Sonhos D'ouro/V

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Decorreu mais de um mês.

Durante esse tempo Ricardo passou com seu amigo três domingos na Tijuca. De cada vez o acaso o fizera encontrar a Guida quando mal pensava.

A primeira vez foi na manhã do domingo que seguiu-se às cenas referidas.

Ricardo saíra no Galgo a passeio. Tomando para o lado da cascatinha, que as chuvas dos últimos dias tinham enriquecido, lembrou-se o moço de subir até a Floresta, um dos mais lindos sítios da Tijuca. O nome pomposo do lugar não é por ora mais do que uma promessa; quando porém crescerem as mudas de árvores de lei, que a paciência e inteligente esforço do engenheiro Archer têm alinhado aos milhares pelas encostas, uma selva frondosa cobrirá o largo dorso da montanha, onde nascem os ricos mananciais.

Viva imagem da loucura humana! Refazer à custa de anos, trabalho e dispêndio de grande cabedal, o que destruiu em alguns dias pela cobiça de um lucro insignificante! Aquelas encostas secas e nuas, que uma plantação laboriosa vai cobrindo de plantas emprestadas, se vestiam outrora de matas virgens, de árvores seculares, cujos esqueletos carcomidos às vezes se encontram ainda escondidos nalguma profunda grota. Veio o homem civilizado e abateu os troncos gigantes para fazer carvão; agora, que precisa da sombra para obter água, arroja-se a inventar uma selva, como se fosse um palácio. Ontem carvoeiro, hoje aguadeiro; mas sempre a mesma formiga, abandonando a casa velha para empregar sua atividade em construir a nova.

Ricardo pensava pouco mais ou menos neste sentido, enquanto ganhava a ponte da Cascatinha, com intenção de subir até a Floresta. Mas essas preocupações se desvaneceram completamente diante do quadro arrebatador que se oferecera a seus olhos.

Brancos lençóis de espuma se desdobravam pelas escarpas do rochedo, como as pregas de alvo manto flutuando sobre as espáduas de Agar, a Africana. A vegetação se debruçando de um e outro lado, derrama sobre a cachoeira uma sombra doce, que torna mais negra a pedra e mais cândida a espuma.

Há cascatas muito mais ricas e abundantes do que essa, não só na grande massa das águas, como na vastidão e aspereza dos penhascos. Têm sem dúvida aspecto mais soberbo e majestoso; inspiram n'alma pensamentos mais graves e sublimes.

A Cascatinha da Tijuca, porém, prima pela graça; não é esplêndida, é mimosa; em vez da pompa selvagem respira uma certa gentileza de moça elegante; bem se vê que não é uma filha do deserto; está a duas horas da corte, recebe frequentemente diplomatas, estrangeiros ilustres e a melhor sociedade do Rio de Janeiro.

Assim não se despenha ela com a fúria de uma serpente, mas com a indolência com que uma senhora da moda se derreia no recosto do divã. Sua voz não é um trovão, mas um rumorejo que embala docemente o coração. Perto dela sente-se no ar o hálito fresco das águas que se esfrolam, e não a constante neblina produzida pelos borbotões que se desfazem em pó com a violência do choque.

O jovem advogado tinha contemplado muitas vezes a Cascatinha, e até já possuía em seu álbum uma aquarela da formosa paisagem; mas nunca a vira tão abundante d'água, tão enfeitada e casquilha. Projetou voltar a pé, depois do almoço, para tirar outra vista. Assim teria a Cascatinha em traje de festa e em desalinho.

Uma voz soou a pouca distância:

Oh! Beautiful! very beautiful!

Ricardo estava no centro da ponte, com o cavalo atravessado, para ver de frente a cascata. Conhecendo que outras pessoas se aproximavam fez voltar o animal para dar-lhes passagem. Este movimento colocou-o em face de Guida, que chegava.

A moça tinha o mesmo traje de amazona que no domingo passado; mas em vez de serem de camurça amarela as luvas eram de peau de Suède cor de castanha e o chapéu de palha de arroz com um véu branco. Salvas essas ligeiras modificações do vestuário, que naturalmente escaparam aos olhos do moço, era a cópia viva do quadro, que lhe aparecera à borda do caminho, oito dias antes. A moldura sim, era diferente: os florões dourados dos corimbos da aroeira foram substituídos pela negra e musgosa cercadura do rochedo.

