Sonhos D'ouro/VII

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No próximo domingo, Ricardo montado no Galgo descia da Pedra Bonita, para onde naquela manhã dirigira o seu passeio.

A Pedra Bonita é uma rocha que se levanta sobre um cabeço de montanha como um gorro de granito. Daí, dessa atalaia das nuvens, goza-se uma vista soberba sobre o mar, e vê-se de perto o enorme cesto da Gávea, habitualmente cingido de vapores.

Como todos os belos sítios da Tijuca, a Pedra Bonita é muito frequentada pelos filhos da loura Albion, incansáveis exploradores desse belo arrabalde do Rio de Janeiro. Contam que um inglês aí se perdera, ficando sobre o gigantesco pedestal de rocha, elevado à condição de estátua, durante três dias, sem comer nem beber. Foi-lhe o penedo o contrário do outeiro da Ilha dos Amores: mais fácil de subir que de descer.

Também contam que nessa pedra, ou em outra que demora na mesma altura, entre as nuvens, algumas senhoras tendo lá subido foram obrigadas, para descer, a tirar os balões. O vento engolfando-se nas armações, ameaçava arrebatá-las à terra, levando-as de uma vez ao céu, pelo caminho do mar.

Os ingleses herdaram dos jesuítas um sétimo ou oitavo sentido, que possuíam em alto grau aqueles mestres da vida: é o sentido da higiene. Por onde passou a poderosa companhia, foi deixando conventos nas situações melhores, tanto pela salubridade como pela formosura. O inglês foi dotado do mesmo faro do belo e do saudável. Chegando ao Rio de Janeiro, volve os olhos para a cinta de montanhas que cerca a cidade, e considera isso um sobrado natural que a Providência construiu por cima do escritório para alcova de dormir.

Pese embora ao nosso amor-próprio nacional, eles naturalizaram inglesa a nossa Tijuca; fizeram daquela serra onde campearam os Tamoios, uma Escócia brasileira. O grito dos highlanders percorre as formosas encostas. Pelas grotas onde reboava primitivamente o brado selvagem da pocema, ouve-se agora repetido de vale em vale pela voz suave das amazonas o gracioso la-la-hi-ti.

Se quereis ver o que há de mais belo e encantador naquele arrabalde, procurai o conhecimento de algum filho da Grã-Bretanha. Ele conhece a Tijuca de uma à outra extremidade, desde a gruta mais funda até o pico mais alto. Sabe não só dos vários passeios, como do dia e da hora em que se deve apreciar cada um deles. Afinal, quando tiverdes visto toda a Tijuca já descoberta e explorada, o inglês inventará uma pedra ainda não conhecida e uma excursão pitoresca como a de subir à Gávea por um caminho de lagarto.

Ricardo vinha pensando que felizmente naquele dia escapara de encontrar-se com a Guida. Era este o quarto domingo depois que a conhecera, e seria o primeiro em que não a visse. O advogado não daria importância a esses encontros fortuitos se, além de serem eles contínuos, não se houvessem dado as circunstâncias especiais, que já conhecemos.

Felicitava-se porém o moço muito cedo. Numa curva da estrada achou-se em face de numerosa cavalgata, que tomava-lhe a passagem. Guida, que vinha na frente em companhia de algumas senhoras, exclamara:

— Ali está a flor, Clarinha. Não é tão linda?

— Aonde?

— Ali, um arbusto. Não vê? disse ela indicando o lugar com a haste do chicotinho.

— Vejo. Amarela...

— Cor de ouro.

Guida tinha parado, e todos os cavaleiros se gruparam de modo a ver o objeto que lhes excitava a curiosidade. Ricardo, havendo-se adiantado na esperança de passar, foi obrigado a demorar-se em frente do grupo.

— Onde vai a senhora, D. Guida?

Esta pergunta foi dirigida por um dos cavaleiros à moça, vendo-a impelir Edgard contra o barranco do caminho para aproximar-se do arbusto, que ficava cerca de duas braças ladeira abaixo.

— Já que nenhum dos senhores se lembrou de oferecer-me uma daquelas flores, que eu acho tão bonitas, vou eu mesma buscá-la.

