Sonhos D'ouro/II

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Entre o arvoredo tecido de grinaldas amarelas aparecia uma esfera do azul do céu, como tela fina de um painel, cingido por medalhão de ouro. A sombra de uma nuvem errante infundia ao horizonte suave transparência.

Debuxava-se na tela acetinada o vulto airoso de linda moça, que montava com elegância um cavalo isabel.

A alvura de sua tez fresca e pura escurecia o mais fino jaspe. Nem os raios do sol, nem o exercício acenderam uma rosa mesmo pálida em sua face, cândida como a pétala do jasmim. A seiva dessa mocidade, o viço dessa alma, não se expandia no rubor da cútis, mas no olhar ardente e esplêndido dos grandes olhos negros, e no sorriso mimoso dos lábios, que eram um primor da natureza.

Admirando aquele rosto encantador, ninguém reparava na sua palidez; ao contrário parecia que os tons rosados maculariam a alvura do lírio. A alma que se derrama assim em ondas no olhar e no sorriso, está no íntimo, no coração, donde se desprende em centelhas: não pode tingir as faces.

Um roupão de caxemira verde-escura, debruado a cairel de seda preta, com abotoadura de aço, moldava um talhe esbelto, que parecia talhado em mármore, tal era a correção das linhas e a harmonia dos contornos. O gracioso chapéu de castor cor de pérola, em vez de cobrir-lhe a cabeça gentil, pousava como um pombo na rica madeixa negra, que lhe descia caprichosamente pelo pescoço em opulentas cascatas.

Calçava luvas de camurça amarela, cujo longo canhão afunilado cobria-lhe uma parte do braço, mas deixava admirar o pulso delicado, cingido por um punho de cambraia lisa, igual ao colarinho rebatido sobre a gola do roupão.

A mão esquerda sustinha as rédeas trançadas com bastante firmeza, porém com a graça fácil que teria segurando no baile o leque ou o ramalhete. A direita suspensa apertava pela haste um chicotinho, cujo cabo de madrepérola parecia machucar nos lábios o sorriso faceiro, que ali brincava, e de vez em quando trinava como um canário.

Da cintura de menina ou de silfo nasciam as amplas dobras do roupão de montar, roçagante sobre os flancos do belo animal. Como na constante ondulação do mar percebe-se, por uma inflexão mais forte, a vaga nascente que se empola, assim no meio das largas pregas do vestido sentia-se o relevo suave da perna esbelta e nervosa, que esticava o loro, enquanto o pé, despeitado por não se mostrar, agitava impaciente o estribo.

O cavalo era digno pedestal daquela estátua de Diana. Alto, airoso, de uma estampa soberba, respirava a elegância altiva e serena, que lhe imprimira a educação britânica. O cavalo do Cabo, de boa raça, tem alguma cousa do lord: a mesma fleuma aristocrática, o mesmo garbo frio e impassível, a mesma sobriedade do gesto, caracterizam os dois fidalgos.

Tenho para mim que um cavalo do Cabo olha para os cavalos de raça diferente com o mesmo polido desdém que sentia Lord Derby pela nobreza das outras nações. O lord inglês apropriou-se do antigo mote dos senhores do mundo, civis sum. O cavalo do Cabo, parodiando a divisa, diz equus sum; eu sou o cavalo por excelência, o fidalgo de raça, o gentleman da estrebaria.

Por isso na atitude do lindo animal montado pela gentil amazona não se via a impaciência fogosa, a vivacidade sôfrega, que sem dúvida ressumbraria no filho da raça brasileira, apesar de muito afastado de sua primitiva estirpe árabe. O lindo isabel, sentindo a doce pressão das rédeas colhidas pela mão da senhora, estacara imóvel, com a firmeza correta de uma posição acadêmica. As pernas lançadas pisavam o chão com rígida elegância; a cauda e a crina conservavam a artística ondulação que lhes imprimira a mão do escudeiro; a cabeça erguida com arrogância inclinava-se ligeiramente para despedir o olhar oblíquo do orgulho desdenhoso.

