Sol de Inverno/Prefácio V

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Sol de Inverno por António Feijó
Prefácio V


A critica inscreveu o nome de Antonio Feijó no rol dos parnasianos portuguezes.

Não discutamos essas classificações d'escolas, que nem sempre são precisas, nem fundamentaes. Se o parnasianismo se caracteriza, de facto, pelo rigoroso cuidado da forma, pelo culto da belleza verbal, das linhas marmoreas da phrase, do seu corte lapidar, da riqueza das rimas, da euphonia dos rythmos, do poder evocativo das imagens,— Feijó pode chamar-se, com acerto, um parnasiano. A miudo elle repetia o preceito de mestre Theo: Ce qui n'est pas bien fait, n'est pas fait. Mas o que elle foi, na verdade, sem contestação e fundiariamente, foi um lyrico, na mais ampla plenitude da designação.

Toda a sua obra é dominada por essa nota emotiva, por esse accento de viva sensibilidade que constituem a essencia do lyrismo. O amor, o eterno amor, o enlevo da belleza, as torturas da paixão, as suaves melancholias, os tedios enervantes, as graças preciosas da galanteria,— são a substancia psychica da sua poesia.

Essas emoções sabia elle cristalisal-as n'uma forma requintadamente perfeita e na maior variedade de tons e de estructura estrophica. Ha poetas que se fixam n'um metro, ou pouco mais, e quasi não variam de tonalidade. O verso de Feijó é ricamente polymorpho e a escala dos seus tons muito extensa. A sua versificação tem amplitude e largueza; mas, tem, egualmente, elegancia, frescura e graça. Esculpe poderosamente o alexandrino, mas torneia delicadamente a redondilha menor e modela, com arte, as mais extranhas formas da estrophe composita.

Feijó, pelas qualidades do seu espirito refinado e distincto, não podia ser um poeta popular. O seu publico, de conhecedores e dilettanti da arte pura, tendo o culto do bello e um gosto exigente, foi sempre um circulo limitado, essa elite intellectual e esthetica, restricta em todos os paizes, mas, naturalmente, muito restricta no nosso. Além d'isso, a sua perfeita dignidade de escriptor e a sua aprumada linha moral, tornavam-n'o avesso a todo o exibicionismo, a todo o reclamo, a todos os secretos manejos de notoriedade banal.

Soffreu, sem duvida, a influencia da evolução litteraria do seu tempo. Mas, no fundo, ficou sendo sempre quem era e não se curvou aos ephemeros gostos do publico para lhe fornecer, como uma «moda de estação», uma qualquer camelotte, que a sua facil destreza lhe permittiria manipular com abundancia.

Delicado d'alma e, por isso mesmo, retrahido, tão probo de espirito como de caracter, não vivendo da sua arte, mas para a sua arte, não despresando a gloria, mas não requestando a popularidade ephemera e superficial, Feijó realisou o typo acabado d'um puro artista, que, por todas essas superiores qualidades, juntas ao talento, acaba sempre por conquistar uma final consagração no mundo das lettras e das artes.