— Não faça isto!

— É uma imprudência!

— Eu não consinto!

Com efeito havia temeridade no intento da moça. Quem foi à Pedra Bonita sabe quanto é ab-rupta aquela montanha; o caminho, bastante íngreme, atravessa encostas rudes, cortadas em rápido talude e profundamente sarjadas pelos sulcos das torrentes que descem do cimo da serra quando chove. Seria sumamente perigosa a descida por semelhantes barrancos, até mesmo para um animal solto.

Desprezando porém as advertências que lhe dirigiam suas amigas e companheiras, a moça fustigou o cavalo, que refugara. Castigado asperamente, Edgard descera alguns passos por um trilho, ou antes por um rego; mas, reconhecendo o perigo que havia em continuar aquela descida quase a pique, tomou rapidamente por outro rego que atravessava, e galgou o leito do caminho com grande esforço.

— Vai, Guimarães! disse um dos cavaleiros.

— Por mim, não tinha dúvida. Mas não há cavalo capaz de fazer isto.

Ricardo que assistia à cena, de parte, esperando ocasião de passar, não perdeu as palavras que pronunciara o Guimarães, e sentiu despertar-se-lhe o zelo pelos brios do Galgo. Aos 27 anos, o homem é ordinariamente temerário. A vida não representa ainda a seus olhos um cabedal, mas uma simples aspiração.

O moço avançou.

Por esse tempo continuavam os pedidos e admoestações a Guida para abandonar seu projeto; mas ela, indiferente ao que diziam em torno, a princípio rira do susto dos outros; mas agora, muito irritada contra Edgard por ter recuado, castigava o animal, que girava corcoveando. A amazona, forcejando para trazê-lo à borda do barranco, afinal o conseguiu, mas de uma maneira bem desastrada.

Com efeito, o cavalo, pungido ao mesmo tempo pelo freio e pelo chicote, perdera a sua calma habitual; irritou-se, e obrigado a fazer o que lhe repugnava, caminhava para o despenhadeiro, disposto, não a descer, mas a precipitar-se.

Felizmente Ricardo chegara a tempo. Inclinando-se, pôde segurar Edgard pelo freio, quando já levantava as mãos para pular. Obrigou-o então a voltar-se para o leito da estrada, e disse simplesmente à moça:

— Não desça!

Guida ficou imóvel acompanhando com os olhos o Galgo, que descia com admirável agilidade e firmeza o sinuoso barranco. Só havia para apoio do casco a estreita borda do sulco, por onde dificilmente andaria um homem a pé: e contudo o cavalo desceu e subiu sem vacilar um passo, com plena confiança na força e elasticidade de seus músculos.

Todas as pessoas que faziam parte da cavalgata acompanharam a descida e ascensão com surpresa e interesse. Os mais nervosos estremeciam com a ideia da desgraça, que podia acontecer ao desconhecido. Os outros sentiam uma comoção análoga à que lhes despertaria uma briga de galos, uma corrida de cavalos, ou talvez uma representação no circo.

Ricardo tinha partido do arbusto duas ou três hastes com flor. Era a mesma flor cor de ouro, que ele costumava colher nos seus passeios a pé, e que já por duas vezes fora testemunha de seu encontro com a moça.

Quando o cavalo, correspondendo dignamente ao nome, galgou com ligeireza o caminho, o advogado apresentou à moça o ramalhete que tinha colhido, e fazendo um cumprimento geral, apartou-se rapidamente da alegre cavalgata.

Ao passar entre os cavaleiros, ouviu uma voz que o chamava pelo sobrenome:

— Adeus, Nunes! Aposto que já não te lembras de mim?

O advogado reconheceu um de seus colegas de ano, a quem não vira desde a formatura.

— Ah! Guimarães?

Trocaram um aperto de mão com algumas palavras banais, e separaram-se.

Entretanto Guida, tendo prendido o raminho de flores no peito do roupão, continuara o passeio, acompanhada pelas outras senhoras e cavaleiros. Vendo aproximar-se o moço que pouco antes falara a Ricardo, dirigiu-lhe a palavra:

— Conhece este moço, Sr. Guimarães?

