Til/II/XIII

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Til por José de Alencar
Segundo Volume, Capítulo XIII: A bolsa

Naquela manhã Jão Fera saíra das brenhas, onde se acoitava, à mesma hora em que Berta chegava à tapera para ver Zana.

Vinha o capanga sombrio e torvo mais que de ordinário, porém sobretudo absorto em funda cogitação, e tão alheio de si, que não se apercebia do lugar por onde passava, nem dos objetos que o cercavam.

Devia ser poderosa a preocupação que assim o demovia da habitual desconfiança, bem como das precauções, indispensáveis na sua condição de foragido, e reclamadas pela perseguição de que era alvo.

Assim não ouviu ele um ruído subterrâneo, que ressoou-lhe embaixo dos pés; ou, se ouviu, não fez reparo, atribuindo a algum animal, que estivesse a abrir a toca.

Era o Brás, o qual antes de aproximar-se da tapera, onde encontrara Berta, ali andava cavando com a apá, achada no esqueleto de um burro, a terra que tirava com as mãos e o chapéu.

Havia nesse lugar uma pequena estiva, feita sobre um socavão pelos antigos moradores do sítio, para serventia da roça. Com a ruína da casa, desapareceram as plantações, e do caminho só restava aquele carreiro, e o aterro que aí tinham posto.

Aproveitando-se da configuração do terreno, gizara Brás com instinto perverso aluir as ribanceiras do grotão, para que faltando apoio às extremidades da estiva, um dia se abatesse ela com o peso de Jão Fera, que rolaria pelo barranco abaixo.

Mal ouviu reboar um passo forte, deitou o idiota a cabeça fora, e verificando que era o próprio capanga quem passava, arreganhou-lhe os dentes o riso cru e aparvalhado, que frequentemente vinha aos lábios do homúnculo, como uma bolha de pez a ferver.

Entretanto prosseguia lentamente Jão Fera seu caminho; senão que ao passar perto da tapera, e como subitamente arrancado aos pensamentos que o tomavam, manifestou seu gesto, à vista da casa em ruínas, uma espécie de terror e espanto, que o fez acelerar o passo e afastar-se quase em fuga.

Sabia o capanga que àquela hora costumava Berta aparecer na tapera onde tantas vezes a tinha encontrado, e era dela que fugia, dela a quem não se animara a rever desde a cena da azinhaga no dia da tocaia.

Quando três dias antes partira espavorido daquele sítio ao ver o relicário de que Berta lhe oferecera o cordão de ouro, correra por algum tempo sem consciência de si, mas acossado por uma lembrança que o pungia, como o aguilhão da mutuca no lombo do tapir.

Recobrada a calma, achou-se à borda da estrada, que em sua carreira por dentro do mato ele perlongara sem o sentir. Soava perto um tropel de animais, e Luís Galvão apareceu na volta do caminho. Seguindo pela batida na orla da estrada, o animal ia passar rente com o capanga, oculto pela cepa de uma gameleira.

Foi um momento de colisão para Jão Fera. Aí estava ao alcance do braço, e à mercê de um movimento seu o cumprimento de sua palavra, que ele não podia doutro modo libertar. Mas o olhar cintilante de Berta, e o gesto de seu desprezo se debuxavam ainda ao pensamento do facínora como um anátema.

Luís Galvão passou incólume; e Jão Fera encaminhou-se à venda do Tinguá.

Esperava-o aí o Barroso, que mal avistou-o no terreiro do rancho, logo saiu-lhe ao encontro, impaciente de receber a nova.

— Arrependi-me! disse-lhe o capanga secamente e com um olhar de chumbo.

— Humh!... exclamou o outro azoado com a palavra.

— Não se fez nada.

— Por quê?

Podia o capanga arranjar uma desculpa; mas repugnava-lhe a mentira.

— Não quis! respondeu lacônico.

— Está galante a embroma! rascou o Barroso com rinchavelho de cólera. E vem dizer-me isto com toda a frescura!... Mas a culpa tenho eu em fiar-me num tratante da sua laia.

A última palavra não a acabou de proferir, que dum revés da mão o capanga o lançou ao chão, calcando-lhe a alpercata ao peito. Viu ele descer ameaçadora a coronha do bacamarte e fechou os olhos. O Bugre ia esmigalhar-lhe a cabeça, como se faz com um reptil.

— O que te vale é estar eu em dívida contigo. Mas o São João não tarda; e até esse dia duma ou doutra forma hei de desempenhar minha palavra. Então ajustaremos esta conta.

Afastando de si o corpo do miserável com a ponta do pé, entrou na venda para beber um martelinho de cachaça. Debalde o Chico Tinguá quis tirar conversa; o taciturno capanga, na introversão d'alma, nem se apercebia da presença do amigo.

Onde e como obter a soma necessária para resgatar sua palavra, ele que só conhecia um meio de ganhar dinheiro, e nunca tivera outra profissão a não ser a de matador?

Sem aquela quantia, como livrar-se do empenho que tomara, senão dando conta da tarefa, e incorrendo portanto no desprezo e aversão de Berta, que jamais lhe perdoaria?

Eis a ânsia em que se debatia a alma de Jão Fera.

Após longa obsessão, ergueu-se impelido por uma ideia, que de repente acudira, e sem despedir-se partiu. Saído ao terreiro, no lugar onde há pouco se encontrara com Barroso, seus olhos baixos deram com um objeto, que lhe causou reparo. Era uma bolsa de couro, e parecia recheada de moedas.

— Ó Chico!

Acudindo o vendeiro, Jão empurrou com a coronha do bacamarte a bolsa:

— Guarda isto para entregar àquele safado!

Não tinha andado cem braças o capanga, quando ouviu os psius do Tinguá a chamá-lo. Era o caso que sentindo o Barroso falta da bolsa, voltara por ela, justamente quando o vendeiro entrava para guardá-la; e, sabendo que a achara o capanga, deixou-lhe uma moeda de alvíssaras, talvez com esperança de aplacá-lo. Para entregar essa gorjeta correra o Chico ao alcance de Jão.

— Toma para ti. Eu não aceito dinheiro de semelhante peste.

E sem mais foi-se.

Pouco além, ganhando um atalho para desviar-se da estrada, lobrigou ao longe um vulto entre a folhagem.

Era um mascate, dos muitos que percorrem a pé os circuitos das cidades do interior, onde se demoram semanas a vender pelas fazendas e arraiais.

Descansava, à sombra de uma árvore, da excursão que já tinha feito naquela manhã, e da qual lhe surtira bom lucro, pois estava ele entretido em contar os miúdos, que tirava da algibeira da borjaca. Colocando-os, uns sobre outros, formava os maços de dez, aos quais ia acomodando em uma grande carteira de marroquim azul, aberta diante dele sobre a grama, e já bem fornida de notas.

Ao lado, estava a maleta de joias e miudezas, que ele costumava trazer às costas, presa por uma correia, e um grosso bordão ferrado, que servia ao seu braço musculoso, não só de arrimo à fadiga, mas de arma formidável para a defesa.

Muito embebido estava o italiano em seus cálculos, pois não percebera a aproximação de Jão Fera, que em pé atrás do tronco, e a dous passos dele, o tinha em seu poder.