Til/IV/II

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Til por José de Alencar
Quarto Volume, Capítulo II: Cravo branco

Ainda não se tinham desvanecido as emoções do primeiro páreo, que outra sorte mais engraçada punha em alvoroto a rapaziada.

A bola que servia de tope ao mastro, e sobre a qual estava pregada a boneca, era oca, e formava uma espécie de cabaz cheio de flores, frutos, confeitos e outras galanterias para quem fosse capaz de alcança-las trepando pela haste do pinheiro.

Não era pequena façanha essa; pois além da altura, o pau fino e roliço não dava jeito a que os rapazes se escorassem bem sobre os joelhos para com o impulso dos braços se irem içando à guisa dos marujos.

Este folguedo, reminiscência de antigos jogos de nossos avós, e ainda em voga em outros países com o nome de mastro de cocanha, divertia muito os rapazes, pelo seu chiste e novidade.

Se sucedia algum, apesar de seus esforços, escorregar de repente pelo pau abaixo quando estava já bem próximo de atingir a meta; ou se outro mais lorpa não conseguia suspender-se do chão, e ficava a patinar ao pé do mastro, tentando debalde sungar-se; eram chascos e risadas estrepitosas, que festejavam o malogro da porfia.

Mas nem por isso desanimavam os rapazes; e repousadas as forças tornavam à empresa, estimulados pelo desejo de esquecer a anterior derrota, e conquistarem uma flor, ou qualquer outra prenda que ofertassem à namorada.

Aproximando-se do mastro e rodeando-o, tinham os moços deixado sós, no canto do terreiro que antes ocupavam, Linda e Miguel.

Os dois estavam próximos e quase se tocavam; por um impulso comum, ambos fugindo à grande claridade, haviam procurado o tronco de uma palmeira, cuja sombra derramava sobre eles doce crepúsculo, enquanto a haste servia-lhes de abrigo contra os olhares curiosos.

Miguel ainda bebia o sorriso de Linda; e ela inebriada pelo triunfo que o moço alcançara, deixava-se libar pelos ternos olhos, como a flor acariciada pelo vento, que se dilui em perfumes.

Logo, porém, que o afastamento dos companheiros deixou-os sós, insensivelmente se retraíram. O braço de Miguel, que sentia ao roçar dos folhos da manga de Linda uma sensação deliciosa, estremeceu; de seu lado vexou-se a menina com esse frolo sutil das pregas de seu vestido, que antes ela recebia como uma doce carícia.

Quando a presença de tantas pessoas os separava, suas almas se estreitavam no olhar, se conchegavam no sorriso; e queriam influir-se uma na outra. Agora que nada se interpunha a elas, o isolamento as assustava; tinham medo de si mesmas.

— Não vai também ganhar sua flor? disse Linda indicando o mastro com um aceno de fronte.

— Quer uma? perguntou Miguel com gesto de reunir-se aos companheiros.

Ressentiu-se a menina daquele pretexto do moço para retirar-se, arrependida de o ter oferecido. Mas pensava que ele não aceitaria tão pronto.

— Para quê? Eu tenho esta que é tão bonita! acudiu ela mostrando um cravo branco, que lhe enfeitava o trespasse do lindo corpinho de cassa. Não é?

— Muito! balbuciou Miguel que vira não a flor, mas a polpa rosada do colo mimoso, debuxando-se entre as preguinhas do decote.

— Sabe o que significa?

— Não.

Frisaram-se os lábios vermelhos da menina para soltar a palavra; mas como as pétalas de uma flor que se desfolha, emudeceram deixando apenas escapar o perfume. Reclinou ela a fronte vergonhosa e repetiu dentro d’alma o que se não animara a dizer.

Como se operou tão rápida a transformação de Miguel que até a véspera esquivo e reservado com Linda, agora preso de seu encanto, se engolfava na ventura de sentir-se querido, e esquecia Berta, que ainda pela manhã lhe cativara o coração?