— É o Dr. Nunes. Foi meu colega de ano.

— Ah! Formaram-se juntos?

— E se não me engano, fizemos ato no mesmo dia.

— É bacharel?... disse Guida, como se completasse um pensamento interior.

Supunha talvez que Ricardo era um artista, algum pintor que percorria os sítios da Tijuca para copiar perspectivas, que mais tarde lhe servissem de assunto a algum quadro a óleo. O álbum de desenho, que o moço trazia habitualmente nos seus passeios a pé, e a aquarela em que ela se julgara reconhecer, deviam com efeito induzi-la àquele engano.

— Foi um dos primeiros estudantes do nosso ano. Moço de grande talento, porém muito pobre; dizem até que foi o tio, o Dr. Costa, quem o ajudou a formar-se.

— Que faz ele agora? perguntou a moça com interesse.

— Não sei. Creio que está aqui advogando; mas perde o seu tempo; não faz nada.

— Por quê? Não tem tanto talento?

— Mas de que lhe serve se ninguém o conhece? Servia-lhe mais ficar com metade do talento que tem, e a outra metade de proteção.

— Como proteção?

— Ora: negociantes que lhe deem boas causas e o recomendem a seus amigos.

A moça, lançando um olhar para o cimo da montanha que se desenhava no horizonte, mudou de repente o tom e o assunto da conversa.

— A Pedra Bonita ainda fica muito longe? disse ela nesse dúbio tom que vacila entre uma interrogação e uma afirmativa.

— Falta um bom pedaço.

— Ainda não passamos o Carneiro. O melhor é voltarmos; já está o sol tão quente! Hoje saímos muito tarde.

— Como quiser!

— Vamos voltar? perguntou a moça virando-se para consultar as amigas.

As opiniões dividiram-se; alguns desejavam a continuação do passeio apesar do tempo perdido com o episódio da flor; outros porém julgavam que era mais prudente voltar, à vista da hora adiantada e do intenso calor.

— Que horas são? perguntou uma senhora.

— Meia antes do almoço, respondeu Guida sorrindo.

— Neste caso voltemos! gritou a oposição.

Guida exagerava no interesse de sua causa. O almoço foi servido quarenta minutos depois, às dez horas em ponto. Cercavam a mesa perto de trinta pessoas.

Na cabeceira estava D. Paulina, a mulher do Comendador Soares, senhora de estatura regular, e bastante nutrida. Tinha na fisionomia um ar de bondade e singeleza que lhe conciliava a simpatia geral. Seus gestos eram acanhados; via-se que não estava a cômodo, nem se ocupava em desempenhar o seu papel de dona de casa. Esta senhora, que nascera para uma vida modesta, sentia-se acabrunhada pela riqueza, e opressa por esse luxo de ostentação que a envolvia e se apoderara até de sua pessoa. Seu vestido feito no rigor da moda era uma túnica de Nesso para aquele gênio pachorrento.

Na extremidade oposta, ou na outra cabeceira, estava o Comendador Soares, homem de cinquenta e cinco anos, de mediana estatura e talhe franzino, mas vivo e ágil, respirando saúde e alegria no rosto prazenteiro e no gesto animado. Trazia a barba rapada e o cabelo cortado à escovinha.

— Dr. Nogueira, não quer um pouco deste lombinho? Diz aqui o Bastos que não está mau.

— Está magnífico.

A pessoa a que se dirigira o Soares, era um homem de trinta e seis anos e parecer distinto.

— Obrigado, comendador! Nada mais.

— Pois eu vou a ele. Quem me acompanha? Aposto que o Guimarães?

— Está dito!

— O Sr. Guimarães deve ter bom apetite. Fez um grande passeio a cavalo.

— É verdade!

— Onde foram? perguntou Soares.

— Íamos à Pedra Bonita; mas não chegamos até lá. D. Guida quis voltar...

— Já era tão tarde!

— E perdemos muito tempo com a tal flor.

— Ai, que lá se vai o segredo.

— Que segredo?

— Ora; eu lhe conto, papai, disse a Guida. Queria apanhar uma flor, mas Edgard, que é um poltrão, teve medo de descer...

— Sim; mas que ladeira! quase direita!

