Sonhos D'ouro/I

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O sol ardente de fevereiro dourava as lindas serranias da Tijuca.

Que formosa manhã! O céu arreava-se do mais puro azul; o verde da relva e da folhagem sorria entre as gotas de orvalho, cambiando aos toques da luz.

Frocos de névoa, restos da cerração da noite, cingiam ainda os píncaros mais altos da montanha, como pregas de véu flutuante, ao sopro da brisa, pelas espáduas das lindas amazonas, que durante o verão costumam percorrer aquelas amenas devesas.

Seriam sete horas.

Um passeador solitário seguia a pé e distraidamente por um dos muitos caminhos que se cruzam em várias direções pela encosta ocidental da montanha. Levava ele embaixo do braço esquerdo um álbum de desenho, naturalmente destinado à cópia das magníficas perspectivas, que oferecem a cada passo as quebradas da serrania.

Era moço de 28 anos. Seu rosto de traços nobres não tinha decerto a beleza correta e artística do tipo clássico, nem a faceirice de certos casquilhos, príncipes da moda: apresentava porém uma fisionomia simpática e distinta. O olhar sobretudo, que é o sol d'alma, lhe esclarecia a larga fonte pensativa de reflexos inteligentes.

Trajava com extrema simplicidade. Tinha um vestuário completo, ou no jargão parisiense dos alfaiates, um costume ainda bem conservado e decente, apesar de um tanto fanado na gola. Notava-se a ausência completa do ouro: a abotoadura era toda de marfim; e não se via sinal de relógio.

Depois de alguns minutos de passeio, o moço, cujos olhos iam percorrendo com indiferença as bordas do caminho, de um e outro lado alternadamente, desviou-se do trilho batido e seguiu por dentro do mato. Mal tivera tempo de sumir-se entre a ramagem do arvoredo, quando ouviu-se o tropel de um cavalo que passou a galope. Enfiando o olhar por entre as folhas, pôde ver o cavaleiro, o qual era rapaz de 21 anos, de belo parecer e maneiras agradáveis. Montava um cavalo castanho.

— Fábio!

O cavaleiro colheu prontamente as rédeas, fazendo estacar a montaria, e voltou-se duvidoso para ver se com efeito o haviam chamado, como lhe parecera. A rapidez do galope e a repercussão do solo tinham impedido que ouvisse distintamente a voz do passeador a pé:

— Que milagre!... Hoje madrugaste!...

— Ah! És tu, Ricardo?! exclamou o cavaleiro retribuindo o sorriso. Vou à Vista dos Chins com uns rapazes que estão aí no hotel do Jourdain. Convidaram-me ontem à noite. É um piquenique! Queres ir também?

— Só se partíssemos ao meio o Galgo, observou Ricardo, alisando a linda anca do cavalo.

— Dou-te garupa! replicou Fábio gracejando.

— Obrigado!... Luisinha teria ciúmes.

— Bem; vai romantizar com as flores, que os sujeitos estão à minha espera. Talvez já chegue tarde! Digam lá o que quiserem. Um homem deve se dar a respeito, e não comparar-se com os animais e os carroceiros que deitam-se de dia e acordam-se de noite.

Atirando esse gracejo, Fábio deu de rédeas ao animal e partiu a galope.

— Olha o Galgo, hem! gritou Ricardo.

— Com efeito!... nem de Bela tens tanto cuidado!

Ricardo sorriu, e acompanhou com os olhos o amigo até que sumiu-se na volta do caminho. Não era porém o cavaleiro, apesar de elegante, o que prendia a atenção do passeador, e sim o cavalo cuja fina roupagem castanha brilhava aos reflexos do sol. A esbelteza das formas esgalgadas e o garbo dos movimentos fáceis e vivos, lhe tinham merecido o lindo nome dado pelo dono.

Quando o vulto airoso do cavalo encobriu-se por detrás da folhagem de uma árvore que interceptou-lhe a vista, Ricardo, abafando um suspiro involuntário, desviou-se novamente do caminho ao qual voltara para falar com o amigo.

Às vezes o pensamento do moço vagava de um a outro objeto, desta àquela moita, do ramo ao tronco, da folha à raiz, como se procurasse um ponto qualquer onde se fixasse, distraindo-se das ideias e recordações do íntimo. Outras vezes, depois de adejar como uma borboleta, o espírito do solitário passeador recolhia-se insensivelmente, e abstraía-se de quanto o cercava, para envolver-se nos refolhos d'alma.

Alguma cousa porém chamou por momentos sua atenção. Foi a pequena flor silvestre de um arbusto que se encontra nas matas da Tijuca.

