Til/III/XI

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Til por José de Alencar
Terceiro Volume, Capítulo XI: A furna

Em meio da penha, que atravessava a mata virgem, por entre o embastido da folhagem, fendia-se a estreita boca de uma caverna.

Era a furna de Jão Fera.

Não tinha essa caverna traços de primitiva formação, quando o fogo subterrâneo vazara o esqueleto granítico daquele fraguedo; nem mesmo provinha de algum aleijão vulcânico, desses que às vezes subvertem as entranhas da terra.

Antigamente o que havia ali era apenas uma grande laje, entalada na garganta do rochedo.

Uma semente de jetaí, trazida pelo vento, caiu aí numa greta da pedra e brotou. Cresceu a vergôntea, mas encontrou a escarpa saliente da rocha que lhe ficava sobranceira, e foi insinuando-se por uma brecha do alcantil.

Estorcendo-se como um cipó de umbê, para acompanhar as sinuosidades do estreito lisim, afinal surdiu fora no alto do penhasco. Apesar de comprimido entre a escacha da rocha, o cepo nutrido pelo humo exuberante que depositava sobre a laje o enxurro do monte, medrou, inseriu-se por todas as fisgas de pedra, e fez-se tronco.

Um dia estalou o penhasco; e subitamente escalado, um estilhaço do alcantil rolou sobre a laje. Amparada de um lado pela curva do tronco, e do outro retida por uma aresta da fronteira escarpa, a grande lasca ficou suspensa na altura de alguns pés, formando assim a abóbada da gruta, fechada em torno pelos rochedos abruptos.

Como uma poderosa alavanca trabalhara o tronco robusto do jetaí durante longos anos para escalar o penedo; mas este, por sua vez, caindo sobre o rijo madeiro, começou a verga-lo sob o peso enorme.

Resistiu a árvore por muito tempo; afinal a sua copa frondosa que ensombrava a caverna reclinou-se para o abismo, onde não tardaria a despenhar-se, arrastando-a, o estilhaço que ela escachara do rochedo e sustinha aos ombros.

Foi então que Jão Fera, à procura de um esconderijo, descobriu a caverna, e querendo conserva-la, atochou uma pedra roliça entre a laje e o jetaí, justamente por baixo do ponto onde assentava a abóbada.

Desse modo, enchendo o vácuo que havia sob a volta do tronco tortuoso, e pondo-lhe uma escora, mantivera o capanga suspensa a grande lasca de rochedo; mas o seixo que servia de esteio, podia a cada instante com o peso romper-se ou escorregar esbarrondando a gruta.

Longe de inquietar, esta circunstância agradou ao Bugre, que dela se aproveitara para a sua segurança, como ele a entendia.

Deitado na cama feita apenas de molhos de sapé estendidos sobre a champa, Jão Fera com a cabeça na escabrura musgosa do rochedo que lhe servia de almofada, via pela fresta da caverna quanto passava nas faldas como nos píncaros do penhasco.

Quando por fatalidade o ameaçasse em seu covil tal força armada que lhe tirasse os meios de salvação, no último transe, perdida toda a esperança, bastar-lhe-ia deitado como estava meter o pé com força no seixo, para que este rolasse e partindo-se o tronco, o estilhaço tombasse esmagando-o a ele e a seus inimigos.

Se antes, enquanto dormia tranqüilo, a pedra se deslocasse com a dilatação do tronco, ou se aluísse a base sobre que assentava, nenhum cuidado lhe dava isso. Para ele, Jão, a vida fora sempre um contínuo perigo; sua índole precisava desse estímulo.

Poucos momentos depois da luta que travara com os caititus, chegava o Bugre à falda do rochedo, em cujo flanco estava a sua furna. Com alguns tiros mais conseguira livrar-se do bando de queixadas; e como um possesso deitara a correr para ali, em vez de refugiar-se em alguma das árvores próximas.

Atordoada com a velocidade da carreira e tomada ainda pelo susto do perigo a que escapara, deixou-se levar Berta nos ombros do capanga, sem resistência, até que ele parou no sopé do rochedo.

Então desprendendo-se de seus braços e travando-lhe das mãos com veemência, exclamou:

— Querem-no prender, Jão! Fuja! Eles não tardam!

O capanga levantou os ombros desdenhosamente, e fazendo menção de afastar-se, todavia parou a alguma distância, como se mão invisível lhe sofreasse a vontade. Assim permaneceu com o corpo lançado, a fronte abatida, e a mão fechada a calcar o peito revesso.

— Você não tem medo? replicou a menina vendo-o parado.

— Medo!... murmurou o Bugre. Eu tenho mesmo! E muito!

Com efeito bambeavam os músculos dessa organização vigorosa e atlética; tremiam-lhe as curvas, e todo ele mostrava-se abalado por grande pavor, que derramava em suas feições e no seu gesto uma espécie de alucinação. Parecia que o assombrava temerosa visão ou que o esvairava algum horroroso pensamento.

— Jão, eu lhe peço, Jão, fuja!

— Sim... sim... balbuciou o capanga. Eu queria fugir... para bem longe... Mas não posso! Não!

— Meu Deus, que tem você?

Esta exclamação, a arrancara dos lábios da menina o espanto causado pelo aspecto medonho do Bugre que voltara-se arrebatadamente e cravara nela um olhar ardente e sombrio, como a cratera de um vulcão.

Mal pensava Berta que naquele momento a ameaçava outra fera mais horrenda, do que não era a terrível cascavel fascinada por ela, e os sanhudos queixadas a cujas presas escapara um momento antes.

Seria então meio-dia.

A terra abrasada pelo sol exalava o bafo incandescente de uma fornalha; e contudo sentia Jão Fera correr-lhe pela medula um calafrio. O contato do corpo gentil de Berta queimava-lhe ainda o peito amplo; mas era a lava que ferve no meio dos píncaros gelados dos Andes.

Tinha ímpetos de atirar-se a Berta e só por um esforço inaudito conseguira conter o veemente anelo. Sua pupila fulva devorava as formas encantadoras; mas ele abaixava a cabeça para não encontrar os olhos límpidos da menina, onde irradiava uma alma tão pura.

Finalmente arfou o Bugre, sacudindo as robustas espáduas como um homem que dum arranco extremo rompe as cadeias que o prendem.

Depois fechou os olhos e avançou.