Os olhos de Guida e Ricardo se encontraram.

Reconhecendo-a, o moço envolveu-a com o olhar, um desses olhares ardentes e profundos, que embebem em si os objetos, como um molde, para depois vazá-los dentro d'alma. Olhar de poeta ou de artista, que esculpe na memória as estátuas, os relevos e arabescos da natureza; donde os copia depois a imaginação em poemas, em harmonias, em raios de luz. Esse olhar tem alguma cousa do cinzel que talha, e da lava ardente que se coalha e vitrifica sobre os objetos.

Guida, que trazia nos lábios o sorriso gracioso, perturbou-se, e desviou a vista corando. Pareceu-lhe descobrir naquela expressão estranha do olhar de Ricardo uma exprobração pela cena do domingo anterior.

Conhecendo que tinha vexado a moça, Ricardo arrependeu-se do seu movimento de curiosidade artística. Da última vez que estivera na Tijuca desenhara de memória a cena do seu primeiro encontro com Guida; julgou porém impossível dar à figura da moça os traços da fisionomia encantadora, que ele apenas vira tão de relance. Oferecendo-se essa ocasião de ver Guida de mais perto e demoradamente, quis decorar-lhe as feições.

A delicadeza d'alma do advogado compreendera o acanhamento da moça, embora o atribuísse a causa diferente. Por isso cuidou em afastar-se dali. Fazendo o Galgo voltar sobre os pés, cortejou de longe e subiu na direção da Floresta.

Durante esta rápida cena, Mrs. Trowshy, enlevada diante da cascata, não cessava de expandir a sua admiração em exclamações patéticas, semelhantes às que lhe ouvimos em princípio. A poética imaginação da inglesa quis infundir um raio do seu entusiasmo no companheiro, o nosso conhecido Sr. Daniel; mas perdeu seu tempo: o português era feito de músculo e osso; por conseguinte impenetrável à poesia, como um capote de borracha é impenetrável à água.

Foi no momento de afastar-se, que a inglesa reparou no moço:

— Este não é o sujeito que ia matando Sofia? perguntou em inglês.

— Creio que é!

— Que monstro! exclamou Mrs. Trowshy, com o horror que lhe inspiraria um tigre.

— Ele não teve culpa. Depois é que vi; podia o cavalo atirar-se no despenhadeiro.

— Era bem-feito; para que anda em um cavalo tão fogoso?

— Mas é muito bonito! Não acha, Mrs. Trowshy?

— Oh! Não tem comparação com Edgard!

— Edgard é um cavalo de preço, um cavalo de raça; tem a estampa mais vistosa e elegante; porém acho o outro mais bonito! Olhe a graça dos movimentos. Como é vivo e faceiro! Como brinca! Está-se vendo a alegria nos seus olhos, e no garbo com que move o pescoço.

Guida falava seguindo com o olhar o Galgo que subia o primeiro lanço da estrada.

— Se não possuísse esse lindo isabel, havia de achá-lo magnífico!

— Ora, Mrs. Trowshy! Não é por isso. Acho Edgard esplêndido, incomparável: tudo que a senhora quiser; mas não gosto desta frieza; um cavalo que não sabe brincar, sempre grave e empertigado como um ministro em audiência.

Dobrando o segundo lanço da estrada em zigue-zague, viu Ricardo que a moça tomava a mesma direção; naturalmente ia como ele até à Floresta, ou mais acima ao pico da montanha que tem a forma e o nome de Bico do Papagaio.

Essa coincidência incomodou o jovem advogado. Por quê? Se tivesse de explicar, naturalmente não lhe acudiria a razão, e por uma circunstância muito simples, porque não existia. Com efeito não fora um motivo distinto, suscetível de apreciação, o que atuara em seu espírito; porém unicamente certas repugnâncias que às vezes despertam em nosso espírito a respeito de um fato. É uma espécie de antipatia.

