Um Club da Má Língua/V

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Um Club da Má Língua por Fiódor Dostoiévski
Capítulo V
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—Nastassia Petrovna, não seria mau ir deitar a sua rabisáca pela cozinha, disse ella apóz de haver acompanhado o principe. Palpita-me que aquelle traste do Nikitka é capaz de se tomar da pinga e deita-nos a perder o jantar.

Obedeceu Nastassia Petrovna. Á saída, olhou para Maria Alexandrovna e percebeu que estava animadissima a digna senhora. Em vez de ir vigiar o tratante do Nikitka, Nastassia Petrovna dirige-se a uma saleta contigua, d'alli, enfiando pelo corredor, vae ao quarto, e esgueira-se para um cubiculo de despejos, atulhado de bahús, de vestidos velhos e de roupa suja de toda a familia. Nos bicos dos pés, acerca-se de uma porta fechada, sustendo a respiração, e espreita pelo buraco da fechadura: Aquella porta é uma das três que abrem para a sala (está condemnada). Maria Alexandrovna sabe que a Nastassia Petrovna é velhaca, pouco delicada, de poucos escrupulos, e muito capaz de escutar ás portas. N'este momento, comtudo, Madame Moskalieva está tão preoccupada, que se descuida de toda e qualquer cautélla.

Senta-se n'uma poltrona e despede significativa olhadela á Zina. E a Zina a sentir o pêso d'aquelle olhar. Dá-lhe um pulo o coração!

—Zina!

A Zina volta com muito vagar para a mãe o descorado semblante e aquelles olhos sonhadores.

—Zina, tenho que te falar em negocio importante.

Está de pé a Zina; cruza os braços e espera. Deslisa-lhe pelo semblante expressão fugaz de despeito e de ironia.

—Quero perguntar-te qual é a tua opinião a respeito d'este tal Mozgliakov?

—Está farta de saber a conta em que o tenho, responde a Zina com modo constrangido.

—Pois sim, filha, mas está-me parecendo que se vae tornando um tanto ou quanto impertinente, atrevido; e em conclusão, aquella sua insistencia...

—Diz elle que me ama; se assim fôr, acho perdoavel a sua insistencia.

—Admiro-me de uma circumstancia: tu, d'antes, não o desculpavas, assim, tanto;... antes pelo contrario, eras, até, muito rispida para com elle, sempre que eu a elle me referia.

—E a mim, o que me causa admiração é outra circumstancia: A mamã, d'antes, estava sempre a defendêl-o, e é agora a propria a condemnál-o.

—Confesso que me sorria este casamento. Custava-me vêr-te assim sempre, tão triste.—Avaliava bem a tua tristeza,—pois sou capaz de a comprehender, seja qual fôr o juizo que faças a meu respeito.—Chegou até a tirar-me o somno! Em summa, estou convencida de que só uma mudança radical na tua vida te poderia salvar, e essa mudança, ha de ser o casamento. Não somos ricos, não podemos ir dar a nossa volta pelo estrangeiro. Os asnos que povoam esta cidade espantam-se de te ver ainda solteira aos vinte e três annos e inventam fabulas a tal respeito. Mas poderei eu dar-te por marido para ahi um conselheiro d'esta estupida cidade ou o Ivan Ivanovitch, nosso procurador? Haverá por aqui marido á altura dos teus merecimentos? É certo que o Mozgliakov é apenas um peralvilho, e com tudo isso, de todos elles, é ainda o mais acceitavel. É de boa familia, dôno de cincoenta mil almas: sempre valerá mais que um procurador que vive de propinas e á custa Deus sabe de que tranquibernias. E eis o motivo porque me lembrei d'elle. Tanto menos verdadeira simpathia me merecia, e tanto mais me convenço hoje de que era o Suprêmo Senhor quem me enviava semelhante desconfiança como advertencia. Pensa bem! Se porventura se offerecesse agora um partido mais vantajoso, não serias tu a propria a louvar-me de não ter até hoje dado a tua palavra a ninguem? Pois, ouso crer, Zina, que tu hoje, nada lhe terás dito de positivo.—Pois não é verdade?

—Para que servirão tantos rodeios, mamã? quando podia muito bem ter-me dito tudo isso em duas palavras, replica a Zina com modo resoluto.

—Rodeios, Zina! Serão coisas que se digam a tua mãe? Ah! Vejo que de modo nenhum te mereço confiança! Consideras-me como inimiga muito mais do que como mãe!