Pitt, o grande Pitt, parando no meio de um discurso eloquente, ao influxo da súbita inspiração de um epigrama, que seu lábio sarcástico ia desferir contra Fox, devia ter no parlamento inglês aquela atitude soberba.

Se a linda moça ficasse ali horas, creio que o seu impassível cavalo não daria sinal de impaciência, nem levantaria a unha aristocrática para escarvar o chão. Podiam também as moscas impertinentes pousarem na anca; ele não se preocupava com a ralé. Apenas, muito importunado, agitaria o corpo com um movimento semelhante ao do fidalgo que levanta os ombros em sinal de tédio.

Eis o quadro original que Ricardo viu de relance. O vulto da moça, esclarecido por um raio do sol coado entre a folhagem, se estampava no fundo azul, com vigor de colorido e animação de tons admiráveis. Através da névoa sutil que há pouco envolvia seu espírito, o desenhista podia supor um instante que via uma paisagem de Delacroix através da ilusão diáfana de um diorama.

Chegando-se ao arbusto para examinar-lhe a flor, não reparou o moço que, seguindo por dentro do mato, se aproximara do caminho no lugar onde este fazia uma curva. Deitara-se pois voltando costas ao trilho, que lhe ficava a duas braças de distância.

A linda amazona, que vinha ao passo do animal, descobriu o solitário passeador, e pressentiu nele algum desses eternos sonhadores que se chamam poetas ou artistas: gente por quem as mulheres têm o mesmo fraco dos meninos pelas bolhas de sabão; cousa para se ver um instante, enquanto brilha.

Disfarçando a sua indiscrição com o pretexto de esperar alguém que a acompanhava, fez a amazona parar o animal. O vento, volvendo as folhas do álbum, mostrava as aquarelas, que os olhos curiosos tentavam espiar, enquanto a mão afastava o longo véu cor de havana. Esguardando os desenhos, não esquecera a moça o artista que, entregue a seus pensamentos, murmurava palavras soltas.

Quando o viu beijar com ardor, uma e muitas vezes, a pequena flor agreste, não se pôde conter, e deixou escapar-se a risada harmoniosa, que ainda se desfolhava em sua boca travessa, como uma rosa desabrochada naquela manhã. Debalde quis ela, pousando nos lábios o cabo de madrepérola do chicote, trancar aquele cofre de pérolas e rubis: as joias se desfiavam rorejando as melodias de uma voz suave.

O riso fresco de uma linda boca, ainda quando borbulha dele alguma malícia, é sempre doce e saboroso. Por isso Ricardo, apesar de reconhecer que a moça ria-se dele, em vez de zangar-se, riu-se para ela.

O véu caiu imediatamente, ocultando em uma nuvem espessa o rosto encantador. A uma vibração da rédea, o soberbo isabel desatou o passo elegante em um trote largo, de suprema correção hipiátrica. O quadro arrebatador se tinha apagado de repente, deixando a tela azul erma da imagem sedutora.

Em compensação porém outro quadro mais cheio desenhou-se no claro do arvoredo. Era formado por uma inglesa gorda, de meia-idade, dessas mulheres que teimam em não envelhecer, e por um português magro, desses homens que aos quarenta anos envelhecem sem cerimônia.

Estas duas criaturas eram o epigrama vivo uma da outra. Montada a cavalo, com um chapéu de abas enormes, a inglesa parecia, relevem a comparação, um queijo londrino posto em prato alto e coberto com a tampa de cristal. O português, esguio e curvado sobre a mula que o levava, com um chapéu afunilado, era a perfeita imagem de uma salsicha assada num espeto.

Para que o contraste fosse perfeito, a mulher falando ao homem, estropiava o português de uma maneira horrível; e o homem, escutando-a atentamente como se a compreendesse, arranjava de vez em quando no fundo da garganta um grunhido que tinha a pretensão de ser um yes, como uma careta tem a pretensão de ser um sorriso.