Não sei o nome do arbusto, nem mesmo se já foi batizado pela ciência. É natural que não tenha escapado às pesquisas dos dois ilustres freires da flora brasileira, o Veloso e o Alemão; mas, como apesar de tanto dinheiro esperdiçado pelo governo, as letras andam entre nós abandonadas à indiferença o ao charlatanismo, que são a medusa e o minotauro do talento, não me pude socorrer à ciência dos dois célebres botânicos.

A este respeito Ricardo não era menos ignorante. O modo por que ele admirava a pequena flor revelava o tato do artista ou do poeta. Seu exame nada absolutamente se parecia com a fria dissecação que o botanista opera nas diferentes partes de uma planta, para conhecer o seu gênero, classe e família.

A flor tem a forma de um junquilho, mas é de uma bela cor de ouro, e aveludada como a açucena. Falta-lhe o perfume, que é o coração da flor, a sua respiração.

A corola tubular, com cinco lóbulos agudos de lança, surge de um cálice que parece de coralina. Cada haste sustenta comumente três cálices dispostos como as aspas de um leque; aí dentro desses cálices formam-se os botões, como pequenas contas de ouro no seu róseo engaste.

Pelo conhecimento que fizemos, a planta e eu, durante o verão passado, notei-lhe duas particularidades. Talvez recebesse eu dela outras confidências se não nos separássemos tão cedo, e tão no princípio ainda de nossa amizade.

Os botões, que despontam em dezembro, por muito tempo se conservam estacionários, sem crescimento aparente. É só dois ou três meses depois, em fevereiro e março, que as gemas d'ouro se elevam como aljôfares, e desabrocham para murchar em um dia. Mas as três flores irmãs não crescem, nem abrem ao mesmo tempo; vêm solitárias, uma depois da outra.

Eram estas justamente as observações que fazia Ricardo, examinando a linda corola e os botões nascentes aninhados ainda no fundo do cálice nacarado. Muitas vezes em seus passeios tinha ele notado o arbusto coberto das lindas pérolas douradas. Cansado de esperar o desabrochar, supôs a florescência já passada, e naquilo que via, o embrião do fruto.

Depois de olhar a flor agreste com enlevos de artista, o moço, que procurava qualquer modelo, lembrou-se de copiar o arbusto em uma das páginas do álbum. Escolheu a posição, aproveitando os acidentes do terreno em ladeira, para servir-lhe de mesa. De joelhos na grama, debruçado sobre o declive de um barranco, traçou rapidamente a lápis o esboço da planta.

Enquanto descansava, examinou de novo a flor do ramo que tinha quebrado:

— Que bela cor de ouro! murmurou.

Então com as impressões poéticas da flor agreste se enlearam outras cismas que absorveram completamente o espírito de Ricardo. Como a seiva exuberante de uma árvore, que rompe a casca e borbulha aqui e ali pelo tronco em fios de resina, assim os pensamentos que enchiam a alma do mancebo se escapavam de vez em quando nas palavras entrecortadas de um monólogo.

— Ouro!... ouro!... És o rei do mundo, rei absoluto, autocrata de todas as grandezas da terra! Tu, sim, tu reinas e governas, sem lei, sem opinião, sem parlamento, sem ministros responsáveis!... Não tens nenhum desses trambolhos que arrastam os soberanos constitucionais.

“Lei?... Que lei é a tua, senão o capricho com que escarneces dos homens? Tu dizes ao pobre, cobiça; ao opulento, gasta; ao pródigo, esbanja; ao avarento, aferrolha; ao mendigo, esmola; ao ladrão, rouba; e a todos, grandes e pequenos, adorai-me!...

“Opinião?... Quem faz esse rumor que nos atordoa os ouvidos e a que chamam pomposamente opinião pública? Tu, que sustentas os jornais, pagas os jantares, ofereces lindos presentes, estreitas as amizades, e nutres a admiração e o entusiasmo!”

O monólogo expirou nos lábios do moço; porém a expressão de seu rosto indicava que o espírito seguia mentalmente o sucessivo desenvolvimento da ideia.

— Todos nós, bons ou maus, somos súditos de tua majestade, com a diferença que os maus te bajulam e se arrastam a teus pés para satisfação de ignóbeis instintos; enquanto que os homens honestos te respeitam como um grande poder, te servem para se robustecerem com tua força, mas não te sacrificam a dignidade e a virtude.

Um sorriso amargo pairou nos lábios de Ricardo:

— Por isso, como todos os reis, tu repeles quase sempre essas almas de rija têmpera, que não se dobram a teus caprichos. Preferes os lisonjeiros, os corações de cortiça, as almas de esponja, que à vontade se embebem ou se encharcam daquilo que te apraz ou te repugna.

