Til/III/VII

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Til por José de Alencar
Terceiro Volume, Capítulo VII: Fascinação

Quando Berta abriu a porta da alcova em busca do chapéu, Linda veio ter com ela:

— Onde vai?

— Ali, já volto, respondeu Berta iludindo a pergunta, e sôfrega por evitar conversa naquele instante.

— Guarde seu segredo! tornou Linda ressentida do modo frio por que lhe respondera.

Conhecendo que se agastara a amiga, cingiu-lhe Berta a cintura com um braço, e impediu assim que ela se afastasse.

— Olhem a curiosa! Zangou-se porque não lhe disse onde vou? Ah! Quer saber? Pois eu lhe conto; depois não fique aí vermelhinha como uma pitanga. Escute!

Aproximando a boca ao ouvido de Linda segredou-lhe com malícia:

— Vou à casa, buscar Miguel para que ele venha decidir a nossa aposta, e dizer se eu menti afirmando que ele morre por certa pessoinha muito nossa conhecida.

À proporção que falava a travessa da Berta, abrasava-se a concha nacarada da orelhinha de Linda, enquanto os longos cílios velando os brandos olhos, ensombravam docemente a sua face enrubescida.

Quando pronunciava baixinho as últimas palavras, viu Berta uma formosa cabeça magana e brejeira, que se insinuava arteiramente entre seus lábios e o ouvido da companheira, soltando estas palavras com um tom de motejadora confidência:

— Eu também entro no segredo!

Era o Afonso.

— Ai! exclamou Berta, sentindo nos lábios o roçar do buço macio que pungia a face do mancebo.

— Que abelhudo você é, mano! acudiu Linda, um tanto contrariada por não ouvir o resto do que tanto lhe interessava.

— Não disfarce, menina, você mesma é que me disse que Inhá estava me chamando para dar-me um bei...

— Um beliscão! atalhou Berta cravandolhe no braço a unha rosada, mas rija como a garra da araponga.

E abrindo rapidamente a porta, ganhou a alcova, com o sentido de fechar-se por dentro e evitar assim a desforra que o Afonso não deixaria de tomar e que ela bem suspeitava qual fosse.

Mas transtornou-lhe todo o plano o maganão, metendo de pronto o joelho à porta, antes que a chave desse volta. Começou então uma luta, que devia terminar pela derrota de Berta, apesar do petulante arrojo da menina, habituada aos folguedos de rapazes, e da galanteria com que Afonso moderava o seu impulso, a fim de não molestar a sua gentil competidora, e também para não lograr tão fácil a vitória.

Mas teve Berta um aliado, com o qual não contara o moço. Linda acudiu à amiga, como a formiguinha que mordeu o calcanhar do caçador para salvar a rola. Achegando-se ao irmão sorrateiramente, fez-lhe cócegas.

Afonso era árdego; estremeceu, rindo como um perdido, e apartando os cotovelos, para se desvencilhar da irmã, sem abandonar o posto.

— Assim, Linda! gritava Berta.

— Espera, sonsinha, que tu me pagas! dizia o Afonso no meio das risadas.

— Deixe a outra! acudia Linda.

Apertado entre dois fogos, voltou-se rapidamente Afonso, para fazer face à irmã, enquanto com as costas empurrava a aba da porta. Vivo e pronto como foi esse movimento não evitou que Berta com extrema agilidade, aproveitando-se da breve intermitência em que a fechadura aderiu ao batente, desse volta à chave.

Ficou de todo o ponto azoado o Afonso; e Linda, vendo-lhe a cara desconsolada, soltou uma risada gostosa.

Nisso repercutiu um grito; era de terror ou talvez de aflição; e vinha de dentro da alcova.

— O que foi, Berta? exclamou Afonso.

— Inhá, Inhá, é você! balbuciava Linda sufocada pelo susto e abalando a porta.

— Abra depressa! instava o moço cheio de inquietação.