— Ora. O outro cavalo não desceu?

— Com que risco!

— No fim de contas Edgard, zangado, ia-se atirando da montanha abaixo, quando um moço que passava, conhecido do Sr. Guimarães, agarrou-o pelo freio; e desceu para apanhar a flor!

— Se não fosse ele, quem sabe o que sucederia.

— O Sr. Guimarães deve apresentar-nos o seu amigo, não acha, papai?

— Decerto!

— Terei muito prazer. Encontrando-me com ele... ia respondendo o Guimarães.

Atalhou porém o Dr. Nogueira:

— A flor é naturalmente essa que a senhora tem no seio?

— Sim, senhor, é esta mesmo. Veja papai, como é linda!

— Muito! Quase que podias trazê-la como pingentes.

— Boa ideia, papai! Vou mandar fazer uns brincos deste feitio.

— Ficarão magníficos.

— E há de ser moda!

— Sr. Bastos, o senhor me há de fazer o favor?... disse a moça.

— Com muito gosto, D. Guida!

A flor corria de mão em mão; e teria se desfolhado afinal se a dona não reclamasse com instância para restituí-la à sua posição.

— Guida anda apaixonada por essa flor, disse D. Clarinha. Há mais de um mês que me fala nela.

— Será pela flor? perguntou o Dr. Nogueira com um sorriso malicioso.

Guida lançou-lhe um olhar, que era um alfinete embebido em aljôfar:

— Não é pela flor, não. É pelo senhor. Pois não sabia?

— Ah! se fosse, D. Guida, eu seria o homem o mais feliz do mundo, acredite!

— Bravo, bravo! E então, D. Paulina?

— Guida sempre foi muito apaixonada de flores, respondeu a senhora, aturdida por aqueles constantes diálogos que se cruzavam.

A moça respondera à fineza do Dr. Nogueira, inclinando altivamente a fronte, e soltando um irônico — “obrigada!”

Quando aplacou-se o rumor das risadas e exclamações provocadas pela declaração amorosa que, a título de fineza, lançara o Dr. Nogueira tão à queima-roupa, o Soares, ocupado em despachar conscienciosamente o lombinho de porco, pôde introduzir uma observação que lhe acudira.

— Ande lá, Dr. Nogueira, creio que não é o senhor o único. Há mais quem pense da mesma maneira!

— Decerto, disseram quase ao mesmo tempo o Guimarães e o Bastos, um enrubescendo, o outro empalidecendo.

Talvez que outras exclamações mais submissas viessem aos lábios, e outros rubores mais tímidos subissem às faces; mas não se animaram a aparecer. Perderam-se nos aplausos com que foi recebida a observação do dono da casa.

— Está bom, disse a Guida, a quem o tema da conversação não agradava; ninguém quer saber disto agora, papai; mudemos de assunto.

— Pois muda tu, que nisso de mudar, as mulheres estão no seu elemento.

— O que não é muito lisonjeiro para os homens.

— Conforme.

— Mas escute, papai. Estou resolvida a vender Edgard. Depois do que me fez hoje, não posso mais suportá-lo. Quer comprá-lo?

— Não; eu cá, não deixo a minha mula paulista. Esses cavalos da moda, que vocês apreciam por serem muito grandes e muito caros, não me servem.

— Então compre para mamãe.

— Pois não! Que lembrança! acudiu D. Paulina.

— Nada. Contigo não quero negócio, replicou o Soares. Dizem por aí que eu sou um espertalhão; mas ainda está para ser a primeira vez que não me logres.

— Qual, papai! exclamou Guida sorrindo. É o senhor que se engana a si mesmo; o pai logra o capitalista!

— Muito bem!

— Será isso então! replicou o Soares rindo com prazer.

Acabara o almoço. Guida, com uma cortesia geral, deu o exemplo levantando-se da mesa.

Ela exercia esse direito por uma delegação tácita da mãe, incapaz de tomar por si tão grave resolução. O Soares, que poderia adverti-la com um sinal, estava inibido de o fazer. Se nos dias de trabalho o capitalista almoçava a vapor, nos domingos tinha saudades da mesa e custava a separar-se dela.