—Acabemos com isto, minha mãe. Parece-lhe bonito ficarmos para aqui a fazer questão de palavras? Não estaremos fartas de nos conhecermos uma á outra?

—Repara em que me estás offendendo, minha filha. Pois não vês que estou resolvida a tudo, a tudo, comtanto que tu sejas feliz?

A Zina põe-se a olhar para a mãe com aquella singularissima expressão de despeito e ironia.

—Não estará morrendo por que eu case com o principe para complemento da minha ventura? pergunta a joven com extranho sorriso.

—Nem sequer te disse uma palavra a semelhante respeito, mas visto que isso veiu á teia, dir-te-hei que, se fosse possivel, representaria para ti a felicidade, effectivamente.

—Pois eu acho isso pueril, exclama a Zina toda assommada, pueril, pueril e mais que pueril! e acho, ainda, que a mamã é dotada de excessiva imaginação: é uma mulher poetica; e tanto mais que é assim que a classificam em Mordassov. Está sempre a fazer planos. Nem lhe mettem medo impossibilidades. Assim que vi o principe, tive um presentimento, de como não deixaria de lhe accudir semelhante ideia. Quando o Mozgliakov mettia o caso a ridiculo e pretendia que era urgente casál-o, li no semblante á mamã o pensamento. E d'ahi, foi para me falar n'esse jarreta que a mamã principiou por se referir ao Mozgliakov. Mas esses seus sonhos aborrecem-me de morte, não sei se sabe? E peço-lhe que fiquêmos por aqui!... Nem mais uma palavra, entendeu, mamã? Nem mais uma palavra! Peço-lhe que tome a serio isto que acaba de ouvir da minha bocca.

—És uma criança, Zina, uma criança doente, e com mau genio! responde Maria Alexandrovna em voz meliflua; e estás-me faltando ao respeito.—Offendes-me! Não ha mãe que aturasse o que eu te tenho aturado! Mas padeces, e eu acima de tudo sou christã. Vou aturando, e perdôo-te. Responde-me a uma pergunta, só e mais nada, Zina. Vamos que eu, effectivamente, tivesse sonhado semelhante alliança, onde é que está a puerilidade?—Quanto a mim, nunca o Mozgliakov falou com tanto acerto como ainda agora, quando tentava demonstrar que o casamento é uma necessidade para o principe. O disparate era o ter-se lembrado d'aquella fufia da Nastassia.

—Mamã, declare-me com franqueza, se me está dizendo isso por méra curiosidade ou com um fim qualquer.

—Peço-te que me respondas: onde vês tu n'isto puerilidade?

—Que aborrecimento! Triste sorte é a minha! exclama a Zina a bater o pé. Vou dizer-lh'o, se é que ainda o não percebeu: aproveitar o ensejo d'esse velho se achar caído em demencia para o enganar, para o desposar, assim, enfermo e caduco, para lhe extorquir o dinheiro e andar todo o santo dia a desejar-lhe a morte, representa, a meu vêr, não só uma puerilidade, mas uma vilania, e não serei eu quem lhe dê os parabens por semelhante ideia, mamã.

Silencio.

—Zina, já te esqueceste d'aquillo que se passou ha dois annos? pergunta de chofre Maria Alexandrovna.

Estremece a Zina.

—Mamã, profere com accentuada seriedade, lembre-se de que me prometteu não me tornar a falar em semelhante coisa.

—Pois bem, minha filha—que eu até hoje ainda não tornei a dizer-te uma palavra—peço-te que por uma vez tão somente me desligues da minha promessa. Zina! Soou a hora de uma franca explicação. Foram mortaes estes dois annos de silencio! Isto assim não pode continuar!... Estou prompta a supplicar-te de joelhos que me permittas falar. Entendes, Zina, é a tua propria mãe que cae de joelhos a teus pés! E demais—dou-te a minha palavra solemne—a palavra de uma mãe desgraçada que adora a propria filha—seja qual for o pretexto, em circumstancia alguma d'este mundo, com risco até da propria vida, de nunca mais abrir a bocca a tal respeito.

—Fale! diz Zina, muito enfiada.

Maria Alexandrovna calculou optimamente o lance.

—Obrigada, Zina. Ha dois annos, pois, que frequentava esta casa, por causa do teu irmãozinho, do Mitra, que Deus tem, um utchitel.

