porcelana ou um cloisonné ricamente esmaltado, commentando-as com um sobrio «É perfeito!» — que, em tal bocca, valia os mais extensos e laudatorios artigos de critica.

Sobre as traducções em prosa de Judith Gautier e embebendo-se, num estudo profundo do assumpto, do espirito do lyrismo chinez, elle tentou e levou a cabo essa paciente e admiravel reconstrucção que é o Cancioneiro, dando á poesia nacional um raro e magnifico exemplar da arte do verso.

Na Ilha dos Amores, o seu lyrismo intensifica-se e define-se, a sua arte firma-se e completa-se.

A sensibilidade lyrica palpita nas tres partes do livro, quer n'essas «velhas canções d'amor» da Ilha, (onde ha uma lindissima Ignez, tão intensamente dolorida, e uma admiravel Lady D. João, d'um baudelairianismo profundo e vibrante), quer nas adoraveis oitavas do Auto do meu affecto, tocadas da mais delicada graça, quer nas diversas poesias que formam a Alma triste, entre as quaes se encontram, nas mais variadas notas, verdadeiras maravilhas d'arte.

Na plena posse dos seus dons de grande artista, o poeta realiza ahi o seu anceio de perfeição plastica no verso, que elle nos formula n'estes soberbos alexandrinos:

Oh Musa Antiga, d'olhos placidos, rasgados
No marmore d'um busto aureolado e sereno!
Inspira-me e desvenda aos meus olhos nublados
A graça e a proporção do sentimento helleno.
Revela-me num gesto os mais altos modelos
Do Verso lapidar, para n'elle esculpir
Com encantos de deusa e doirados cabellos,
Essa flôr de volupia a tremer e a sorrir!
Ensina-me em segredo o genio incomparavel
De poder transformar os versos que componho,
E d'um jacto fundir, com uma arte impeccavel,
N'um distico immortal, a visão do meu Sonho!
Basta o oiro do Sol para a côr dos cabellos;
Para os olhos azues basta o azul crystallino,
Se o Verso lapidar souber circunscrevel-os
N'um jambo grego ou n'um hexametro latino!...

Por entre este estrato lyrico rompem, na sua obra, veios de humorismo, onde, n'um tom faceto, o poeta mantem todas as suas eminentes qualidades de versificador.

Nas Bailatas, dadas a lume sob o pseudonymo de Ignacio d'Abreu e Lima, o fidalgo senhor do Castello de Anha, estheta enygmatico e extravagante, reuniu Feijó as composições d'este genero. E deixou nas Novas Bailatas, cuja impressão se seguirá á d'este livro, uma segunda série d'essas originalissimas poesias, mixto singular de ironia e de sensibilidade, de graça buffa e de melancholia, que, ás vezes, parecem haver sido escriptas por um Pierrot, ao mesmo tempo sentimental e charivárico.

N'ellas ha, realmente, um fino espirito de farça, um extranho tom joco-serio, transições bruscas da emoção para a gargalhada e da folia incoherente para as lagrimas. A phrase mais grave termina n'uma sahida jogralesca. A phantasia mais comica detona n'um grito de dôr.

Algumas d'essas poesias, como Sideria, Felina, Lithurgica e outras, são antigas e encantadoras parodias do decadismo e do symbolismo, que, um momento, despontaram e floriram na litteratura portugueza. Rimas difficeis e imprevistas, rythmos confusos e atropellados, alliterações onomatopaicas, imagens exoticas e sybillinas, — tudo isso, que era a essencia d'aquella esthetica e d'aquella prosodia, é manobrado com uma dextreza inegualavel, uma phantasia surprehendente, fazendo, d'essas caricaturas, trabalhos do mais fino e requintado acabamento artistico.

Até n'essas pochades em que elle desenfadadamente se comprazia, dando sahida á sua vis comica, se sentia a mão habil e maravilhosa do mestre.