Não tiveram resposta estas perguntas ansiadas e instantes. Reinava dentro grande silêncio, apenas cortado por um tinido vibrante, que arrepiava como o áspero trincar da lima no ferro.

— É graça; ela quer nos assustar! dizia Afonso disfarçando para consolar a irmã, porém angustiado por um terrível pressentimento.

Ao mesmo tempo, curvado, espiando pelo espelho da fechadura, investigava o interior quanto lhe permitia a estreita abertura por onde passava o olhar. A luz que entrava pelas janelas abertas esclarecia o aposento; assim via o rapaz distintamente o centro da parede fronteira, onde estava colocado o toucador da irmã. Com muito esforço, inclinando-se o mais possível à direita, percebia a orla do cortinado desfraldado pela cabeceira da cama.

— Viu-a? perguntou Linda que não cessava de chamar pela amiga.

— Não! respondeu agoniado o irmão.

— Basta, Inhá! disse a filha do fazendeiro, com o tom suplicante. Você nos aflige com esta brincadeira.

— Qual! Ela é pirracenta! replicava Afonso rindo-se para animar a irmã. Mas logo, quando eu a pilhar, há de arrepender-se. Eu cá me contento com uma dúzia; e você, Linda?

Assim galhofando, Afonso aplicava alternativamente os lábios e os olhos ao orifício da fechadura, para falar a Berta, e ver se ela dava sinal de o ouvir.

De repente pareceu-lhe que uma sombra se interpunha entre a porta e o toucador; e afirmando a vista reconheceu o vulto de Berta, que oscilava. Cuidou que a menina, para fazer-lhe negaça, estava de brejeira a bambolear o corpinho.

— Lá está ela se faceirando! exclamou Afonso cheio de contentamento.

— Aonde?

Lembrou-se, porém, o moço que Berta voltava-lhe as costas, em vez de virar-se para a porta, como era natural. Querendo verificar esse reparo, já não o pode, porque a sombra vacilara e desaparecera.

Sofregamente buscava ele de novo enxerga-la; e não o conseguia, quando casualmente seus olhos caíram sobre a face polida do espelho, que ornava o toucador de mogno.

Uma surda exclamação, que o moço não teve tempo de sufocar, lhe prorrompeu dos lábios.

— Ah!

— O que é? interrogou Linda transida de terror.

— Não sei o que ela tem... Sentou-se... Parece que caiu.

Estas palavras, proferiu-as o moço ofegante, recalcando as palpitações violentas, que lhe talhavam a fala, e sem tirar os olhos do espelho do toucador.

Fora ali que vira desenhar-se a imagem de Berta, sentada sobre o pavimento, com o talhe acabrunhado por súbito desmaio das forças; mas a cabeça promovida por um rígido impulso, e as negras pupilas dilatadas em um olhar fixo, estático, de vítreos lampejos.

Não se enganara Afonso; Berta se voltava com efeito para o interior, pois sua imagem refletia-se de frente no espelho. O que olhava, porém, ela com a vista assim pasma? Ansiava o moço por descobrir e não tardou muito.

Na borda inferior do espelho, sobre o friso da moldura de mogno, surgiu um ponto que foi a pouco e pouco avultando. Era a cabeça chata de um animal, coberto de três ordens de escamas transversais dispostas sobre um couro de pardo fulvo mosqueado de preto.

Um brado de horror escapou da gorja angustiada do mancebo, que recuando se arremessou com desespero, para espedaçar a porta.

Mas essa era da cabiúna; e desafiava as forças de muitos homens.

Linda caíra quase desfalecida sobre uma cadeira, ao ver a angústia e o espanto do irmão, o qual, reconhecendo a inutilidade de seus esforços contra a porta, se precipitara para o terreiro, com a idéia de saltar pela janela no interior do aposento.

Nesse momento, e como um eco de seu brado de terror, ouviu-se também do lado do canavial um grito, senão era uma gargalhada selvagem, semelhante ao grasnar do maracujá.