Um benemérito peito

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Ao retiro que fes este illustrissimo prelado sentidissimo, e maguado pela tyranna, e violenta morte que o capitão da guarda Luiz Ferreyra de Noronha deo a seu sobrinho.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Nossa Sé da Bahia

1Um benemérito peito,
uma Sacra Dignidade
sentir vem na soledade
da parca o cruel efeito:
que de um golpe sem respeito
quis cortar o vital fio,
sem atender Senhorio,
nem ver, o despojo horrendo,
de quem se agravara, vendo
desautorizado o brio.
  
2Já de todo o mal distando
em Belém busca o retiro,
onde um, e outro suspiro
a pena estão aumentando:
e no pesar contemplando
jamais será divertido,
vendo de todo perdido
por culpa de um traidor vil
aquele Adônis gentil
a cadáver reduzido
  
3Se a lei se deve observar,
como agora falta, e tarda?
a Justiça apenas guarda,
que agradou por aguardar:
privou por se depravar
pela via nunca usada,
deu ao vício franca entrada,
e bem se pode entender,
que enquanto vivo há de ser
privado pela privada.
  
4Mas que muito haja amparado
um Calígula tirano
a seu amigo inumano
Capitão de cama, e lado?
o vulgo tem murmurado,
e a maldade não se doma,
e a sem-razão, que se assoma,
como demais já sobeja
contra um Ministro da Igreja
um nefando de Sodoma.