—Mas para que foi que a mamã assumiu esses modos tão solemnes, para que estará a desperdiçar toda essa eloquencia, esses pormenores tão escusados e penosos que ambas estamos fartas de conhecer? interrompeu a Zina com enfado.

—Porque a mim, que sou tua mãe, Zina, me assiste o dever de me justificar a teus olhos. E demais, quero apresentar-te este negocio, todo elle, sob uma luz nova para ti e que é a unica verdadeira. Emfim, sem estas promessas, não poderias comprehender a conclusão que d'ellas pretendo deduzir. Não creias, minha filha, que intento fazer pouco dos teus sentimentos. Não Zina, has de encontrar em mim uma verdadeira mãe, e quem sabe se não serás tu a propria a cair-me aos pés, lavada em lagrimas, a supplicar-me que conclua essa reconciliação á qual o teu orgulho se nega ha tanto tempo. Tenho pois que recapitular as coisas desde o principio, ou calar-me.

—Fale, repetiu a Zina, a maldizer de todo o coração a grandiloquencia maternal.

—Continúo, Zina. Esse tal utchitel da escóla communal, um fedêlho, por assim dizer, produziu em ti inconcebivel impressão. Contei sempre com que o teu sizo, a elevação dos teus sentimentos e tambem a indignidade do individuo, (visto que é preciso dizer tudo) evitariam qualquer approximação entre tu e elle. E de repente, vens ter commigo e declarar-me com firmeza que tens tenção de casar com elle. Foi uma punhalada que me déste no coração, Zina! Soltei um grito e caí sem sentidos, mas... não deixarás de te lembrar do incidente. É certo que julguei necessario empregar n'aquella occorrencia toda a minha auctoridade: e por signal que a acoimaste de tyrannia. Reflécte, pois: um garotête, filho d'um diatchok,[1] com um salario de doze rublos mensaes, um escrevinhador de máus versos que lhe imprimem por dó na Bibliothéca de Leitura, que não sabe falar em outra coisa a não ser n'esse maldito Shakspeare,—aquelle fedêlho, teu marido! marido da Zinaida Moskalieva! São coisas que só acontecem nas novéllas pastorís de Florian. Perdão, Zina, mas quando me lembro de tal, saio fóra de mim! Neguei-me a consentir. Não houve influencia que conseguisse convencer-te. Teu pae, naturalmente, manteve-se na neutralidade, incapaz de comprehender-me quando tentei expor-lhe o caso e sem saber fazer outra coisa além de pestanejar. Mantens relações com esse garoto, proporcionas-lhe até ensejo de te ver, e o que é ainda muito peor que tudo isso, tens o arrojo de lhe escrever! E as más linguas desde logo a trabalhar! Fazem allusões offensivas na minha presença. Estão a pular de contentes, a embocar as mil trombetas da calumnia. As minhas antecipações a semelhante respeito vão se realizando uma por uma. Dá-se entre ti e elle um desaguizado e elle manifesta-se indigno de ti. Ameaça-te de mostrar as tuas cartas, e tu, num assômo de justa indignação, dás-lhe uma bofetada!... Sim, Zina, conheço tambem essa circumstancia, estou inteirada de tudo—de tudo, sim! Esse traste, n'esse mesmo dia, mostra uma das tuas cartas áquelle miseravel do Zanchine, e, d'alli a uma hora a carta está em poder da Natalia Dmitrievna, minha inimiga figadal! Á noite, aquelle, doido, arrependido já de semelhante acção inqualificavel, por toleima tenta envenenar-se! N'uma palavra, um escandalo medonho! Aquella pécora da Nastassia accode toda assustada, a participar-me que ha uma hora que a Natalia Dmitrievna se acha de posse da tua carta: não se passarão duas horas, sem que a cidade em pêso apregôe para ahi a tua vergonha. E eu a esticar os nervos para não caír para ali inanimada. Que lance, Zina! Aquella descarada, aquella desavergonhada!