A sombra de algum pensamento mais desanimador perpassou-lhe na fronte, e derramou-lhe pelo semblante uma expressão de melancolia. As pálpebras cerraram-se como se a luz do sol ofendesse a penumbra d'alma em que dormiam as mágoas íntimas e as queridas reminiscências:

— Minha felicidade, a felicidade de uma família inteira, depende de ti, de um teu bafejo!... Vinte contos!... Uma migalha das tuas imensas riquezas. Dizem que milionários já deram mais, muito mais, para terem direito a um nome de cinco letras! Quatro contos cada letra! Há mulheres que levam ao baile algumas noites, durante sua vida, joias que valem dez vezes mais do que essa quantia! Quanto não custa cada hora daquele prazer! Entretanto não são cinco letras, são oito criaturas, não são horas apenas, são anos, são vidas de amor e ventura, que eu obteria com esta miserável quantia... miserável para os opulentos; para mim um tesouro, um futuro!...

Sob a influência da profunda cisma, Ricardo tinha a pouco e pouco mudado a posição, que tomara para desenhar. O corpo debruçado anteriormente sobre o declive, que servira de mesa, inclinou-se insensivelmente para o lado, firmando-se no cotovelo. Assim com a cabeça apoiada na mão esquerda, quase deitado sobre a relva, como sobre um divã, prosseguia o moço nos seus devaneios, com os olhos fitos na flor, que embalançava-se lentamente aos movimentos dos dedos.

— Bastava uma tira de papel, um bilhete de loteria, ou uma carta de jogar, para dar-me essa quantia, o preço de minha felicidade, a saúde de minha mãe, o casamento de Luisinha e... Ah! Quantas vezes não me tenho embalado nestas ilusões sedutoras, nestes sonhos d'ouro!... São como tu, linda flor, os meus sonhos d'ouro. Brota uma tênue esperança, assim como o teu botão; vai crescendo lentamente, no meio de ânsias e dúvidas; afinal desabrocha em flor; mas é flor do vento, que logo murcha. Também tu não vives mais que um dia!... Nisto nos parecemos bem; constante a preocupação; o sorriso efêmero; tua preocupação é vegetar, a minha, pensar!

Decorrido um momento, o semblante de Ricardo expandiu-se:

— Há tanto tempo que vejo esta planta, e não lhe conhecia a flor!... Quem sabe? Talvez seja o anúncio do primeiro sorriso da fortuna!

Logo zombou de sua lembrança, e da puerilidade daquela superstição. Mas, longe de a repelir, embebeu-se na ilusão. Todos nós temos em nossa alma um cantinho, que, apesar dos anos, da experiência e dos trabalhos, fica menino até que enfim o homem volta à primeira infância. Nesse cantinho dormem as ilusões ingênuas, as esperanças infindas, a fé robusta e sobretudo certos laivos de loucura que tonificam a razão.

É aí, é justamente nesse santuário da infância, que a alma viril do homem costuma-se refugiar nos momentos de crise, quando sustenta alguma luta com a fortuna; ou vencedora para fortalecer-se com a seiva primitiva, e renovar o combate; ou vencida para escapar ao desespero, que a invade.

Ricardo deixou-se ir à mercê da fantasia, que recortava arabescos em seu espírito. Era um desses sonhos acordados, em que as noções confusas se agitam num claro-escuro do espírito. Esse jogo da luz e das sombras d'alma, junto à extrema volubilidade dos pensamentos, não deixava destacar-se cada uma das ideias. Bilhete de loteria, jogo de cartas, heranças inesperadas, a proteção de um milionário, o trabalho abençoado por Deus, e mil rasgos e acidentes da fortuna; tudo isto misturado com a imagem da flor se baralhava na mente de Ricardo, apagando-se e luzindo alternativamente, como os fogos-fátuos em noite escura. Mas todas essas fosforescências iam derramando n'alma, como que uma linda miragem, a abastança, a posse dos vinte contos de réis.

— Então!... Como havíamos de ser felizes, Bela! Que beijos, minha querida mãe, que eu te havia de dar para te beber nas faces as lágrimas de prazer! Porque tu havias de chorar de alegria, como choraste de dor. E também a ti, Luisinha! A todos!...

A cada uma dessas palavras o moço, completamente possuído e dominado por suas recordações, inclinava-se sobre a flor agreste que tinha na mão, e beijava-a com ardor, vendo naquela gentil criatura da natureza a imagem das pessoas a quem amava.

— Oh! então lhes pagaria em beijos as saudades que sentem por mim!...

O trino mavioso de um riso fresco e argentino arrancou subitamente o moço à profunda cogitação.

Aturdido um instante pela completa alheação do espírito, que andava bem longe dali, através dos mares, Ricardo voltou-se para ver quem tão bruscamente o havia chamado à realidade.

O quadro que tinha diante dos olhos era digno de uma das folhas do seu álbum, ornado de finas aquarelas.