Stella (1864)

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Stella
por Machado de Assis
Poema publicado em Chrysalidas (1864). Agrupado posteriormente em Poesias Completas (1901).
Obra com ortografia atualizada disponível em Stella (ortografia atualizada).




Ouvre ton aile et pars...

Th. Gauthier.

Já raro e mais escasso
A noite arrasta o manto,
E verte o ultimo pranto
Por todo o vasto espaço.

Tibio clarão já córa
A téla do horisonte,
E já de sobre o monte
Vem debruçar-se a aurora.


Á muda e torva irmã,
Dormida de cansaço,
Lá vem tomar o espaço
A virgem da manhã.

Uma por uma, vão
As pallidas estrellas,
E vão, e vão com ellas
Teus sonhos, coração.

Mas tu, que o devaneio
Inspiras do poeta,
Não vês que a vaga inquieta
Abre-te o humido seio?

Vai. Radioso e ardente,
Em breve o astro do dia,
Rompendo a nevoa fria,
Virá do roxo oriente.

Dos intimos sonhares
Que a noite protegera,
De tanto que eu vertera
Em lagrimas a pares,


Do amor silencioso,
Mystico, doce, puro,
Dos sonhos de futuro,
Da paz, do ethereo gozo,

De tudo nos desperta
Luz de importuno dia;
Do amor que tanto a enchia
Minha alma está deserta.

A virgem da manhã
Já todo o céu domina....
Espero-te, divina,
Espero-te, amanhã.