A Nastassia exige duzentos rublos para inutilizar a carta. Eu propria, deito a correr, com os sapatos de trazer por casa, até, atravéz da neve, para ir a casa do judeu Bumschtein empenhar o meu abrochador, recordação da minha virtuosa mãe! D'alli a duas horas tinha a carta em meu poder: roubou-a a Nastassia: arrombou uma boceta e está salva a tua honra. Nem vestigios, sequer! Mas que dia de angustias! Logo ao outro dia, encontrei entre os meus cabellos immensos fios brancos,—os primeiros, Zina! Tu foste a propria a avaliar até que ponto era indigno de ti aquelle garoto, pois concordas agora, não sem amargura, talvez, que teria sido uma loucura entregar-lhe o teu destino. Depois, comtudo, pégas a atormentar-te, a soffrer, não podes varrêl-o da lembrança,—não a elle,—foi sempre coisa tão rasteira que a tua vista nem sequer podia deter-se n'elle,—mas ao teu primeiro sonho de amor. Hoje, esse desgraçado está a expirar—nem sequer já se levanta.—Dizem que morre tisico, e tu—anjo de bondade,—não queres casar emquanto elle fôr vivo; para lhe poupar soffrimento, visto que é ciumento... e não obstante, nunca te teve amor, tenho a certeza, amor sincero, elevado! O que o não impede de espionar os passos do Mozgliakov, de te rondar a casa, de tirar indagações...—Tens dó delle, minha filha, adivinhou-te o meu coração, e Deus sabe as lagrimas amargas que me tem encharcado o travesseiro.

—Veja se acaba com tudo isso, mamã! atalhou Zina com enfado. O seu travesseiro não vem cá fazer coisa nenhuma! Não poderá falar com singeleza?

—Não me acreditas, Zina! Não me trates tão mal, minha filha! Já lá vão dois annos, e não faço outra coisa senão chorar, mas tenho-te encoberto as minhas lagrimas, Zina, durante esses dois annos mortaes!... Ha muito tempo que conheço os teus sentimentos. Medi todo o alcance da tua magua. Poderá alguem lançar-me em rosto, minha querida, o haver considerado semelhante ligação como uma phantasia romanesca, nascida sob a influencia do tal maldito Shakspeare? Qual seria a mãe que condemnasse os alvitres de que tenho lançado mão e achasse rigoroso em demasia o modo por que avalio este caso? E comtudo, a mim propria represento o teu longo padecer, comprehendo e apprecio a tua sensibilidade. Acredita: comprehendo-te melhor, talvez, do que te comprehendes a ti propria. Estou certa de que o não amas, a esse garoto ridiculo: a quem tu amas é ao teu sonho, á tua ventura mallograda, ao esvair das tuas illusões. Eu tambem amei, não cuides que não, e com mais excesso de paixão do que tu; tambem eu padeci; tinha tambem as minhas illusões!... Não falo pois sem experiencia, e se affirmo que uma alliança com o principe representaria para mim a salvação, mereço talvez que me dêem ouvidos.

A Zina ouviu com espanto aquella estirada declaração, farta de saber que a mamã nunca assume aquelle tom pathetico sem designio occulto. E comtudo, a conclusão deixa confundida a joven.

—É pois a sério, que fala em casar-me com o principe? exclama pasmada a considerar a mãe que assumiu attitude majestatica; não é então uma hypothese, como se dissessemos? É tenção firme e assente, pelo que vejo? Mas... como é que poderia salvar-me semelhante casamento? E... e... que relação terá tudo isso com o que acaba de expôr-me, com essa historia toda?... Declaro que a não percebo, mamã.

—E a mim, meu anjo, espanta-me que o não percebas! exclama Maria Alexandrovna, com subita animação. Primeiramente, o facto só por si de teres de transferir-te para outra sociedade, para um mundo differente; de teres de dizer adeus de uma vez para sempre a esta nojenta cidade das duzias, semeada para ti de tão temiveis recordações, á qual te não prende a minima affeição, onde te assacaram calumnias, onde essa sucia de pêgas te detestam por causa da tua formosura, esse facto só por si, repito, é já capital. E depois, podes, ainda esta primavera, ir para o estrangeiro, para a Italia, para a Suissa, para a Hespanha,—Zina—para a Hespanha, onde irás ver a Alhambra, o Guadalquivir! Não estarás farta d'este immundo riacho de Mordassov, com aquelle seu nome inconveniente?

—Mas se me dá licença, mamã! está falando como se eu já estivesse casada, ou pelo menos como se o principe me tivesse já pedido em casamento...

—Lá quanto a isso não te dê cuidado, meu anjo, sei o que estou dizendo. Deixa-me continuar. Eu disse primeiramente, e ahi vae o segundo ponto: Comprehendo, minha filha, quanto te contraría o dares a mão de esposa a este Mozgliakov...

