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Suspiros poéticos e saudades (1865)/A Afflicção

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XV.
 
A AFFLICÇÃO.
 
Não, não é sangue; é fel envenenado,   Que em minhas veias gyra.Não, não é vida; são espinhos hirtos,São hervados acúleos, que incessantes   O coração me pungem.Não, não é ar; é o halito da morte,   Que o peito me comprime.Não são do mundo as scenas que me envolvem;   São as scenas do Inferno. É possivel, meu Deos, que tanto soffraUm misero mortal, e qu’inda viva?   Queres ver do teu servoA alma, de padecer já calejada,Sem murmurar, sem blasphemar, té onde   A paciencia leve?Em mim acaso novo Job preparas?Ou o meu coração não é de humano,Ou a dôr já o tem empedernido   Co’ o reiterado embate.
Oh meu Senhor, pequeno é o meu peito,Para conter um coração repletoDe tantas afflicções, de angústias tantas.   Tira-me a própria vida,   Tira-me o sentimento,Ou com triplice lamina de ferroFórra meu peito, e meus ouvidos cobre.
   Oh dever de homem probo!Hei de eu como uma incude duros golpesSuportar insensivel, sem queixar-meDe quem martyrios taes sem dó me causa? Sem dó?.. e talvez mais; sem um remorso!   Tu Zeno, assim me ensinas;   Philosophia austera,Eu sigo a tua lei, por ti me guio.   Oh, que esforço é precisoNa idade do prazer, e do interesse!
Eu chorei, e meus olhos se seccaram;Nem mais em nova dôr lagrimas novasTerei para chorar; as dôres todasMe fizeram tragar seus amargores;Não ha mais dôr que apresentar-me possaNova taça de acético veneno.
   O triste solitario,Que em aspero deserto transviado,De improviso se vê acommettidoDe crueis serpes, que o pescoço lhe atam,   E lhe cravam no peitoAgudas presas de peçonha cheias,   É a horrivel imagemDo estado meu, do meu duro martyrio.   Mas quem poderá crer-me? Quem póde avaliar minhas angustias?Mimosos do prazer, eia, deixai-me;De vossa compaixão não necessito;   Vosso riso me offende.
Estala, coração, estala, acaba!   Não tens uma só fibra,Que ao golpe de uma dôr não retinisse.Porque não deixas o meu corpo, oh alma?Que fogo de esperança inda te anima?Oh esperança, quasi que me foges!Não ha consolação para o infelice,Que longe de seus pais, da Patria longe,   Definha entre pezares.
Que, oh mundo, com dôres só misturasAs lições que nos dás? A experiencia   Só com dôres se colhe,Como uma flor de espinhos guarnecida?São inuteis os livros, e os conselhos?   É tudo a experiencia?A experiencia é só quem nos ensinaA sciencia da vida?
   Oh infantil vaidade!Vós, oh jovens, cuidais que sabeis tudo,As paginas de um livro apenas lendo.Dos velhos desprezais os sãos conselhos,E orgulhosos dizeis: — Hoje a velhiceLições deve tomar da juventude;Hoje de nossos pais á cima estamos.Moço sou, como vós sabio julguei-me;   Como vós illudi-me.
Hontem fagueira a sorte se mostrava,   Ria-se a Natureza,E em sacros laços de amizade estreita   Os homens se apertavam.Hoje terrivel tempestade brama,Os homens se repellem, se debatem,Como rábidas féras nas florestas.
   Mysterioso enigma,Inexplicavel Ser, capaz de tudo,Fonte de vicios, de virtudes fonte,Que edificas, que assolas, e que sempreDe ruína em ruína ovante marchas,    Como um Genio de morte,   Dize, o que és tu, oh homem!
Cala-se a Natureza, e só resôa   Um grito doloroso   Dos tumulos erguido;Como um gemido de agoureiro Mocho,Quando sobre destroços esvoaça.
   No peito a dextra applico;Palpita o coração fraco e pausado;Attento escuto, as pulsações calcúlo;   Não me agita o remorso,Nem espectros a noite me apresenta;E minha alma tranquilla na tormenta   Como um firme penedo,Nem a sombra de um crime a entenebrece.Doce consolação de um peito afflicto!
Oh unico juiz incorruptivel,Oh meu Deos, ante quem brilha a verdadeMais clara do que o sol; a cujos olhosO mais pequeno verme iguala ao homem, E a Natura descobre os seus arcanos;Tu, que o meu coração penetrar podes,Julga tu só, e vê si são meus erros   Iguaes ás minhas dôres.
Enganar-te, meu Deos, não póde o homem!Si feia iniquidade n’elle habita,Si mereço o que sofro, ah deixa, deixaQue os inimigos meus de mim se vinguem.Não me attendas, Senhor; meus áis despreza.   Deixa expiar meus errosNa terra onde este pó ao mal me prende,Antes que eu suba ao tribunal eterno.Mas si falla a innocencia em meu soccorro,Mostra a verdade, salva-me, e absolve   Aquelles que me infamam;Que eu os pérdôo, oh Deos; por ti o juro;Sou Christão; — e o Christão soffre, e perdôa.