O mesmo é perguntar a flor como nasce. A semente que o vento lança na terra, sabe-se acaso, porque enfeza ou brota? Às vezes lá fica na eiva do rochedo, tempo esquecido, até que o céu lhe manda uma réstia de sol e uma gota de orvalho.

Assim aconteceu com Miguel. O germe desse amor, há muito o guardava no coração, desde que admirara pela primeira vez a beleza de Linda. Mas o afastamento natural em sua posição inferior; as suscetibilidades próprias de um caráter nobre; e, mais ainda, a sedução irresistível que exerciam em sua jovem imaginação a graça e lindeza de Inhá, tinham sopitado esse amor à nascença.

Quisesse Berta que Miguel não amaria senão a ela, e esqueceria de todo a imagem de Linda. Mas a menina, em vez de aceitar para si o afeto, só o queria para a amiga, cujo segredo ela pressentira havia meses.

Desde então se desvelara Inhá com extremosa solicitude em grajear para Linda a ternura de Miguel, e fazer a ventura de ambos. Nesse emprenho encontrava um obstáculo, que era sua própria gentileza, na qual se enlevava o mancebo; mas dela mesma o seu tato delicado soube tirar partido.

A beleza de Linda era para a imaginação ardente e poética de Miguel uma linda imagem sem calor e sem luz; estátua de jaspe imersa na sombra. Berta o compreendeu; e fez de sua alma a centelha que devia animar o mármore.

Inspirado artista, ela tirou de sua graça, como de uma rica palheta, as cores mais mimosas para retocar a figura vaga e suave de Linda. Vazou nos lânguidos olhos da amiga as rutilações de sua pupila brilhante; e enflorou com o seu feiticeiro sorriso os lábios onde se aninhara o suspiro.

De cada vez, um traço do ideal se estampava na fantasia de Miguel, que muitas vezes surpreendia sua alma na contemplação dessa virgem desconhecida, em que a formosura de Linda se perfumava com a faceirice de Inhá.

Naquela manhã, tinha Berta tentado mais uma vez a transfusão de seu espírito gentil na serena beleza da amiga, e então a favoreceu o acaso, fazendo que Linda se aproximasse, e que Miguel ainda fascinado pelo retrato que ela esboçara, visse graciosa e encantadora a virgem dos seus amores.

A confissão arrancada a Miguel transfigurou Linda como por encanto. Sua expressão melancólica embebeu-se de um júbilo sereno como o alvor da manhã; desprendeu-se o gesto da timidez que dantes a atava, e tomou inflexões ternas e apaixonadas. De toda sua pessoa manavam santos eflúvios do amor feliz, que lhe teciam de luz e perfume uma auréola celeste.

Miguel embebeu-se na adoração dessa beleza, que se revelava pela primeira vez à sua alma; e o enlevo durava ainda no momento em que se trocava com Linda frases truncadas.

A moça havia tirado do seio o cravo branco e respirava-lhe o aroma, roçando-o pelos lábios.

— Não disse o que significa? insistiu Miguel.

— O senhor sabe.

— Eu não! respondeu o moço com um sorriso.

— Sabe sim!

Houve uma pequena pausa, durante a qual a palavra adejou nos lábios de Miguel, enquanto na alma de Linda já ressoava a sua doce melodia.

— Casamento? balbuciou uma voz submissa.

Linda velou-se em uma nuvem de rubor. Com a confusão, naturalmente escapou-lhe a flor, que Miguel apanhou, e quis restituir; mas a mão trêmula da moça não recebeu senão a doce pressão.

— Quebrou-se o talo! disse ela rapidamente.

Era um motivo para rejeitar a flor, que não podia mais prender no decote, e o pretexto para dá-la ao moço em penhor de sua ternura. Fechando na palma o cravo, Miguel levou-o aos lábios e o beijou com efusão.

Berta, que a distância contemplava toda a cena com uma doce tinta de melancolia, sentiu arfar-lhe o seio, estremecido como a rola em seu ninho. Mas a mão comprimindo-o rápida, sufocou o turture queixume que se desprendia em um suspiro.