Sol de Inverno/Prefácio IV

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Sol de Inverno por António Feijó
Prefácio IV


Mas Sol de Inverno é, sem duvida, a sua obra prima.

No frontespicio, por baixo do titulo, — na realidade bello, mas talvez suggerido por uma excessiva modestia e, por isso, improprio, como vou explicar, — o poeta traçou estas palavras: ultimos versos. E foram-n'o, de facto. Não porque o seu inverno fosse já tão adeantado que o sol do seu talento não pudesse fulgurar ainda demoradamente no horizonte d'uma dilatada vida. Não: o seu inverno ia apenas começar. Feijó não contava então, mais de 57 annos. Ainda se podia considerar no seu outomno. Mas parece que aquellas duas palavras, tristes como um distico tumular, — o epitaphio da sua Musa, — exprimiam um presentimento fatidico.

Esse anno de 1915, em que elle coordenou e preparou o seu livro para o entregar ao prelo, foi-lhe terrivelmente angustiado e doloroso. A esposa estremecida, a quem o consagrava no verso tão profundamente amoroso de Martial, debatia-se nos soffrimentos d'uma longa e torturante doença que no mez de setembro veio a ter o seu desenlace fatal. A desgraça ameaçava-o, pois, sinistramente. E elle adivinhava que não seria longa (como não foi) a sua resistencia ao golpe rude e cruel que sentia imminente.

É claro que muitas das poesias colleccionadas no volume não são d'essa epocha atribulada. E, assim, o sol que alli brilha tem muitas vezes, não apenas a doce e serena luminosidade do outomno, mas até o fulgor ardente d'um meio-dia estival.

N'esse livro, o seu talento, inteiramente amadurecido, fructifica esplendidamente. Está alli todo o seu coração, como está todo o seu pensamento, — porque, n'esta derradeira phase, a sua poesia não nos dá sómente emoções, mas suggere-nos tambem ideias. Na soberba serie dos hymnos, póde dizer-se que se encerra toda uma philosophia. Ahi Feijó ala-se ás regiões mais altas da poesia, áquellas que só attingem os grandes espiritos. São odes sublimes, de um largo e poderoso sopro, onde a sua alma se abre toda na adoração da Vida, da Belleza e da Alegria, se contorce nos transes da Dôr, se embebe na melancholia da Solidão ou se abysma na meditação hamletica da Morte.

De todas as peças d'este hymnario, a ultima é talvez a maior, a mais profunda. E encerra uma exegése da morte subtilmente verdadeira. A sensação e a dôr da morte não estão no phenomeno da morte physica, em si, no termo da nossa vida material. Estão na lenta morte moral do nosso coração, no desapparecimento successivo dos que amamos e que levam, a pouco e pouco, comsigo, para o mysterio do tumulo, pedaços vivos da nossa alma.

Toda essa ideia está admiravelmente expressa n'estas quatro esplendidas quadras.


Quantas vezes, na angustia, o soffrimento invoca
O teu suave dormir sob a leiva de flores!...
A morte que, sem dó, me tortura e suffoca,
É outra — essa que em nós cava sulcos de dores.

Morte que sem piedade, uma a uma, arrebata,
Como um tufão que passa, as nossas affeições,
E deixando-nos sós, lentamente nos mata
Abrindo-lhes a cova em nossos corações.

Parenthesis de sombra entre o poente e a alvorada,
Morrer é ter vivido, é renascer... O horror
Da morte, o horror que gera a consciencia do Nada,
Quem vive é que lhe sente o afflictivo travor.

Sangue do nosso sangue, almas que estremecemos,
Seres que um grande affecto á nossa vida enlaça,
— Somos nós que a sua morte implacavel soffremos,
É em nós, é em nós que a sua morte se passa!


Esta poesia, que Feijó, ahi por 1913, me mandou de Stockholmo para Londres, onde então eu residia, fôra-lhe inspirada pela morte recente d'um nosso amigo commum. E aos seus mortos, parentes e amigos, a consagrou, como se vê do distico votivo que a precede: Meorum amicorumque pie manibus.

Toda uma intensa emotividade freme n'esse verdadeiro hymno sagrado, de tão largo folego. Os que accusavam Feijó de frio e impassivel teem, n'elle, como em muitas outras composições do Sol de Inverno, um formal desmentido ao seu reparo. E, entre essas outras, citarei, especialmente, essa torturada e angustiada Supplica ao Vento, de que transborda toda a desolada nostalgia do exilio. Poucas vezes, desde Ovidio, lembrando, tambem, nas neves do Ponto Euxino, a doçura radiosa do céu do Lacio, uma voz de desterrado cantou mais amargamente e com tão empolgante emoção as suas mágoas, as recordações da terra natal, a ancia de a rever em toda a sua surprehendente formosura. São queixumes elegiacos, perdidos apellos d'uma alma dilacerada, apostrophando o Vento que passa, a galopar vertiginosamente nos espaços, e supplicando-lhe que leve á terra risonha e luminosa e ao claro e cristalino rio, que a viram surgir á vida, o seu amor soluçante e lacrimoso. Não se leem esses patheticos tercetos sem uma crispação dolorosa de toda a alma. Mais d'uma vez ouvi suspender a sua leitura a vozes subitamente embargadas pelas lagrimas.

Já, na Alma Triste, essa incuravel nostalgia transparece em algumas poesias alli reunidas. É ella, mesmo, como um leit-motiv favorito. Domingo em terra alheia, Soliloquio do Outomno, No mez de Abril, Silencio, No campo, Inverno, ressumam as melancholias d'um espirito esmagado pelas brancas avalanches das neves hyperboreas e sempre saudoso do ardente e claro sol do seu paiz distante.

Ouçamos as lindas quadras finaes do Inverno, onde esse sentimento tão docemente se exprime:


Nasci á beira do Rio Lima,
Rio saudoso, todo crystal;
D'ahi a angustia que me victima,
D'ahi deriva todo o meu mal.

É que nas terras que tenho visto,
Por toda a parte por onde andei,
Nunca achei nada mais imprevisto,
Terra mais linda nunca encontrei.

São aguas claras sempre cantando,
Verdes collinas, alvôr d'areia,
Brancas ermidas, fontes chorando
Na tremulina da lua-cheia...

É funda a mágoa que me exaspéra,
Negra a saudade que me devora...
Annos inteiros sem primavera,
Manhãs escuras sem luz d'aurora!

Oh meus amigos, quando eu morrer,
Levae meu corpo despedaçado,
Para que eu possa, já sem soffrer,
Dormir na Morte mais descansado!