—Sei muito bem, nem preciso de que m'o digam—que nunca serei sua mulher! interrompeu Zina com arrebatamento.

—Se tu soubesses, meu amor, como eu avalio essa repugnancia! É terrivel o ter que jurar perante o altar de Deus amor e fidelidade áquelle a quem se não pode ter amor! É terrivel o pertencer a um homem a quem se não pode respeitar. E todavia, exigir-te-hia amor; foi para te possuir que elle casou comtigo: isso adivinha-se nos olhos que elle te deita quando não olhas para elle. Mas como simular perpetuamente amor? Ah! minha filha, aqui estou eu que ando a padecer ha vinte e cinco annos com esta comedia necessaria. Teu pae deitou-me a perder. Posso afirmar, até, que envenenou de todo a minha mocidade, e quantas vezes não terás visto correr as minhas lagrimas?

—O papá está no campo; não esteja a atacál-o, por quem é!

—Sim, tu saes sempre em sua defêsa, bem o sei... Ah! Zina! Confrangia-se-me o coração quando a prudencia me obrigava a desejar o teu casamento com o Mozgliakov! Com respeito ao principe, com esse não tinhas tu necessidade de representar nenhuma comedia. Escusado é dizer que lhe não poderás dedicar o que se chama amor. E demais, elle proprio é incapaz de exigir semelhante amor.

—Que disparate, meu Deus! E eu affirmo-lhe que se engana de meio a meio: não tenciono sacrificar-me,—ignoro aliás o fim com que o faria. Fique sabendo que não quero casar. Não casarei seja com quem fôr; ficarei solteira. Tem-se farto de me atormentar ha dois annos para cá, por causa de eu ter rejeitado quantos noivos me tem apparecido, mas não tem remedio senão conformar-se; não quero, já disse!

—Zinotchka, não te alteres, pelo amor de Deus, sem me ouvires, meu amorzinho! Que cabeça tão esturrada! Consente em que eu te exponha o caso em conformidade com o meu modo de ver, e verás que has de vir a concordar commigo. O principe poderá ainda viver um anno, dois, talvez, mas não vae além, com certeza. Ora, mais vale ser viuva e nova do que velha solteirona, isto sem falarmos em que depois de elle fechar o olho ficas sendo princêsa, rica e livre. Minha querida, desprezas talvez estes meus calculos baseados na morte de um homem, mas sou mãe, e quem haverá ahi que condemne a minha previdencia? Em conclusão, se tu, anjo de bondade, ainda tens pena d'esse tal garoto, se tu, conforme eu suspeito, não queres casar emquanto elle fôr vivo, considera que, se casares com o principe, vaes resuscitar aquelle a quem amas! Se é que a elle lhe restam ainda uns vislumbres de bom senso, comprehenderá, manifestamente, que o ter ciumes a respeito do principe, seria coisa fora de proposito, ridiculo. Comprehenderá que não casas com este velho a não ser por interesse, por necessidade. N'uma palavra, comprehenderá... quero dizer—depois de fallecido o principe, já se vê,—que poderás casar segunda vez, se fôr da tua vontade...

—Casar com o principe, expoliá-lo, e estar á espera de que elle morra para depois ir casar com o meu amante, não é assim? É muito habil; quer seduzir-me propondo-me... Percebo-a á legua, minha mãe, percebo-a optimamente. Só o lembrar-me eu de que não pode deixar de fazer alarde de nobres sentimentos, até, n'um negocio tão pouco limpo? Seria muito mais estimavel o dizer-me, singelamente: "É uma ignominia, Zina, mas é lucrativa; e portanto, acceita." Sequer ao menos era mais franco.

—Mas que teimosia será essa tua em encarar o negocio no ponto de vista da trapaça, da arteirice, da cobiça? Consideras os meus calculos como uma soez hypocrisia; mas, em nome de quanto venéras como mais sagrado, onde estará a baixeza, onde a hypocrisia? Vê-te bem n'aquelle espelho: és formosa o sufficiente para conquistares com esses teus olhos, sem mais nada, um reino! E tu, tão formosa, sacrificas a um velho os teus melhores annos; tu, estrella magnifica, vaes embellezar-lhe o occaso da vida; tal qual a hera viçosa, florir na sua velhice! Está afeito á companhia de uma feiticeira que o sequestra lá n'um canto do mundo, e d'essa feiticeira, és tu, tu, Zina, quem vaes ser successora! O dinheiro e o titulo d'elle podem lá equiparar-se ao teu valor? Onde vês pois n'isto a baixeza, a hypocrisia?