A possibilidade de sucessivos encontros, a facilidade de se verem de longe, subindo os lanços da estrada em zigue-zague e, finalmente, essa comunidade de passeio, embora fortuita, todas essas circunstâncias confusas, indistintas, calaram no ânimo de Ricardo uma súbita contrariedade. Refletiu que a Floresta era distante, e, a não ir de corrida, chegaria tarde para o almoço; ora, passear, para ele, não era correr e sim contemplar.

O resultado dessas reflexões foi apear-se o advogado e puxar o cavalo para uma vereda que vai ter ao cimo da cascata. Aí oculto pela folhagem ouviu o tropel dos animais que passavam. Quando presumiu que já estivessem bem longe, tornou a cavalgar, e descendo o caminho da cascatinha, foi acabar o seu passeio interrompido na bela estrada que vai ter ao Jardim Botânico.

Fábio esperava-o para o almoço, deitado em uma esteira no terreiro da casinha, enquanto D. Joaquina andava apanhando umas goiabas maduras para a merenda. O praticante de advocacia tinha brilhado naquele dia: empregando a manhã na caça de passarinhos, trouxera uma dúzia de rolas, que chiavam no espeto, trescalando perfumes estranhos naqueles lares acostumados às refeições frugais.

O outro encontro fora no mesmo lugar da primeira cena.

Subia Ricardo a pé, e tomara involuntariamente, pela força do hábito, o caminho que seguira da vez passada. Chegando ao ponto onde estivera desenhando sobre a grama, procurou o arbusto, que ainda estava coberto dos seus botões de ouro; apenas duas flores desabrochadas brilhavam sobre o ramo verde-escuro.

Notou o moço que junto à planta estava o chão pisado por casco de cavalo; mas não deu grande atenção a essa circunstância, tão vulgar em um sítio onde frequentemente andam animais soltos.

Abriu o álbum na página em que desenhara a cena do primeiro encontro da moça; e cotejando-a com o sítio, corrigiu alguns traços do arvoredo, não porque eles prejudicassem a beleza do quadro, mas por um capricho de artista. A paisagem era uma cópia e não uma fantasia; queria que fosse o mais exata possível.

Tinha concluído esse trabalho e estava examinando os botões de ouro e as flores abertas, quando repercutiu o tropel de uma cavalgata. Eram com efeito diversas pessoas, senhoras e homens, que iam de passeio rindo e conversando.

Fitando os olhos no caminho, Ricardo viu a Guida, que também o percebera. Ou fosse espanto de Edgard, ou descuido da gentil amazona no governo das rédeas, ou qualquer outra circunstância, o lindo isabel ao passar em frente do moço tinha-se desviado do caminho, penetrando no mato, com direção ao arbusto.

Descobrindo porém o moço, Guida com sua habitual destreza corrigiu o desvio do cavalo, e fustigando-o com um movimento de contrariedade, ganhou a frente da cavalgata, que desapareceu num turbilhão de poeira.

— E a flor, Guida? perguntou uma das moças.

— Não achei!

Ricardo compreendeu então o movimento da elegante amazona e a circunstância que a princípio notara de rastos de cavalo junto ao arbusto; a ferradura inglesa fina e um tanto oval estava denunciando a pata aristocrática de Edgard.

Pensou que a filha do milionário também gostava da linda flor agreste. E quem não se agradaria daqueles aljôfares graciosos? Para ela sobretudo deviam ser de um encanto especial; não tinham a cor do ouro, essa cor sedutora que a natureza destinou para o sol e o dinheiro, os dois clarões que deslumbram, um a vista, outro a alma?

Naturalmente a moça já conhecia a flor antes do primeiro encontro; passando procurava-a com os olhos, quando o descobriu, a ele Ricardo, na posição ridícula de um namorado de novela antiga, beijando o cravo que lhe atirou da janela a dama dos seus pensamentos.

Agora a Guida encaminhara o cavalo para o arbusto a fim de colher um ramo; mas avistando o importuno passeador, desistiu, disparando a galope.

— Esta moça, disse Ricardo rindo-se interiormente, há de me considerar como uma espécie de borboleta preta!

Depois do almoço, estando o sol muito quente, Fábio deitou-se a ler no quarto, e Ricardo, tomando a sua caixa de tintas, foi trabalhar junto à janela. Continuou a colorir o quadro que representava a Guida, e cujos traços ele havia corrigido pela manhã. As feições da moça, se não eram de uma semelhança perfeita, recordavam sem dúvida a gentileza de sua fisionomia.

