Um vendelhão baixo, e vil

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Sacode a outros, que peccavão na presunção, e atrevimento indigno.
por Gregório de Matos
Poema agrupado posteriormente e publicado em Crônica do Viver Baiano SeiscentistaOs Homens BonsA Musa Praguejadora

1Um vendelhão baixo, e vil
de cornos pôs uma tenda,
e confiado, em que os venda,
corre por todo o Brasil:
para mim de tantos mil
lhe mandei, que me guardasse,
se verdade não falasse
em sobrosso, e com sojorno:
Um corno.

2Para o Alcaide ladrão
com despejo, e com temor,
que na mão leva o Doutor,
na barriga a Relação:
indo à casa de um Sansão
entra audaz, e confiado,
e faz penhora no estado
da mulher, e seu adornos:
dois cornos.

3Para o escrivão falsário,
que sem chegar-lhe à pousada,
dando a parte por citada,
dá fé, e cobra o salário:
e sendo o feito ordinário,
como corre à revelia,
sai a sentença num dia
mais amarga que piornos:
três cornos.

4Para o Julgador Orate
ignorante, e fanfarrão,
que sendo Conde de Unhão,
já quer ser Marquês de Unhate:
e por qualquer dou-te, ou dá-te
resolve do invés um feito
e assola a torto, e direito
a cidade, e seus contornos:
quatro cornos.

5Para o Judas Macabeu,
que porque na tribo estriba,
foi de Capitão a Escriba,
e de Escriba a Fariseu:
pois no ofício se meteu
a efeito só de comer,
sufrágios, que em vez de os ter,
quer antes arder em fornos:
cinco cornos.

6Para o bêbado mestiço,
e fidalgo atravessado,
que tendo o pernil tostado,
cuida, que é branco castiço:
e de flatos enfermiço
se ataca de jeribita,
crendo, que os flatos lhe quita,
quando os vomita em retornos:
seis cornos.

7Para o Cônego observante
todo o dia. e toda a hora,
cuja carne é pecadora
das completas por diante:
cara de disciplinante,
queixadas de penitente,
e qualquer jimbo corrente
serve para seus subornos:
sete cornos.
 
8Para as Damas da Cidade
Brancas, Mulatas, e Pretas,
que com sortílegas tretas
roubam toda a liberdade:
e equivocando a verdade
dizem, que são um feitiço,
não o tendo em o cortiço
tanto como caldos mornos:
oito cornos.

9Para o Frade confessor,
que ouvindo um pecado horrendo
se vai pasmado benzendo,
fugindo do pecador:
e sendo talvez pior
do que eu, não quer absolver-me,
talvez porque inveja ver-me
com tão torpes desadornos:
nove cornos.

10Para o Pregador horrendo,
que a Igreja esturgindo a gritos,
nem ele entende os seus ditos,
nem eu também os entendo:
e a vida, que está vivendo,
é lá por outra medida,
e a mim me giza uma vida
mais amarga, que piornos:
dez cornos.

11Para o Santo da Bahia,
que murmura do meu verso,
sendo ele tão perverso,
que a saber fazer faria:
e quando a minha Talia
lhe chega às mãos, e ouvidos
faz na cidade alaridos,
e vai gostá-la aos contornos:
mil cornos.