N′esta, cuja memoria esquece á Fama

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(N′esta, cuja memoria esquece á Fama)
por Bocage
Poema agrupado posteriormente e publicado em Poesias eroticas, burlescas e satyricas como Soneto XI. Edições posteriores, tal como uma de 1969, atribuem apócrifamente a este poema o título Soneto da Cópula Esculpida.[1]

N′esta, cuja memoria esquece á Fama,
Feira, que de Santarem vem de anno em anno,
Jazia co′uma freira um franciscano;
Eram de barro os dois, de barro a cama:

Co′amão, que á virgindade injurias trama,
Pretendia o cabrão ferrar-lhe o panno;
Eis que um negro barrasco, um Frei Tutano
O espectaculo vê, que os rins llie inflamma:

«Irra! Vens-me atiçar, gente damnada!
Não basta a felpa dos bureis opacos,
Com que a carne rebelde anda ralada?

«Fóra, vis tentações, fóra velhacos!...»
Disse, e ao rispido som de atroz patada
O escandaloso par converte em cacos.

Notas[editar]

Como a historia da composição d′estes sonetos se encontra amplamente descripta na «Livraria Clasica» (tomo XXIII), para aqui a transcreveremos, em obsequio aos leitores, que não tiverem á mão aquelles folhetos.

«Era Santarém a mais cara residência de Bocage. Tractado como irmão em casa do Senhor Salinas de Benevides, ali se esquecia durante mezes. Era chegado o tempo da feira, em que, segundo o uso, grande multidão concorria áquella terra.

Á hospitaleira porta de Salinas vão, sabedores do benevolo agasalho, batendo amigos e extranhos: são onze horas da manhã, quando pela centesima vez se toca a campainha! Dous varatojanos, moidos e suados, mais o padre mestre herculeo e nedio, e o leigo moço e mirrado, entram para a sala commum. Trazendo-lhe dous copos, um de vinho, outro de agua; o mais velho, sem dar satisfações, precipitou-se sobre o do vinho, que o leigo viu com olhos de inveja emborcar até meio, resolvendo-se então humildemente a pegar no copo d′agua. Mal não era feito o movimento, quando irado o padre mestre por vêr a audacia com que o seu subalterno, faltando ás regras da santa obediência, bebia a agua de moto proprio, volta-se ainda em cima, para o estafado moço, berrando-lhe: O irmão já me pediu licença para beber isso?

«Bocage, que de toda a scena nem um meneio perdera, ergue-se furibundo, vai dentro, e apodera-se de um cajado, com que sáe para a rua a desancar frades. Esteve divino: vociferações, epigrammas contra frades borbotavam em cachão.

«Quiz a fortuna que a um canto da feira lobrigasse um cardume de gente, ralhando, ameaçando, rindo e gritando. Encaminhou-se para a multidão, que rodeava uma loja ambulante de bonecos de barro. E ahi lhe contaram como a mais rica peça da loja, era um frade de louça d′Extremoz, atacando uma freira; que passára aquelle frade de carne, que ainda lá ia ao longe, o qual encolerisado arrebatara o escandaloso grupo, o esmigalhara e conculcara aos pés, continuando impavido em seu caminho.

«Imagina-se como Bocage ficaria! Entra a correr, clamando como possesso: — « Cerquem-me o frade!... agarrem-me o frade, que ahi vai uma saraivada de sonetos!...»

E com effeito, á queima roupa lhe desfechou uma duzia de sonetos (de que apenas se conservam como amostra os dous que damos no texto).....

Continuou ainda a disparar epigrammas a frades, taes como os seguintes, que nunca foram impressos:

Entre um frade, e entre um burro
Ha tanta conformidade,
Que ou o frade é pae do burro
Ou o burro é pae do frade!

..................

Casou um bonzo na China
Com uma mulher feiticeira;
Nasceram tres filhos gemeos,
Um burro, um frade e uma freira

etc. etc.

[Nota de Inocêncio Francisco da Silva.]

  1. MATTOSO, Glauco. Bocage, o desboccado; Bocage, o desbancado. São Paulo: 2002. Disponível em <http://www.elsonfroes.com.br/bocage.htm. Acesso em: 28 maio 2014.