Seriam onze horas do dia; fazia uma calma abrasadora. D. Joaquina e as pretas estavam recolhidas lá para o interior; Fábio, contra o seu costume, lia tão placidamente que causava suspeitas. Tudo na casa estava em silêncio. Fora, o Galgo tosava uns tufos de capim-melado; e a Nanica ciscava no terreiro em companhia de um galo e de um pinto.

A janela junto da qual trabalhava Ricardo, era de tacaniça, onde havia sombra; daí não se enxergava a frente da casa, nem a rua de cafezeiros e abacates que ia dar à cancela da entrada; por isso não pôde ele ver um grupo de cavaleiros que, parados no caminho, espiavam para descobrir alguma pessoa da casa.

Afinal avistaram uma das pretas velhas que saíra a apanhar gravetos para o fogo.

— Vem cá, mãe; você nos dá um pouco d'água? disse um dos cavaleiros.

— Sim, meu senhor; pode entrar, respondeu a preta velha abrindo a cancela.

Os cavaleiros invadiram a propriedade de D. Joaquina; a maior parte porém ficou à sombra das árvores; apenas alguns mais impacientes se aproximaram da porta, a fim de esperar a água. Essa impaciência não era produzida tanto pela sede que eles tinham, como pelo desejo de cada um em ser o primeiro a servir uma linda amazona, que esperava à sombra de uma laranjeira.

— Duvido que a tal velha tenha água bastante para matar a sede de tanta gente! observou um cavaleiro.

— Felizmente o rio passa perto.

— O melhor é irmos logo a ele; que dizes, Guimarães?

— Que espécie de copo nos trará a preta? Aposto que alguma xícara!

— Água em xícara!

— Senhores, esta casa está bem boa para uma fogueira de S. João. Não acham?

— É mais velha que a Tijuca.

— Quem morará aqui?

— Alguma velha caraça do século passado.

— Segundo tomo da sujeita dos cambucás!

Estes ditos mais ou menos chistosos, entremeados de riso, eram proferidos com intenção de divertir a gentil amazona. Mas esta, inteiramente distraída, estivera olhando com atenção o Galgo que se aproximara da cerca do pasto, apenas percebera a chegada dos outros animais; depois examinara a casa com uma expressão de surpresa desagradável.

O cavalo, sentindo as rédeas frouxas, andara alguns passos, o que o aproximara do canto da casa. Os olhos da moça caíram sobre a janela, junto à qual Ricardo estivera trabalhando. O álbum aberto ficara encostado à ombreira onde o desenhista o pusera para secar as tintas, antes de dar-lhe os últimos toques. Não aparecia o busto do moço; ao rumor das vozes na porta tinha-se ele voltado, e procurava distinguir a fala das pessoas.

O primeiro movimento da menina foi recuar o cavalo; porém seu olhar tinha descoberto na página aberta do álbum a paisagem recentemente pintada. Ela teve um pressentimento; e correu a vista rápida por seu talhe, verificando a semelhança que do primeiro relance se lhe afigurara.

Era o mesmo roupão verde-escuro, o gracioso chapéu de castor cor de pérola, e as luvas de camurça amarela. A estampa de Edgard completava a sua figura de amazona.

Nesse momento Ricardo, erguendo-se, descobriu o vulto da moça; ela corou reconhecendo a sua indiscrição; mas não obstante, um olhar afouto interrogou o semblante do advogado, fitando-se alternadamente nele e na paisagem.

Ricardo cortejara polidamente a moça, mas com esse movimento chegou-se quanto pôde à janela, e disfarçadamente ocultou o álbum.

— Estamos esperando a água que foram buscar! disse a voz maviosa de Guida, como uma desculpa, ou um pretexto para sair da situação em que o acaso a colocara.

— Ah! com muito prazer.

Voltando o álbum com o movimento que lhe imprimira furtivamente o braço, Ricardo colocou-o fechado sobre a mesa e recolheu-se ao interior para mandar trazer a água. Tudo isto foi executado de modo que se observaram as delicadezas devidas a uma senhora.

