Til/III/XII

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Til por José de Alencar
Terceiro Volume, Capítulo XII: O assalto

Ao dar o primeiro passo, voltou-se o Bugre rapidamente, para ver o que lhe fossava o calcanhar.

Era o bacorinho ruivo, que chegando naquele instante, esbaforido pela rápida corrida, focinhava os pés do capanga, estirando a tromba para o lado do campo, e soltando um grunhido particular, se não era antes um burburinho.

Não hesitou Jão, à vista destes sinais. Tomando Berta nos braços outra vez, galgou aos saltos por cima dos calhaus e barrocos, agrupados na falda do rochedo, como os degraus de uma escada em espira; e sumiu-se com a menina no bojo da caverna.

Apenas o vulto do capanga desapareceu na sombra da gruta, ouviu-se farfalhar de leve o mato, que bordava as abas da penedia; e dentre a folhagem surdiram os canos de espingardas, cuja coronha parecia colada aos troncos mais grossos das árvores.

Houve um instante de silêncio.

As armas, prontas a desfecharem, permaneceram imóveis, talvez à espera de um sinal. Nenhum rosto ou figura humana assomou na cortina da floresta; nem mesmo se lobrigava qualquer vulto por entre a espessura.

Os assaltantes se tinham aproximado sorrateiramente, emboscados atrás do pau, saltando de um toco a outro, com receio da bala certeira, que o bacamarte do capanga podia mandar-lhes por entre as frestas da gruta.

Chegados à borda do mato, ficaram à espreita, com os olhos fitos na solapa, que servia de entrada à caverna, e as espingardas apontadas para aquele alvo aguardando um resultado, que não ousavam provocar.

Tão preocupados estavam de sua própria segurança, que não repararam em um acidente importante. A boca da furna, pouco antes de uma escuridão profunda, desvanecera um tanto; indício de que, ou se abrira na caverna alguma fenda por onde penetrava a luz, ou se fechara a entrada com alguma lasca de pedra, na qual se refrangia a claridade exterior.

Passado longo trato nessa expectativa, soou enfim uma voz a gritar por detrás de grosso tronco de árvore:

— Entrega-te, bugre do inferno, senão morres!

Não teve resposta essa intimação; mas a voz depois de curta pausa continuou a bradar:

— Chegou o dia!... Vais sentir o gonzo deste braço, e saber para quanto presta o Suçuarana! Agora é que se quer ver a fama! Salta cá para fora, caborteiro, se és homem!...

Calou-se um instante o Gonçalo para escutar, e não ouvindo rumor na caverna, prosseguiu:

— Estás com medo, hein!... A valentia que arrotavas de papo cheio, fez víspora, não é? A coisa cheira a chamusco; e vais tratando de por-te de molho. Pois olha, desta vez escusa de estares aí embromando, que não escapas, nem por artes do diabo.

Cada vez mais animado com o silêncio e placidez que reinava na caverna como em seus arredores, o Pinta chegou a destacar-se do tronco da árvore, ao qual estava colado e lhe servia de guarita.

Agitando então os longos braços e batendo no chão com a coronha da clavina, berrou ele:

— Estás filado mesmo, Bugre dos trezentos; e quem t’o diz sou eu, Gonçalo Suçuarana, que jurou cortar-te as orelhas, e aqui está para cumprir o prometido.

Ainda não teve resposta a arrogante bravata do Pinta. Mas um seixo desprendeuse do flanco do penhasco e rolou pela fraga abaixo com grande estrépito, aumentado pela natural repercussão do som nas grotas e barrancos do serrote.

De um salto, digno de onça, que ele tomara por seu xará ou tocaio, o Gonçalo alcançara o tronco protetor, e perfilou-se ao longo dele por tal modo, que não lhe aparecia fora a aba do chapéu sequer, ou a mínima dobra do poncho.

Tanto ele, como sua gente, cuidou que fosse aquele o começo das hostilidades por parte de Jão Fera; e com o dedo no gatilho, o olho da boca da furna, e o ouvido alerta para qualquer rumor, se prepararam para receber a investida do inimigo.

Bem viam que o Bugre não cometeria a imprudência ou tolice de apresentarse em face deles, na boca da furna, a descoberto, oferecendo-se como alvo aos tiros. Por isso, embora confiados no número, não deixava de invadi-los um terror vago com a lembrança de algum assalto brusco do capanga, favorecido pelos barrocos e fojos daquele sítio escabroso, que ele devia conhecer como sua casa.

Todavia, depois que rolou a pedra do alcantil, se restabeleceu o silêncio que sepultava constantemente esse ermo, e só era interrompido então pelo zumbir das abelhas, ou pelo estalido das articulações dos insetos a saltar sobre a grama.

— Qual! rascou o Gonçalo com seu costumado entono. O cabra não se atreve! Ele conhece o degas; e sabe que eu não brinco.

— Mas desta maneira não se arrocha o cujo! acudiu um da troça.

— isso não! atalhou o Pinta. Aposto em como ele já se pôs ao fresco, muito concho de si, porque pensa que pode escapulir. Mas sai-lhe a coisa às avessas, que lá está da outra banda o Filipe com os outros camaradas.

— Bem pode ser; mas eu duvido. Que necessidade tinha ele de sair da concha onde está muito a seu gosto?

— Lá isso é verdade! Assim não se faz nada; é preciso desencafuar o bicho!

— Então vá lá.

Deram os assaltantes uma descarga sobre a caverna, e no meio do estrondo dos tiros ouviu-se a voz aguda e estrepitosa do Gonçalo Pinta, que mandava o assalto em berros formidáveis.

— Avança, camaradas! Fogo! Matem-me este Bugre endiabrado! Depressa, antes que fuja o danado!

Apesar destas falas, o Gonçalo não se resolvia sair fora da precinta da floresta; e o seu arrojo de ataque não ia além de um passo distante do toco de árvore ao qual logo prudentemente se recolhia. Bem desejava ele que os outros executassem as vozes de mando independente de ato seu, mas não entendiam assim os camaradas que esperavam exemplo.

Cerca de uma hora decorrera nestas hesitações, quando ouviu-se da outra banda da penedia uma descarga de espingardas; e ao mesmo tempo um urro medonho.

Aquele brado retroou pelos antros e solapas do rochedo, arrepiou os assaltantes e encheu-os de horror e espanto, porque era em verdade um grito pavoroso de furor e sanha.

Assim foi com a fala trêmula e soturna que disse o Gonçalo aos companheiros:

— Está seguro o bicho!