Ricardo vendo o segundo painel sentiu na vista uma sensação igual à do paladar que, saboreando a polpa deliciosa de um cambucá, sentisse de repente o gosto do pepino. Fechou os olhos enquanto o mútuo epigrama em carne e osso passava, acompanhado por um pajem de libré.

Um novo gorjeio de riso melodioso derramou-se pela solidão; porém Ricardo não ouviu mais do que um eco remoto.

— De que se ri, menina? perguntou a mestra em inglês. Why do you laugh, baby?

— Bonito romance, Mrs. Trowshy! respondeu a moça na mesma língua.

— Que título tem?

— Título!... replicou a moça rindo. Não está escrito ainda! Se agora mesmo eu vi o primeiro capítulo!

— Não entendo.

— Ande lá, Mrs. Trowshy! E a senhora bem caladinha!...

— Mas o que é?

— Não viu um moço que estava recostado na grama ao lado do caminho?

— Onde?... Não vi nada!

— Sim? Não me engana! Pois o moço tinha uma flor na mão, creio que era um girassol, e pensando que eu não o via, ou talvez que era outra pessoa, dava tais beijos na flor, que de cada beijo comia um pedaço.

— Oh! oh! engraçado! exclamava a mestra com um riso puro cockney.

— Espere; o mais interessante é que ele não cansava de dizer enquanto beijava o seu girassol: My love, my soul, my darling Harriot, my pretty Mrs. Trowshy!

Baby, baby!... repetia a mestra afogada em riso.

O português não entendera meia palavra do diálogo travado em inglês; mas ele julgava que, sendo incumbido de acompanhar a moça e a mestra na qualidade de criado grave, devia compor-se à feição daqueles de quem estava constituído a sombra.

— Você tem ideias, menina!

— É sério, Mrs. Trowshy. Palavra que vi o moço. E a senhora também; não disfarce.

A mestra voltou-se gravemente para o criado, e com os dentes cerrados para destrinçar as palavras portuguesas, como se fossem cabeloiro, disse mais ou menos isto:

— Senhor Daniel, nós ver young gentleman?

— Iuh!... iuh!... iuh! respondeu o Sr. Daniel que ficara em branco.

— Não disse? exclamou a moça desatando a risada com extremo prazer.

— Iuh!... iuh!... fez a mestra arremedando o português. Que quer dizer iuh?...

Neste momento um cavaleiro a galope assomou na curva do caminho, e encontrou-se de frente com a moça e sua comitiva. Era Fábio que voltava do seu passeio gorado; ao avistar o grupo, moderou o andar do animal para melhor examinar as pessoas, com especialidade a gentil amazona.

Cumprimentou respeitosamente a moça, que retribuiu-lhe com uma inclinação da fronte, bastante graciosa para revelar a fina educação, mas tão reservada e altiva que não permitia a quem a recebesse dirigir-lhe uma palavra, ou aproximar-se.

O Galgo e o formoso isabel também se cortejaram: o cavalo brasileiro, vivo, ardente e prazenteiro, enfreando-se garboso e soltando um ligeiro nitrido de prazer; o cavalo do Cabo, com o cumprimento protetor que um ministro enfatuado se digna deferir a um deputado novel.

Como o jovem deputado, o jovem corcel, vendo aquela fatuidade, sentiu certo prurido na pata, mas pelo respeito ao cavaleiro que o montava, pela decência devida à boa sociedade, e sobretudo pela educação que lhe dera o dono, desprezou a arrogância do colega.

— É este o moço, menina? perguntou a inglesa motejando.

— Não, Mrs. Trowshy. Este é outro: é rival do primeiro, replicou a moça. Não viu que cumprimento lhe fez? Creio que teremos duelo! É como há de acabar o romance!

E o riso que se escondera nas covinhas da face, quando se aproximara um estranho, voltou de novo ao lábio da moça.

Hop! Hop! exclamou ela, desaparecendo em um tempo de galope.