Nem sabes o que estou dizendo, Zina!

—O dinheiro e o titulo d'elle valem mais do que eu, visto que para os alcançar, teria que resignar-me a casar com um enfermo. Dêmos ás coisas os seus nomes: é uma ignobil hypocrisia, mamã!

—Pelo contrario, minha querida, pelo contrario! O caso pode até ser encarado de um ponto de vista superior, christão. Declaraste-me, um dia, em um assômo de enthusiasmo, que querias ser irmã da caridade: o teu coração exaltara-se de amor ao pensares nos humanos soffrimentos, outro qualquer amor parecia-te tibio e mesquinho. Pois bem! Se ainda queres acreditar no amor, acredita na dedicação, com sinceridade, tal qual uma creança, com candura. Dedica-te, e abençoar-te-ha Deus! Tem padecido este velho; é desditoso, perseguem-n'o. Conheço-o ha muitos annos e sempre lhe dediquei incomprehensivel simpathia, carinho, por assim dizer: presentia o futuro. Sê sua amiga, minha filha, seu brinquedo, até, se é forçoso dizêl-o, mas aquenta-lhe o coração e fál-o por amor de Deus! Admittamos que é ridiculo? Elle nem sequer d'isso tem consciencia. Não chega a ser a metade de um homem. Tem dó d'elle, tu, que és christã. Contrafaze-te; com força de vontade consegue-se domar a alma para semelhantes façanhas. Quanto não custa o pensar as chagas nos hospitaes, com que repugnancia se não respira o ar viciado dos lazaretos: mas não ha anjos que desempenham sem asco essas repugnantissimas taréfas e que ainda dão graças a Deus pela triste sorte que lhes coube? E ahi está o remedio de que tanto necessitava o teu magoado coração: uma tarefa heroica! Onde vês tu n'isto egoismo? Baixeza? Não me acreditas, suppões que estou representando uma comedia, não podes comprehender que uma mulher mundana, n'este meio de viver leviano, possa ter uns sentimentos de tanta elevação? Pois bem, não me acredites, minha filha! Desconfia do coração de tua mãe! mas sequer ao menos concorda em que as minhas palavras são sensatas e salutares. Esquece que sou eu quem te estou falando, fecha os olhos, volta-me as costas e põe na tua ideia que é uma voz misteriosa que estás ouvindo... O que acima de tudo te prende, é a questão de dinheiro, essa apparencia de compra e venda. Pois bem, rejeita o dinheiro visto que lhe tens tamanha aversão, acceita apenas o necessario, e o resto, dá-o aos pobres. Por exemplo, estende o teu braço áquelle desgraçado que está ás portas da morte.

—Elle nunca acceitaria, disse a Zina, baixinho, como se estivera falando comsigo.

—Dado o caso de que elle rejeite, lá está a mãe para o acceitar em nome d'elle, responde Maria Alexandrovna sentindo que conseguiu acertar-lhe com a corda sensivel. Acceitará sem que elle proprio o saiba. Já vendeste os teus brincos (presente de tua tia) para lhe accudir, ha seis meses, que eu bem o sei, e tambem sei que a mãe, a pobre da velha, anda a lavar roupa para sustentar o filho.

—Dentro em pouco deixará de precisar seja do que fôr.