Guida, apesar da curiosidade imensa que tinha de ver a aquarela, se afastara modestamente.

Molhou os lábios no copo d'água que lhe apresentou um dos cavaleiros; e lançando um último olhar à velha casa e às velhas árvores que a rodeavam, partiu a todo o galope. Debalde os companheiros de passeio se esforçaram por alcançá-la.

No domingo seguinte, voltando Ricardo da Vista Chinesa, soltara as rédeas ao Galgo que esticava os músculos em um galope ligeiro.

De repente o animal retraiu as orelhas finas e vivas: tinha ouvido o tropel de outro animal, que vinha atrás a alguma distância, e também de galope. Pouco depois a estampa elegante de Edgard alongou-se pelo lado direito, e a Guida passou rapidamente voltando-se para ver se o cavaleiro a seguia.

O Galgo aceitando o desafio que Edgard lhe tinha lançado na passagem, juntara para arrojarse avante como uma flecha; mas a mão firme do cavaleiro o sofreara, privando-o do prazer de dar uma lição ao fidalgo.

Era a quinta vez que Ricardo inesperadamente, por uma singular combinação do acaso, encontrava aquela moça. A Tijuca não é muito extensa em verdade; mas oferece vários passeios e tem caminhos desencontrados. Entretanto, em direções opostas, em horas diferentes, com intervalos desiguais, uma coincidência estranha aproximava os dois desconhecidos.

— Se eu fosse algum dos muitos apaixonados que há de ter esta moça, dizia Ricardo consigo e continuando o seu passeio, havia de empregar os maiores esforços para preparar estes encontros casuais; andaria de relógio na mão, espiando a hora em que ela costuma sair de casa, estudando o programa habitual de suas excursões, a direção que toma frequentemente. E apesar de tudo isto, e das boas corridas que daria a cavalo, muitas vezes havia de perder o meu tempo e a minha paciência. Entretanto eu, que já não possuo relógio, que tenho apenas uma metade de cavalo, que saio de casa sem me lembrar de semelhante moça, não venho mais à Tijuca um só dia, que não a encontre uma e duas vezes. Caprichos da fortuna!

O moço conjeturou que a mestra e o criado, comitiva habitual da filha do milionário, tinham ficado atrás, e talvez a grande distância. A Guida naturalmente seria obrigada a esperá-los; e portanto teria ele um segundo encontro.

— Nada! pensou ele; e parou à sombra de uma árvore.

Mas a inglesa e o seu companheiro não apareciam; os minutos corriam; e Ricardo, surpreso, não sabia o que pensar, repugnando-lhe admitir a possibilidade de andar a moça sozinha por aqueles sítios desertos. Teria decorrido um quarto de hora quando ressoou do lado oposto o galope do cavalo.

— Querem ver que é ela que volta? Não há dúvida!

Era Guida com efeito; tendo passado o cavaleiro, estimulada pelo prazer vivo da equitação, arrependeu-se de haver deixado tão distantes os seus companheiros. Resolveu esperá-los. Naturalmente o moço não tardaria a passar; aquele encontro, num ermo, a incomodava; mas ela já o conhecia como um homem delicado; demais a mestra não podia estar longe.

A demora inquietou-a. Temeu que alguma cousa houvesse sucedido a Mrs. Trowshy, e que então se achasse realmente só naquela solidão. Já não era de Ricardo que se receava, mas do isolamento.

Por isso retrocedia de corrida o caminho percorrido.

Ricardo, apenas se persuadiu que era com efeito a moça, disparou a galope na direção da Vista Chinesa, a ver se escapava a novo encontro. Chegando à Mesa, viu Mrs. Trowshy sentada ao lado do Sr. Daniel conversando com o maior sossego.

O advogado passou como um raio, o que fez a inglesa fingir um desmaio, imaginando algum jovem salteador que a vinha raptar. O Sr. Daniel assegurou-lhe que os salteadores da Tijuca, chamados quilombolas, furtavam bananas, galinhas e outras cousas leves, mas não inglesas que pesassem dez quintais portugueses.

Nesse dia Ricardo chegou tarde para o almoço; mas livrou-se de segundo encontro.