—Comprehendo-te! apanha de relance Maria Alexandrovna, (accode-lhe uma inspiração, uma verdadeira inspiração.) Dizem que morre tisico: mas quem é que o affirma? Indaguei a seu respeito, ha dias, do Kalist-Stanislavitch... Pois sou a primeira a interessar-me pelo pobre rapaz, tambem tenho coração, Zina! E o Kalist-Stanislavitch respondeu-me que a doença é grave, não ha duvida, mas que, até hoje, existe apenas uma forte affecção dos bronchios,—tu mesmo lh'o podes perguntar. E accrescentou que a mudança de clima, impressões fortes, podiam curar o doente. Contou-me elle que, em Hespanha—e já não é a primeira vez que o oiço... li-o, até—ha uma ilha extraordinaria, Malaga, creio eu... emfim, um nome que lembra o de um qualquer vinho—onde não só os que padecem do peito, mas até os proprios tisicos saram de todo, graças ao clima. Vão ali tratar-se fidalgos, e commerciantes ricos. Que elle, effectivamente, a Alhambra—esse palacio encantado—as murtas e os limoeiros, os hespanhoes a cavallo nas mulas, não será o sufficiente a produzir impressão n'uma natureza de poeta? Suppões que rejeitaria o teu dinheiro?... Enganas-te se tens dó d'elle! A mentira é perdoavel, quando d'ella depende a vida. Alimenta-lhe a esperança, promette-lhe o teu amor, dize-lhe que casarás com elle quando enviuvares,—tudo se pode dizer com nobreza: tua mãe não era capaz de te dar maus conselhos, Zina!—Has de fazer tudo isso para o salvar e o bastante para te justificares. Recuperará alento assim que souber que está esperando por ti. Tratar-se-ha, seguirá rigorosamente as recommendações do medico, ha de querer resuscitar para a ventura. Se elle se curar, ainda quando não viesses a ser sua mulher, sequer ao menos têl-o-has salvo! e se a desventura o tiver mudado, se o houver tornado digno de ti, casarás com elle. Effectuada a cura, poderás alcançar-lhe uma situação na sociedade, facultar-lhe uma carreira. O teu casamento, n'estas condições, tornar-se-ha possivel. Hoje!... que é que os espera a ambos, se porfiassem em perpetrar o acto de loucura de casarem. O desprezo de toda a gente e a miseria.

Pensas acaso que a leitura entre ambos do seu Shakspeare lhes havia de compensar tudo isso? Ficariam a vegetar aqui em Mordassov até que elle morresse, o que não tardaria, aliás. Mas se está na tua mão o incutir-lhe gosto pelo trabalho e pela virtude!

Perdoa-lhe e adorar-te-ha. O remorso d'aquelle seu acto vergonhoso apavóra-o! O teu perdão tudo irá ápagar e reconciliál-o-ha comsigo mesmo.

Passa ao serviço activo, sobe postos, e se morrer, sequer ao menos morrerá feliz, nos teus braços (visto que poderás achar-te a seu lado), seguro do teu amor, do teu perdão, á sombra das murtas e dos limoeiros, debaixo da cupula azul de um ceu exotico. Ah! Zina! Tudo isto se acha nas tuas mãos; basta que consintas em casar com o principe.

Cala-se Maria Alexandrovna. Segue-se prolongado silencio. A Zina acha-se no auge da afflicção.

Não nos abalançaremos a descrever os seus sentimentos: não os conhecemos. Mas, a julgar pelas apparencias, Maria Alexandrovna encontrou o verdadeiro caminho para o coração da filha. Não ha duvida de que a excellente mãe andou um tanto ás apalpadélas, até que por fim conseguiu pôr o dedo na ferida, principiou por maguar sem precaução os pontos mais sensiveis das feridas ainda abertas, a despeito de um desenvolvimento por ahi além de sentimentos.

Agora, comtudo, logrou introduzir na mente da Zina o pensamento que a si lhe convinha: produzindo-se o effeito, alcançou-se o fim desejado. A Zina escuta com soffreguidão, com as faces afogueadas, o seio a arfar.

—Ora escute, mamã,... diz por fim, resoluta, comquanto a subita pallidez manifeste claramente quanto lhe custa semelhante resolução.

—Escute, mamã...

N'este ensejo, comtudo, resôa no vestibulo um ruido: uma voz aguda a chamar por Maria Alexandrovna.

Maria Alexandrovna levanta-se com vivacidade.

—Ah! meu Deus! demonios levem aquella pêga! É a coronela! E eu que quasi que a despedi, ha quinze dias! accrescenta, desesperada...

Mas é impossivel recebêl-a agora! De todo impossivel! E comtudo isso... quem me diz que me não virá trazer noticias... aliás, nunca se atreveria. É caso sério, Zina, é-me indispensavel sabêl-o, nada se póde desprezar...

—Como lhe fico grata por esta sua visita... quanto estimo!... exclama correndo ao encontro da coronela. A que feliz acaso serei eu devedora de se ter lembrado de mim, minha preciosa Sofia Petrovna? Encantadora surpreza!

A Zina deitou a fugir.

Notas[editar]

  1. Sacristão.